Sou o melhor da equipa

vasco47

Só acreditei depois de me dizerem três vezes. Este mês sou o melhor da equipa em termos de taxa bruta de promotores: A quantidade de utilizadores que ficam satisfeitos com o nosso atendimento.

Eu, sinceramente, ainda não sinto isso. Passo grande parte do tempo a pedir ajuda, há imensas coisas que não percebo e sinto sempre os pêlos das costas a subir um bocadinho quando o telefone toca.

Mas pelos vistos os números dizem que estou a fazer um bom trabalho.

É certo que estou a esforçar-me. Porque preciso do emprego, do dinheiro e gostava de conquistar pelo menos um pedacinho do bónus.

Mas sobretudo porque a nossa chefia é fantástica e merece todo o empenho e dedicação do Mundo.

Desenhou as estratégias possíveis e imaginárias para aumentar o meu número de casos por dia e a minha taxa de promotores.

Acreditou em mim. Deu-me força. Aturou-me. Teve paciência para as minhas dúvidas mais cretinas e disparatadas.

Ajudou-me em todos os momentos e mais algum. Quando precisei de chegar atrasado ou meter uma folga à pressão para amparar a minha família felina nem hesitou.

Para algumas pessoas, a gestão autoritária e agressiva pode ser uma coisa que faz sentido.

Para mim, uma liderança compreensiva, apoiante, próxima, prestável e humana é capaz de fazer milagres. Como este que acabou de acontecer.

Seres vivos que comem, bebem, fodem e morrem

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Do devaneio deriva a dor e decorre a felicidade com que se lida com a existência.

Há sete sultões míopes que se passeiam sobre o sal frente ao farol.

Ouve-se a resina a falar pela voz do vento que sopra sobre as canas do canavial. Os pinheiros abanam sob a brisa estival do fim da tarde.

A cem quilómetros há um barco a atracar cheio de seres humanos de pele crestada, que as pessoas de tez empalidecida não querem ver entrar nos seus portos.

Os que buscam desesperadamente abrigo, e os que o negam, são todos seres vivos que nascem, existem, comem, bebem, fodem, amam, odeiam e morrem.

Escuta-se o toque de finados do Ocidente. A fina capa da civilização escurece e dilui-se dando lugar ao medo, à ignorância e ao egoísmo.

Mergulhamos voluntária e cegamente na noite funda do racismo, da dominação, nos dias negros dos homens fortes e dos rebanhos ordeiros.

Esta lição, tínhamo-la aprendido há 70 anos, e há cem anos, e há duzentos anos.

Insistimos em não saber, não amar, não aceitar. Preferimos ignorar e odiar.

Pensava que já tinha ouvido de tudo, até àquele dia.

Um homem travesti, provavelmente alvo de preconceitos e agressões ao longo da vida, apoiando as políticas de Trump e de Salvini, considerando-as justas e adequadas.

Criticando o governo nacional por ir buscar refugiados a países de fora da Europa.

Conseguimos sempre ser surpreendidos.

A herdeira

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Decidiu ser a principal continuadora do legado do meu Chiquinho, precisamente por saber que essa era uma missão impossível e particularmente importante.

A minha Matildinha assumiu a tarefa de ser a minha confidente silenciosa, adivinhando cada um dos meus pensamentos e servindo-me de ombro protector a todas as horas.

Apareço no seu domínio privilegiado, a cozinha, e esta princezinha não pára de andar à minha volta, esfregando-se em mim e pedindo-me atenção e carinho. Sento-me no chão e salta de imediato para os meus joelhos, feliz com mais um momento de intimidade.

Nos dias mais intensos de estio, abro a porta da pequena divisão ao fundo da casa onde seco as roupas. Muda-se permanentemente para lá. Quando aí vou visitá-la, de cinco em cinco minutos, é como se não me visse havia anos.

À noite, depois de o Jeremias se ter aconchegado nas minhas costas, ronronando, e a Amélinha, a “Gááta!!” se estirar, feliz, sobre as barrigas das minhas pernas, chega ela.

A minha “gordinha” irresistível fica sobre os lençóis, ao meu lado, durante a noite. Quando, horas depois, começo a mexer-me para mudar de posição ou ir à casa de banho, ouço logo os seus miados meigos e gentis, anunciando que está ali.

