A conversa que não aconteceu

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A menina, em idade de saber ler, contar e reflectir, entra no estabelecimento.

Tem cabelos escuros e uns olhos pretos, brilhantes, em constante movimento. Não sabe onde há-de sentar-se.

Depois de andar para a direita e para a esquerda acaba por decidir-se pela mesa em frente. Fica ali algum tempo sozinha.

O simpático idoso que anda a recolher uma ou outra peça de louça para devolver ao balcão chega ao pé dela e pergunta-lhe como está, se está tudo bem.

A garota responde que sim e o ancião sorri para ela, carinhoso. Vai ele próprio instalar-se na esplanada e beber o seu café.

Passado um bocado, chega o pai da pequena. Não um, mas dois pares de fones pendurados nos ouvidos.

Um telefone inteligente e um computador tablet para ele, e outro tablet para a filha.

Cada um agarra-se ao seu dispositivo (dois, no caso dele).

O homem de 40 anos vai de vez em quando à rua com o i-phone e um dos pares de auscultadores, fazer uma chamada. Depois volta, e continuam os dois a interagir com os seus écrãs, não um com o outro.

Cerca de uma hora depois, trocam-se as primeiras palavras: “Vamos embora, filha?”. “Sim.”.

O homem de 70 anos que andava a levar os pires para o balcão, e que nunca tinha visto a miúda, dialogou mais com ela do que o pai.

Como é que entro no site?

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Não há muitas chamadas. Os utilizadores brasileiros andam calmos, dos portugueses nem se ouve falar.

Quando os subscritores do outro lado do Atlântico  ligam é para saber como aceitar ou recusar uma reserva, ou como entrar no seu perfil, ou colocar indisponível uma data no calendário do seu imóvel.

Muitas vezes não conseguem ou não sabem fazer a autenticação do seu contacto, porque desconhecem qual é o seu nome de utilizador.

O trabalho acaba por ser um pouco caricato, fácil e difícil ao mesmo tempo. Implica explicar, por exemplo, o que é um e-mail de confirmação e um código de confirmação de uma reserva.

É necessário dizer a mesma coisa várias vezes, alto e devagar, e formulado de modos diferentes.

Há o clássico do anfitrião que registou a propriedade e começou a hospedar pessoas na casa há semanas ou meses. Ainda não recebeu nenhum pagamento. Tudo porque nunca chegou a incluir no seu perfil no site uma conta bancária, ou alguma outra forma de receber os pagamentos.

Com os portugueses também há situações invulgares. Não percebem, por exemplo, porque deixaram de receber reservas.

Aconteceu algo como não verem os emails, onde receberam uma comunicação dizendo que têm que preencher o formulário fiscal X, ou fazer a verificação empresarial Y, obrigatória para quem tem rendimentos acima de W…

Este ano, é previsível que passe do nível I para o nível II na empresa. Significa ganhar o mesmo ou menos e lidar com situações diferentes.

2019 será uma época de transformações. Venham as novidades para agitar o dia-a-dia!  

Agora só como chocolate

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Não encontrava em lado nenhum chocolate totalmente vegan, sem vestígios de leite, sem qualquer substância de origem animal. Foi assim durante dois anos.

Um amigo meu pelos vistos arranjava, mas devia custar os olhos da cara, e era porque estava sentado.

Agora – quando me preparo para sair de onde estou – o Celeiro do Saldanha já tem chocolate cem por cento vegetariano. Até que enfim!

Em poucos dias já comprei (mesmo!) dezenas de barras. Passei quase a alimentar-me de chocolate. Ao pequeno-almoço. Ao lanche. Ao jantar. No cinema. Antes do almoço. Depois dele. Agora sou ainda mais do que vegan. Sou chocolegan.

Só como chocolate. Vegan, claro. Estou feliz.

Continuo a sugar gelados vegan, tamanho Grande, várias bolas, mas todas de chocolate. E a devorar barras alimentares à base desse ingrediente, bem como a fazer desaparecer bolachas em que esse é o protagonista, e a dar sumiço a bolos, mousses e outros alimentos constituídos a partir do célebre e venerado alimento negro.

Mas agora, para gáudio supremo e beatitude completa da minha pessoa, também posso deglutir tabletes desse nutriente, embrulhadas em papel e prata, pretas, estaladiças, espessas, intensas. Estava mais que na hora.

Bem vinda, princesa felina dos domínios vascais                        

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Desde ontem à tarde ainda não parou de miar e ronronar. A Matilde já estava nisto quando cheguei à clínica, para a ir buscar depois da operação, e continuou.

Deram-lhe Mirtazepina, para abrir o apetite. É uma espécie de ecstasy dos gatos. Ficam com a moca, todos malucos. Não param de conversar e pedir atenção. Assim tem sido.

Cheguei a casa, tirei-a da transportadora, já com a casa de banho dela, a água, de Monchique, a ração nova e especial e o patê para ela no quarto. Já tinha comido na clínica por isso não ligou muito àquilo.

