48 horas de felicidade

Amelia Redimensionada

Lisboa, Cais do Sodré. Os anos do meu querido e grande amigo, um herói da selva urbana que conquista tudo o que tem a pulso e na ponta do arame.

Local: O mais divertido e imprevisível bar de Lisboa, onde profissionais da noite, polícias, mulheres cinquentonas e homens de cabelo grisalho que gostam de beber um copo se cruzam com camones adolescentes, asiáticas de 18 anos, apreciadores de shots e pessoal que adora a discoteca Jamaica mas aqui paga dez vezes menos.

Pomos toda a conversa em dia, conto as aventuras dos últimos meses e escuto os triunfos quotidianos que ele e a sua companheira atingiram recentemente.

No dia seguinte, um encontro nocturno com outro casal igualmente próximo. Que, como alguns dos meus mais chegados, tem paciência para inventar grandes iguarias vegan a pensar nas minhas visitas.

Têm uma filha e dois gatos. A pretinha parece uma cópia da minha Amélinha, a “Gááta!!”. Embora seja muito mais gordinha e menos comprida, os comportamentos de ambas fazem delas gémeas.

Esta amiguinha que vejo de vez em quando mia para mim, chama-me docemente, ronrona-me, fica feliz com a minha presença e pede-me festinhas e miminhos. Dá gritinhos amorosos. Como a minha panterinha. Parece quase que estas duas negritas de seis anos partilham a mesma personalidade.

12 horas depois o almoço com os meus pais: Comer e beber que nem um abade vegetariano e guloso e saber tudo o que se passou ultimamente com a família. Sou mimado durante todo o dia, como sempre acontece nestas deslocações à margem sul.

No final da jornada regresso a casa, arrumo as oferendas semanais e estico-me no sofá. Leio o jornal, espreito as parvoíces que acontecem dentro do telemóvel e vejo uns três ou quatro filmes.

Um do Corto Maltese, bastante relaxante e sem pés nem cabeça; um western dos tempos modernos, ainda mais absurdo; e, pela quinta vez, uma película com George Clooney que fala de vida, morte, eutanásia e de um marido traído que vai anunciar o falecimento da esposa à família e a toda a gente – incluindo o amante cuja existência ele desconhecia.

Durante estas lânguidas horas dominicais o Jeremias fica sempre a escassos centímetros de mim. A “Gááta!!” em cima dos meus tornozelos. E a Matildinha, finalmente, faz o que já não acontecia havia dois meses. Vem para a sala, enrola-se, enrosca-se e abraça-se a mim.

Momentos de pura felicidade e leveza espiritual. Mais tarde, ao deitar-me, o meu pequeno tigre doméstico e a Amélinha voltam às suas posições naturais, em cima dos meus pés, da barriga das minhas pernas, das minhas costas e do meu rabo.

A Matildinha permanece do meu lado direito, discretamente, para não a chatearem.

De manhã, estas companhias felpudas e carinhosas sabem-me tão bem, e estou tão cansado do fim-de-semana, que só me levanto já em cima da hora.

Mas ainda consigo ir para o trabalho a pé, junto às águas murmurejantes, e ler uma ou duas notícias a olhar para o Tejo, antes de iniciar a minha actividade laboral.

Eu disse que hoje estava com a neura? Hm… Devo ter-me enganado!

Uma visita especial

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A mãe humana da Matilde, do Jeremias e da Amélinha (a “Gááta!!”), a Maria (minha ex-mulher, que vive em Inglaterra há quatro anos) veio a Portugal.

E foi visitar os filhotes felinos em Santa Apolónia.

Os príncipes cinzentos e a esguia pantera negra que viveram com ela desde bebés não a viam havia um ano.

Sempre que há alguém lá em casa que não seja eu, a minha pretinha carinhosa foge imediatamente para cima do armário da cozinha…

Pois estes três seres doces, assim que a Maria entrou, reagiram com toda a normalidade do Mundo, como se a tivessem visto no dia anterior.

Ficaram os três à volta dela enquanto esteve lá, dando e pedindo doses industriais de amor e carinho.

A “Gááta!!” permaneceu ao colo dela, feliz e encantada. Só faz isto com dois seres à face da Terra. Eu e a Maria.

Não pôde estar muito tempo, mas foram momentos de alta qualidade para ela e para eles.

Nesse dia, quando me fui deitar, estes entes felinos em quem concentro o que tenho e o que sou vieram de imediato, ao início da noite, para a minha cama.

Até de manhã. Levantei-me três vezes ao longo da madrugada, mas voltaram sempre.