Deita-se de lado e estica-se, mostrando a felicidade de ser acarinhada. Faz o mesmo, sobre a mesa da cozinha, quando me preparo para ir trabalhar.

Enquanto isso, na casa de banho, o meu Jeremias estende o corpinho, pedindo-me que lhe roce o pé, com meia ou descalço, sobre a barriga, entre as patas, no pescoço: a sua definição de bem estar e alegria.

A “Gááta!!”, durante a noite, decidiu saltar do chão para a janela, e desta para cima do pequeno mas alto armário-biblioteca que tenho no quarto, passando ali as horas seguintes. Lá tenho que me empoleirar em cima da mesa da cabeceira e capturá-la, ao som dos seus ronrons, trazendo-a de volta ao chão.

Esta pequenina, por sua vontade, viveria sempre nos meus braços, encostando-se, mordiscando-me, olhando para mim com a sua expressão de amor infinito.

Ao Jeremias, basta-lhe andar sempre à minha volta, arfando. E quando estou no sofá ou na cama, ficar sobre mim, tranquilo, seguro, com o seu corpo de mini-lince lisboeta rigorosamente colado ao meu!

Duas semanas depois

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Naquela primeira noite, todos se recusaram a fazer o que exigem sempre, incondicionalmente, haja chuva ou sol. Dormir comigo na cama. Não viram nada, não houve o que quer que fosse de concreto… Mas os três souberam, sem experimentar qualquer dúvida, que o seu amigo partira naquele dia.

Depois, nos seguintes, começaram a regressar, devagar, ao nosso leito familiar. Mas contornaram com rigor felino, inicialmente, o lugar do édredão onde o seu companheiro sempre passava a noite.

Uma semana depois, outra surpresa. O meu Chiquinho, que nos deixara 24 horas antes do dia de Portugal, adorava absolutamente ser escovado. Assim que via a luva própria para esse efeito miava, falava, exultava, dava voltinhas cá e lá enquanto lha esfregava.

A Amélinha, a “Gááta!!”, acha que aquilo é tudo um jogo, só quer morder e arranhar. O Jeremias rejeita esta operação, a Matildinha foge dela a sete pés.

Que aconteceu então naquele primeiro Sábado em que já éramos só quatro em vez de cinco? Escovei a “Gááta!!” entre muitas dentadinhas e arranhadelas. O Jeremias concedeu-me uns dois minutos para lhe tratar o pêlo.

Olhei para a Matilde, colada à sua casinha, o meu escorredor de loiça almofadado com vários panos de cozinha. Nem vale a pena tentar, pensei. Mas está bem, vá lá.

Comecei a aplicar-lhe aquele suave instrumento manual, inventado por alguém que gosta de animais. Um minuto. Dois. Três. Hum?!

Quatro minutos. Seis. A princezinha cinzenta olha para mim, imóvel e impassível como num transe.

Oito minutos. Dez. Percebo que ronrona, baixinho, e continua a contemplar-me, extática, meiguinha, beatífica.

12 minutos. Desperta lentamente, com movimentos rápidos mas doces. Começa a lamber-se.

O gato preto que me deu sorte

Chiquinho

Meio do Verão, Alentejo. Um casal, os pais e os tios, uma sardinhada. Aparece um gatinho preto a pedir alimento e atenção. O meu pai ia-lhe dando alguns pedaços, a ele e à sua amiga de quatro patas, enquanto dizia, carinhosamente “tomem lá, seus palermas!”.

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Algum tempo depois, o jovem casal e a amiga regressam ao local para um fim-de-semana de descanso. Começam a ser visitados por aquele ser negro e carinhoso, temporariamente nutrido com as sobras dos jantares trazidos do restaurante mais conhecido da Zambujeira.

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O bichinho tomou desde logo apego à pessoa do grupo a quem não passava pela cabeça ter um felino em casa, eu. A amiga e a namorada explicaram-me que aquele patudo magrinho precisava de mim, e eu dele.

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Horas depois, tomo a decisão. O Chiquinho deixará o seu dia-a-dia agitado e incerto, mudando-se para a cidade. Para Almada.