Fiz os tratamentos habituais aos felinos lá de casa, dei-lhes comida, deixei-os verem-na e ela a eles, só por um ou dois minutos. A Amélinha, a “Gááta!!”, reage mal a estas alterações de rotina.

A Matilde e o Jeremias estavam tranquilos mas a minúscula e lustrosa pantera negra rosnava à assustadiça convalescente. Passámos a noite os dois no quarto, ela sempre conversando comigo.

De vez em quando acendia a luz do telemóvel para ela ver a água, a comida e a casa de banho.

Às tantas vi que já não tinha a nova camisola cirúrgica, que tem fecho de velcro. Havia que vestir-lhe a antiga, cheia de buracos por causa das cirurgias anteriores, mas que tem fecho éclair.

 

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Uma aventura de uma hora, até porque comecei por lha colocar ao contrário. Pelo meio arrancou da pata o penso, que já não era muito necessário, e dedicou-se a tentar tirar o da outra.

Depois dessas cinco horas de cama e sem descanso, fui trabalhar e deixei metade da casa para ela e a outra para os “manos”. À hora de almoço a minha amiga vai ver como param as modas. Bem vinda, princesa felina dos domínios vascais.

Fui visitar a minha menina querida     

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Não estava quase nada nervoso. Na verdade, na clínica já me sinto em casa, e quando falo com a Doutora dos Gatos e as auxiliares ao telefone fico tranquilo e despreocupado.

Mas… Ainda não a tinha visto desde a operação, no dia anterior. Lá estava a minha princesa Matilde, ligada ao soro mas completamente desperta, activa e sem  vontade de continuar ali, o que ainda iria acontecer por 24 horas.

Estava sossegadinha mas quando cheguei ao pé dela começou logo a miar e a ronronar. Passou uma hora com a cabecinha encostada à minha mão, a dizer que queria ir para casa, receber os miminhos a que tem direito.

Após a cirurgia estava sem apetite. A Doutora dos Gatos e a Sónia estiveram a persuadi-la clinicamente a ingerir uns bons mililitros de comida, “porque o soro não alimenta”.

Tudo isto entre piadas, gracejos, conversas sobre (a estupidez de criar e apurar) raças, a inabilidade geral dos homens na vida, alguns mimos a um buldogue (essa sofredora espécie que não consegue respirar) e festas a uma Yorkshire quatro vezes mais pequena que a Matilde.

Uma terrível guarda que só queria afagos e demonstrações de amor.

Saí da instituição descansado. A minha cinzentinha está bem. Quando já se encontrar em casa ainda vai ficar muito melhor. Minha querida…

Uma chance para a princesa

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Os nódulos da princesinha cinzenta reapareceram. Aos 12 anos a Matildinha tem saúde, felicidade e bem estar, apesar da insuficiência renal e deste problema.

Havia várias razões para lhe dar uma chance – a terceira em mais de três anos – para lidar com esta patologia.

Está com qualidade de vida completa, sempre carinhosa e bem disposta (excepto quando está a ser perseguida pelo mano ou pela Amélinha, isto é, a “Gááta!!”).

A cirurgia implica mal estar psicológico e físico durante algum tempo, e existe o risco de ressurgir a doença pela segunda vez. Mas as duas intervenções anteriores deram-lhe três anos de existência estável e aprazível.

Sinto que tem vontade de continuar a viver e a ser feliz.

Ficou  às 08H30 da manhã na clínica, aos cuidados da insubstituível Doutora dos Gatos.

Teve que permanecer 18 horas em jejum sólido e líquido, e o mesmo aconteceu aos dois companheiros. Fazer qualquer discriminação entre eles nessa epopeia seria uma cruel tortura para ela.

Devido ao meu horário de trabalho e ao da operação só estive quatro horas na cama, e nem um minuto adormecido. O meu lindo e louco Jeremias não considerou adequada esta abstinência de um dia, e manifestou com toda a força o seu desagrado, ao longo desses 240 minutos.

Não houve descanso para o dono.

Ao final da manhã, ligou-me a Doutora, e à tarde telefonei eu. Está tudo bem com a pequenota. Acordou, molinha e cansada, mas clinicamente bem.

Amanhã e Sábado de manhã permanece internada, a fazer soro e uma recuperação tão equilibrada quanto possível. Depois será hora de regressar.

No início do fim-de-semana terá que estar algum tempo separada dos dois companheiros, para não haver conflitos e perturbações. Quando há alterações de rotina os gatos ficam ansiosos e é preciso evitar conflitos agressivos, promovendo uma reaproximação gradual.

A minha querida amiga que mora na mesma cidade virá dar-lhes amor e carinho no meu Domingo de trabalho, se precisarem dessa assistência extra durante a minha ausência de um turno. Até lá, a minha doce companhia não dormirá abraçada, colada e agarrada a mim, lambendo-se e estalando os lábiozinhos de vez em quando…

Seis dias são 11 dias

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Voltei de férias… Foram seis dias úteis que deram origem a… 11 dias sem bulir! Tal não acontecia havia 11 meses.

Cortei o cabelo. Comprei aquela peça de roupa de que precisava havia imenso tempo. Adquiri sacos para o meu aspirador, que estava mesmo, mesmo a rebentar.