Incluindo a minha linda princesa Matildinha, que tem medo de tudo e todos, razão pela qual não costuma ir tantas vezes nem tão rapidamente juntar-se a nós quando o Sol se apaga e as estrelas invadem o céu.

Mas estavam tão contentes e enternecidos que nem a chatearam quando veio connosco para cima do édredão.

Passámos essas horas de descanso em perfeita harmonia e tranquilidade doméstica.

A estadia não foi muito longa, mas para os três meninos e para a sua mãe imigrada cada minuto valeu a pena e deixou efeitos permanentes.

Já posso mudar de roupa!!

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Uma saga sem fim. Verificar que O Velho Equipamento de Purificação de Vestuário entregou a alma ao Criador, após diagnóstico pronto feito por russos eficientes.

Procurar, comparar modelos e preços, adquirir uma nova Lavadeira. Recebê-la, assistir à sua colocação.

Assegurar-me de que levavam a antiga, como contratualizado e pago – mas que não aconteceu.

Após tais rocambolescos capítulos, não estava ainda concluída a epopeia.

Horas depois de os conterrâneos de Lula da Silva terem instalado o electrodoméstico (que ali ficou, desligado e sem ser usado), algo de novo sucedeu.

Começo a ver água sair de debaixo dele.

As jornadas seguintes foram passadas a exigir que fosse rapidamente lá um técnico  (demorou cinco dias), sempre com a água fechada e sem poder usar o aparelho.

Finalmente, decorrida uma semana, chega o ansiado especialista.

Um homem que tem e adora gatos. Um dos quais, de personalidade doida, canina e excessivamente sociável, como o meu pequeno tigre doméstico.

Assim que chega, o técnico desata a brincar com ele. Puxadelas carinhosas nas orelhas, palmadas meigas no lombo, festas e conversas entre os dois.

Não se largam um ao outro. O meu Jeremias sobe aos píncaros da felicidade felina.

A Whirlpool barata, sofisticada e eficaz tinha sido completamente mal montada.

Um tubo à face do outro em vez de bem enfiado lá dentro, torneiras abertas ao invés de apertadas, tudo mal feito e fora do sítio.

Usá-la assim era um convite à tragédia.

A conclusão final de tudo isto:

– Já posso mudar de roupa!

– O Jeremias tem um novo amigo.

– Compras na Worten? Instalações? Montagens? Muito, muito cuidado!!!

Toda a verdade sobre a Worten

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A verdade, toda a verdade e nada mais que a verdade é esta.

Quando os moços cariocas de uma das empresas de distribuição da Worten vieram trazer a máquina de lavar nova não levaram a velha, por incompetência burocrática da referida entidade, e marcaram outro dia para a recolha.

Depois de esperar sete horas que os jovens do outro lado do Atlântico cheguem, aparecem.

Um deles diz-me que não vão levar com eles este artefacto da civilização… Porque tem água.

Vejamos então. O aparelho deixou de funcionar. Tive que interromper o seu trabalho a meio para não provocar uma tragédia.

Os russos que lá foram a casa levaram-me a perceber que o estado deste objecto de muitos quilos era irremediável.

Se a pusesse a operar para terminar o último programa, corria o risco de originar uma explosão, derreter a cozinha e incendiar o prédio.

Pois os dois potenciais eleitores de Lula da Silva não queriam auxiliar-me fazendo desaparecer da face da Terra este indesejado ítem.

Um deles desce as escadas e liga à Worten para oficializar este desagradável impasse tecnocrático.

Explico ao outro:

Então mas o que é que eu faço?? Está avariada, não posso activá-la, na loja disseram-me que me livravam dela.

O rapaz de sotaque cantante começa a mexer no impopular instrumento e a movê-lo.

Acaba por dirigi-lo até à rua, à porta do prédio. Sugiro que seja deixado do outro lado da estrada, junto ao Ecoponto e aos contentores do lixo.

Não, senão vão-me multar!

E se for eu?

Vão multá-lo a você!

Sem saber o que fazer, acabo por ir trabalhar, com mais de quatro horas de atraso, enquanto os apoiantes da Selecção Canarinha se põem levemente ao fresco.

Chego à uma da manhã. Lá está o sinistro volume à entrada do edifício.

Tomo-lhe o pulso, começo a produzir-lhe rotações e a arrastá-lo para o outro lado da via, para o tal local onde os cidadãos depositam o que já não tem préstimo para a sociedade.

A meio da travessia da rodovia, uma carrinha grande pára à minha frente. Sai um moço simpático, divertido e cheio de energia:

Boa noite, amigo! Vamos levá-la os dois, um em cada ponta, senão nem amanhã!

