Mudar de vida

LiberdadeLisbon

A rapariga dos caracóis dourados senta-se ao lado e diz que gosta de conversar com ele. O homem está preocupado com este excesso de feriados. Acha que prejudicam a produtividade dos portugueses. Na sua opinião, em matéria de feriados, bastava que existisse o Natal, o 25 de Dezembro, a data da celebração do nascimento de Cristo.

O homem sábio que vive num quadrado de chão e se considera feliz quer saber novidades das eleições. As da América. Hillary Clinton venceu, e ele gosta da notícia. Relembramos que ainda são só as Primárias, e que, mais tarde, vai enfrentar Donald Trump.

A rapariga dos caracóis dourados está sentada ao lado dele, e conversa animadamente, mas nota-se que não está satisfeita. Queria ajudá-lo mais, transmitir-lhe mais alegria…

Só nos deixa apoiá-lo até um certo ponto. Só uma sandes de vez em quando, apenas alguns quartos de hora de conversa. Nada mais.

Chega o telefonema aguardado. Há um grupo de colegas que não ficaram tão desfalcados de comida como nós, podemos ir reabastecer-nos com eles, para, depois, a distribuirmos a outras pessoas.

A noite começara com um diálogo profundo com outro homem, uma troca de impressões sobre a natureza dos líquidos e a sua relação com a poesia. Um debate produtivo, ainda que inconclusivo.

Horas depois, a jornada nocturna acaba melhor do que parecia. Afinal, não só a conversa e o ombro amigo que se oferecem chegam para todos. Até a comida acaba por ser suficiente para toda a gente, e ainda sobra uma dose individual.

Amanhã, a Comunidade Vida e Paz está outra vez na rua. Com uma sandes, dois dedos de conversa, um aconchego espiritual. E um caminho para mudar de vida.

A nova vida de Dostoievsky (Vídeo)

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Prometeram-me que ia ter notícias do Dostoievsky todos os dias, e sempre que quisesse, e assim foi! Na semana passada, tinha ido buscar este pequenote à empresa onde trabalhava antes, e levara-o para as instalações da Rafeiros SOS, com a ajuda preciosa de uma voluntária dessa associação.

Na altura, nem me despedi deste gatinho meigo e doce como deve ser, distraído pelos felinos bebés ou de várias idades e cores ali presentes… Felizmente, as voluntárias começaram logo a mimá-lo e a acarinhá-lo.

É claro que, quando chegou ali, o Dostoievsky ainda não sabia que ia passar a chamar-se assim, e não gostou muito, nos primeiros momentos, da sua troca de morada. Afinal, ninguém morre de amores por mudanças, e nem sempre percebemos que podemos ficar melhor do que estávamos.

Enquanto o meu escritor preferido, agora em forma de gato, se dedicava a estas reflexões, eu observava os seus futuros companheiros. O Hércules, o Ferrari, o Pavarotti, o Bidu, a Fifi, e outros tantos… O Hércules, por exemplo, tem cancro. Outros têm outras doenças, são cegos ou têm uma pata a menos, embora também haja vários que são saudáveis e não têm nenhuns desses problemas.

Olhava para eles, com vontade de levá-los para casa, e pensava no que seria destes bichinhos irresistíveis, abandonados, se não existissem associações como a Rafeiros SOS.

Dias depois recebi, de uma das suas voluntárias, um vídeo do Dostoievsky. Estava na gaiola, por ainda se encontrar em quarentena, mas já parecia bem mais tranquilo do que nos primeiros momentos de adaptação em que o vi lá. Mostrava um ar optimamente tratado e bem disposto, enquanto esperava pela visita de rotina do veterinário.

É uma nova etapa na sua vida, depois de ser abandonado por desconhecidos e ficar durante alguns meses abrigado na minha empresa, alimentado e protegido pelos meus antigos colegas. Agora com acompanhamento e os cuidados médicos necessários a qualquer animal de estimação, vai ficar à espera que surja uma família que lhe possa dar amor e um lar permanente.

A minha nova missão

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“Ajudem-me, nasceu aqui uma ninhada de cachorros, não tenho dinheiro para ter mais animais, o que posso fazer?”. “Vou dar-lhe os contactos de todas as associações de recolha e adopção de animais da sua região, e, já agora, também do canil municipal, que não é um canil de abate: Ao menos sabemos que não vão ser abatidos, se tiverem que ir para lá”.

Sendo uma associação que luta contra o abandono de animais de estimação, é frequente ouvir telefonemas deste tipo na sede da Animalife. A associação tem três programas fundamentais, dentro da sua missão de acabar com o abandono de animais de companhia.

Conta com o programa de apoio a famílias carenciadas, fornecendo-lhes ração, desparasitação, vacinação e esterilização, para que possam manter os seus animais sem que os custos da sua saúde básica e alimentação se tornem incomportáveis. Tem um programa de apoio às associações que recolhem animais abandonados e procuram um novo lar para eles.

E tem o programa de apoio às Pessoas Sem Abrigo. As Pessoas Sem Abrigo têm muitas vezes consigo, na rua, animais de estimação. Companheiros de todas as horas, são, às vezes, o último amigo e laço afectivo, por quem estão dispostos a tudo, incluindo passar fome… Ou mudar e melhorar a sua vida, para proporcionarem uma melhor existência ao seu parceiro de quatro patas.