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Inicia-se uma caminhada de sete anos, com miados, festinhas, longos diálogos de amor e compreensão entre o peludo e o seu humano.

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Com o Chiquinho tornei-me menos egoísta e mais feliz, alegre por ouvir as suas repreensões por estar um minuto sem atenção, ou por querer mais comida, ou por desejar lamber-me as mãos e os braços ainda quentes e molhados a seguir ao duche matinal.

O meu pequenote sabia sempre quando os humanos estavam tristes e carentes de apoio, e vinha fazer o seu trabalho empenhado e altruísta. Mimar, acompanhar, afastar de nós as energias negativas e preocupações.

Não esperava que a jornada fosse tão curta, fiz tudo para prolongá-la. Mas o Destino não quis que fosse assim. Às 13h43 atendi a chamada que nunca queria ter recebido.

Na última manhã que passei com ele falei-lhe de tudo. Da animação e do prazer sem fim que foi passar estes anos incríveis com ele. Das memórias que eu, a Ana e a Maria guardaremos dele para sempre. Dos momentos inesquecíveis que ele me ofereceu sem pedir nada em troca. Da vida quotidiana que nós os três, os seus humanos principais, temos agora, quase uma década depois.

O Chiquinho transformou a nossa existência e ensinou-me uma forma de amor incondicional que não conhecia. Os seus olhinhos brilhantes e inteligentes, as suas conversas apelativas e plenas de significado, a sua doçura, a sua meiguice e a sua sensibilidade vão acompanhar-me até ao fim dos meus dias.

Tu, o gato preto que me deu tanta sorte e alegria, estarás sempre guardado no cantinho mais especial e completo do meu coração. Até sempre, Chiquinho.

Chiquinho, um gato gourmet

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Na hora da refeição, o Chiquinho disfarça-se de Amélia (a “Gááta!!”) e vice-versa. Ele faz-se mais fininho e ela incha a barriguinha. Como são os dois pretos, tentam a sorte.

Ele quer comer a ração renal dela, e a pequenina pantera deseja consumir a alimentação diabética do seu amigo mais velho e rechonchudo. Pode ser que o dono se distraia.

O Chiquinho era o gato mais saudável deste quarteto, completado pelo Jeremias e a Matilde. Apenas tinha asma, e tomava medicamentos felinos idênticos aos do seu humano, que também tinha alguns problemas respiratórios.

Agora tem diabetes, o fígado já esteve melhor e o estômago também. Faz quatro medicações diferentes por dia. E como a ração não lhe desperta grande interesse, mesmo com a mudança de marca, aposta principalmente no patê, específico para o seu problema de saúde. Está a tornar-se um gato gourmet.

Na hora de engolir os comprimidos, que não lhe agradam nada, salta para cima da bancada da cozinha, para que eu possa, com uma moderada resistência da sua parte, processá-los pela sua delicada garganta abaixo.

Mia muito, pedindo a ração à qual na verdade pouco liga, e ainda se manifesta mais quando finalmente lhe meto o tal patê no prato.

Se saio de casa para ir trabalhar, contempla-me com os seus olhos brilhantes e inteligentes, condenando-me por este abandono de 11 horas. Ouve lá, tu moras aqui, pertences-nos a nós e a este lugar. Então, o que vais fazer lá fora durante tanto tempo?

Às vezes opta por me virar as costas, magoado com a minha iminente partida. Para depois me fazer, junto com os seus três companheiros, uma festa sem fim quando regresso ao fim do dia.

Se como em casa, olha com fascínio para os meus pratos de sopa, leguminosas, cogumelos, arroz ou esparguete. Não são pitéus que possa ingerir, mas não se importava nada.

Felino de origens alentejanas, também o magnífico pão daquela região lhe desperta um interesse convicto. Vem atacar a fatia, sem nada, que tenho na mão de manhã e faz parte do meu pequeno-almoço.

Tem gostos variados e imprevisíveis, este ser negro que, na antiga Pérsia, seria considerado um bom espírito, chegado à terra para acompanhar os humanos, oferecendo-lhes a sua amizade e sabedoria.

E é isso mesmo que ele faz.