Segundos depois lá fica ela, ao lado de grandes quantidades de cartão, vidro, plástico e substâncias orgânicas resultantes da actividade humana.

Pelas quatro ou cinco da madrugada, ouço ruídos que associo a cargas e transportes.

Às sete da manhã desperto, vou à janela e espreito o outro lado da rua:

A Samsung de dez programas e com cinco quilos de capacidade não faz mais parte da minha existência.

Quando a minha “Gááta!!” desapareceu

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A máquina de lavar entregara a alma ao criador. Fui comprar uma.

Pedi que, na entrega, recolhessem a antiga.

Sim, tudo bem!

No dia seguinte, chegam os dois rapazes da terra de Gabriela Cravo e Canela.

Instalam a máquina mas não têm ordens para levar a velha. Um erro do sistema levou a que não fossem emitidas as guias.

Após meia dúzia de discussões e reclamações telefónicas reagendam o levantamento do vetusto electroméstico para daí a 48 horas.

Peço que venham às oito da manhã porque é dia de trabalho. Chegam às três da tarde.

Com todas as mexidas, máquinas para trás, monos para a frente, homens a entrar, indivíduos a sair, a Amélinha, a “Gááta!!”, desaparece.

Entro, saio, vou à escada e à rua, regresso. Vejo em cima, em baixo, atrás, à frente dos armários.

Longos e angustiantes momentos depois ressurge na cozinha, perto da caldeira de água, a um centímetro do tecto. Descubro mais tarde que durante algum tempo permanecera oculta no quarto, entre o édredão e o colchão da cama.

Terminado este episódio alucinante preciso de fumar um cigarro, ler algumas páginas d’ Os Miseráveis de Victor Hugo e dar 500 abraços à minha “Gááta!!” para me acalmar.

Os russos gostam de gatos

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Já andava a prometê-las.

Primeiro, começou a perder água. Abri-lhe aquela portinhola na parte de baixo, deitou tudo cá para fora e aparentemente ficou bem…

A máquina de lavar roupa mal humorada começou então a fazer barulhos inesperados, cada vez mais bizarros e sombrios.

Da última vez que entrou em acção, estava furiosa. Deitava fumo. Era altura de desligar. E pegar no telefone.

No dia seguinte, apareceram dois russos simpáticos e eficientes. O Jeremias não os largava um segundo. Tive que lhes pedir desculpa.

Lamento, este gato é demasiado sociável.
Ah, nnão faz mmál! Ele deixa fazer festinhas?

Expliquei o óbvio:
Adora pessoas, visitantes, novidades.

Hm, é que há gatos que não gostam de festinhas.

Pois, está a ver ali em cima do armário, aquela tira negra com olhos curiosos e rebeldes? É uma gata. Não estabelece relações com estranhos.

A gordinha linda que está no chão é intermédia. Não é atrevida como o irmão, mas acha graça a desconhecidos com malas grandes e instrumentos misteriosos.

Muito bem. Tambor novo, borracha estragada, bomba inutilizada, resistência para trocar. Pelo menos 320 euros de arranjo.

Certo. Pago a deslocação aos bem dispostos conterrâneos de Putin, agradeço-lhes o trabalho e começo a fazer contas à vida.

Tenho um gato de seis quilos

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Depois de tudo aquilo a que já assisti, ver um gato que parece estar a comer  menos é para mim sinal de pânico imediato.

E era isso mesmo que estava a observar. Não dava com os meus filhotes felinos a atacarem a comida. Via-os com pouca vontade de se alimentarem.

Quem me preocupava mais era o meu adorável e louco lince cão, o ágil tigre Jeremias.

Fui buscar meia dúzia de patês Gourmet, a arma secreta para estes casos. Dei-lhe um fármaco de uso veterinário, receitado em casos de ausência de apetite.

Voltei a encontrá-lo de roda do seu prato e comecei a preocupar-me um bocadinho menos, com ele e com os outros.

Mas não fiquei descansado.

No fim-de-semana, pesei na clínica as três péstes que são a luz da minha vida.

A Matilde aumentou de volume. A Amélinha, a minha eterna bebé “Gááta!!”, manteve o peso.

O Jeremias, aquele ser canino que mia e se refastela sobre as minhas pernas ou peito sem roupa em pleno Verão, engordou. Bastante.

Está, então, com seis quilos. Aliás, seis quilos, duzentos e cinquenta gramas. O tal jaguar citadino que parecia andar sem vontade de comer.

Bom, andava a preocupar-me demais!