Fui trocar os vales de aniversário que recebi em Maio por quatro livros de Dostoievsky. Fui ao cinema.

Descobri dois novos restaurantes vegan.

Da rua para o conforto, finalmente

Fui visitar o meu amigo de 86 anos que saiu da rua no Verão, depois de anos a dormir debaixo das estrelas, no frio da calçada, cego, octogenário e com uma colecção de doenças que deitariam por terra qualquer um.

Ficou feliz por me receber. Conversámos durante uma tarde inteira. Há mais de meio ano que está aos cuidados de uma instituição e de uma organização, ambas dirigidas pelo mesmo homem, que se encarregou pessoalmente da sua saúde e do seu bem estar espiritual.

Os seus problemas físicos e imateriais estão a ser cuidadosamente tratados, para que os seus dias sejam mais leves e agradáveis daqui por diante.

Pomos em dia as novidades dos últimos meses. Dá-me conselhos sábios e inteligentes, faz-me perguntas, a sua curiosidade está em forma.

Quando o deixo e fecho a porta da instituição, na rua, umas cabritas passam por mim, acompanhadas pelo seu guardião humano.

Os simpáticos animais hesitam quando vêem o portão semi-aberto. Eu e o pastor brincamos: “Estão a ficar velhinhas, querem ir para o Lar!“.

A caminho do carro, com o Sol a cair no horizonte, a paz do lugar é irresistível. 2019, anda daí!

O Café Tati

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O homem de cabelos e barbas compridos e escuros atarefa-se a servir jantares, vinhos e aperitivos à volta do bar. O concerto de jazz já acabou mas continuam a juntar-se largas dezenas de portugueses e estrangeiros em torno das paredes exteriores e lá dentro.

Um local onde, quer se jante, se beba uma imperial ou uma água é-se sempre tratado principescamente, como em casa. Onde me tornei uma presença diária , desde que soube que ia fechar. Agora.

Um café, bar e restaurante onde todas as gentes se reuniam ao som das melhores músicas, na aparelhagem ou ao vivo, e das suas próprias conversas. Jantavam, almoçavam, bebiam um copo, por um preço bem justo, entre livros, discos e mobiliário das últimas décadas das nossas vidas, objectos que assistiam, com a sua dignidade e o seu silêncio, a concertos de jazz memoráveis.

Era ali, de frente para as traseiras do Mercado da Ribeira, e para o Cais do Sodré.

Funcionou todos os dias até 31 de Dezembro de 2018, inclusivé. A 1 de Janeiro de 2019, essas portas que guardavam atrás de si hospitalidade, amizade, cultura, prazer e confraternização já não irão voltar a abrir-se. Graças ao monstro da puta da especulação imobiliária.

O seu nome? Café Tati.

Ela precisa de mais amor

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Depois de duas gastrites em seis meses, o intestino da minha “Gááta!!” tem andado um pouco inflamado.

Mostrava algum desconforto depois de ingerir e “processar” a comida, por isso a Dra Dos Gatos alterou-lhe a alimentação e a medicação.

Uma semana depois, e antes de nova consulta, parece mostrar alguma estabilidade.

Mas a minha alminha de quatro patas consegue sempre surpreender.

É capaz de ser ainda mais doce, meiga e carinhosa do que já é sempre. Ou mais carente… E ciumenta.

Quando chego a casa, à noite, tenho uma actividade extra, além de dar aos meus pequenos ronronantes o patê, a ração e os comprimidos, tratar deles e de mim.

Sentar-me no chão e deixar que a apaixonada pantera negra venha para o meu colo, ficando agarrada, colada, abraçada a mim a ronronar placidamente durante uns cinco a dez minutos, abrindo e fechando os olhos de prazer e felicidade.

Só depois deste momento de amor e entrega a esguia e determinada felina consegue finalmente acalmar-se.

Após tudo isso, muitas festinhas e beijos ao Jeremias e à Matilde, podemos então ir todos para a cama, onde ficamos aprazivelmente agarrados, enrolados e abraçados uns aos outros.

A vida e as vacas

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Esta ala mais portuguesa da sala parece uma repartição de finanças ou uma fábrica de cones ou cilindros sintéticos para usar nas situações mais variadas e imprevisíveis da vida.

Que saudades de estar no meio dos espanhóis e latino-americanos, tão calorosos, bem dispostos e disponíveis. Os portugueses são muito menos divertidos.

E já querem outra vez convencer-me a passar para o próximo nível.

Um patamar onde se ganha exactamente o mesmo mas o trabalho é muito mais difícil, e muito mais complicado é conseguir atingir os níveis de resultados exigidos para que não nos cortem no salário.

Ser call-centrista é isto mesmo. Falar com portugueses convencidos e brasileiros info-excluídos, esclarecer o que tem explicação e o que não tem, ser gentil com os simpáticos e os pedantes, simular um sorriso mental que sirva para qualquer situação.

E manter os resultados sempre bem em cima, seja tal mais concretizável ou puramente utópico. É a vida!