Comprei 13 sabores num dia

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De repente ouço aquele pingente de gente gata que manda no meu coração vomitar e lamentar-se. Momentos depois vejo-lhe os olhos tristes e sem energia.

Mais uns quantos minutos e vamos para o veterinário. A gastrite de Dezembro passado parece ter voltado.

Desta vez foi detectada logo no início, e tratada de imediato. Mesmo assim, a esguia e doce pantera negra que decidiu ser minha aos dois meses, a “Gááta!!”, não queria voltar a comer, durante as primeiras 24 horas, por mais que insistisse.

Trouxe da clínica 13 sabores diferentes de comida, para ver se a persuadia. Nesse dia, de manhã e à noite, acabou por se deixar tentar por umas latas de Gourmet mousse e fondant, um dos alimentos a que os felinos quase nunca resistem.

Nessa noite e no dia seguinte voltou a atacar com satisfatória convicção estas iguarias criadas por quem sabe do que gostam os patudos.

Custou-lhe levar as injecções durante vários dias, e a mim também me doeu, ver a reacção de desagrado e fúria da minha bebé.

Amar é isto. Os pequenotes fazem-nos os mais felizes dos humanos quando correm de um lado para o outro, saltam para o nosso colo e se aninham nas nossas pernas, miando e ronronando apaixonadamente.

Quando ficam doentes, para eles são penas de corpo e de espírito. Para nós, é o coração a ficar metido dentro de um frasco de vidro pequenino, apertado, sem saber para onde ir.

Mas felizmente ao primeiro dia espevitou de imediato com os tratamentos, e ao segundo deixou de fugir dos pratinhos de comida!

Sou o melhor da equipa

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Só acreditei depois de me dizerem três vezes. Este mês sou o melhor da equipa em termos de taxa bruta de promotores: A quantidade de utilizadores que ficam satisfeitos com o nosso atendimento.

Eu, sinceramente, ainda não sinto isso. Passo grande parte do tempo a pedir ajuda, há imensas coisas que não percebo e sinto sempre os pêlos das costas a subir um bocadinho quando o telefone toca.

Mas pelos vistos os números dizem que estou a fazer um bom trabalho.

É certo que estou a esforçar-me. Porque preciso do emprego, do dinheiro e gostava de conquistar pelo menos um pedacinho do bónus.

Mas sobretudo porque a nossa chefia é fantástica e merece todo o empenho e dedicação do Mundo.

Desenhou as estratégias possíveis e imaginárias para aumentar o meu número de casos por dia e a minha taxa de promotores.

Acreditou em mim. Deu-me força. Aturou-me. Teve paciência para as minhas dúvidas mais cretinas e disparatadas.

Ajudou-me em todos os momentos e mais algum. Quando precisei de chegar atrasado ou meter uma folga à pressão para amparar a minha família felina nem hesitou.

Para algumas pessoas, a gestão autoritária e agressiva pode ser uma coisa que faz sentido.

Para mim, uma liderança compreensiva, apoiante, próxima, prestável e humana é capaz de fazer milagres. Como este que acabou de acontecer.

Seres vivos que comem, bebem, fodem e morrem

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Do devaneio deriva a dor e decorre a felicidade com que se lida com a existência.

Há sete sultões míopes que se passeiam sobre o sal frente ao farol.

Ouve-se a resina a falar pela voz do vento que sopra sobre as canas do canavial. Os pinheiros abanam sob a brisa estival do fim da tarde.

A cem quilómetros há um barco a atracar cheio de seres humanos de pele crestada, que as pessoas de tez empalidecida não querem ver entrar nos seus portos.

Os que buscam desesperadamente abrigo, e os que o negam, são todos seres vivos que nascem, existem, comem, bebem, fodem, amam, odeiam e morrem.

Escuta-se o toque de finados do Ocidente. A fina capa da civilização escurece e dilui-se dando lugar ao medo, à ignorância e ao egoísmo.

Mergulhamos voluntária e cegamente na noite funda do racismo, da dominação, nos dias negros dos homens fortes e dos rebanhos ordeiros.

Esta lição, tínhamo-la aprendido há 70 anos, e há cem anos, e há duzentos anos.

Insistimos em não saber, não amar, não aceitar. Preferimos ignorar e odiar.

Pensava que já tinha ouvido de tudo, até àquele dia.

Um homem travesti, provavelmente alvo de preconceitos e agressões ao longo da vida, apoiando as políticas de Trump e de Salvini, considerando-as justas e adequadas.

Criticando o governo nacional por ir buscar refugiados a países de fora da Europa.

Conseguimos sempre ser surpreendidos.