 

Animais sem abrigo, pessoas sem abrigo

 

Também aqui, a Animalife fornece ração e cuidados médicos básicos, mas faz mais. Está a estabelecer parcerias com instuições de solidariedade, com um objectivo. Fazer com que, quando estas pessoas encontram uma forma de sair da rua e iniciar a sua reinserção, possam levar o seu animal, não tendo que o deixar para trás. É revolucionário, até porque não acontece em praticamente nenhuma instituição em Portugal, levando a que muitas pessoas desistam de sair da rua, por não poderem levar o seu animal consigo.

Esta ideia pensada para fazer cair muros ajuda a perceber que a Animalife é uma associação diferente, com uma razão de ser concreta, lutar contra o abandono de animais. A direcção tem vindo a listar todas as situações que levam a que haja abandono, e a construir e procurar soluções para todas elas.

Preocupações que tem: Obter soluções, em conjunto com as autarquias locais e outras entidades estatais e oficiais, para um conjunto de problemas… A meta é provocar um conjunto de mudanças, através desse trabalho conjunto, e da promoção de alterações legislativas.

Fazer com que, no futuro, quando alguém vai de férias, tenha uma forma de assegurar que os seus animais são bem tratados, sem gastar para isso dinheiro que não tem… Procurar entidades hoteleiras em que os animais sejam aceites, e divulgá-las. Levar a que existam soluções financeiramente acessíveis para que, quando alguém é hospitalizado, os seus companheiros felinos ou caninos sejam cuidados e tratados, sem terem que ser abandonados.

Ajudar a criar mecanismos de apoio e aconselhamento para pessoas que mudam de casa e vão para lugares onde os animais não são aceites. Promover o aparecimento de sistemas de apoio para as pessoas que envelhecem, perdem mobilidade e não têm forma de cuidar dos seus animais.

Nas palavras da direcção da associação, “se encontrarmos uma solução para cada uma das situações que levam a que haja abandono de animais em Portugal… Vamos conseguir acabar com o abandono de animais em Portugal!”. Perante um argumento destes, o Cronista Sem Abrigo não poderia deixar de dar o seu contributo incondicional…

A minha tia é que criou a Floribella!

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Olhos azuis, cabelos loiros, brincos cor-de-rosa, batom e fitas da mesma cor nas tranças, bem como a blusa. Blusão de ganga azul, saia branca com flores vermelhas e azuis bem vistosas. Meias cor-de-rosa, sapatos azuis. Como se pode ver bem na foto, foi a minha tia é que criou a Floribella, há cerca de uma década, e com muito orgulho.

 

Hoje em dia, ela tem a filha, os netos, a gata que é “oficialmente dela”, os felinos que alimenta voluntariamente e os vários outros patudos, pássaros e aves que vão, também, comer lá a casa. Os bichos são os únicos que estão perto dela, ao contrário da família.

 

Há coisa de dez anos, tinha o marido, o meu tio, conhecido como o Augusto Francês, devido ao seu passado imigrante. E a alegre e intensamente alimentada matilha de cães de raça pequena, que comiam até parecerem animais de grande porte. Apesar de providenciar uma existência principesca aos inquilinos caninos e ao meu tio, ainda conseguia que lhe sobrasse tempo.

 

Na mesma altura em que Luciana Abreu se tornou conhecida como a bela, infantil e cobiçada actriz-cantora-personagem Floribella, a minha tia pôs os seus dotes artístiscos à prova e fez esta autêntica obra de arte em pano, que nada fica a dever à Floribella original.

 

Hoje, as únicas pessoas com quem a minha tia conta para visitá-la regularmente, ouvi-la, mimá-la e acarinhá-la são a minha mãe e o meu pai. Gosto de participar nessas actividades familares de vez em quando, ajudando a compor o ouvido amigo e o ombro aconchegante. E pensando nos suculentos petiscos, almoços, lanches, bolos, doces, sobremesas, queijos e vinhos franceses que os meus tios nos proporcionavam em abundância na juventude. Desta vez só tive pena de uma coisa. A Bolinhas, a gata oficial da minha tia, não apareceu.

Queria ir de férias, mas o que fazer ao meus gatos?!

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Os meus amigos avisaram-me seriamente, garantindo-me que precisava de descansar. Mas o que fazer com os meus quatro gatitos, que precisam de fazer uma dezena e meia de medicações duas vezes por dia, e ir à clínica uma vez por semana, além dos cuidados normais de qualquer felino? Como assegurar tudo isso durante os 15 dias que contava passar no Alentejo, em casa da minha tia?

 

A minha amiga primatóloga e socióloga tinha a solução. http://ogatofica.com/ É um serviço de pet-sitting, onde trabalham veterinárias formadas e competentes, que, por amor aos animais, criaram esta oferta, em vez de uma clínica.

 

Telefono, atende a Joana. Gostei de ela não simplificar demasiado as coisas, torcer ligeira e temporariamente o nariz à dificuldade de dar tanta medicação bi-diária a um grupo de gatos desconhecidos. Achei-a logo credível por não facilitar ou dizer que seria tudo um Mar de Rosas.

 

Vieram cá a casa, ela e a Susana, dois anjos a quem alguns dos patudos começaram logo a assediar, a pedir festinhas, miminhos e atenção. Senti-me mais tranquilo. Forneci toda a informação clínica das péstinhas irresistíveis, oralmente e por escrito. A Joana mandou-me a ficha clínica de volta para que eu corrigisse algum erro.

 

Fui de férias. As visitas foram divididas, a Joana fez umas, a Susana outras. Toda a medicação dada sem quaisquer dificuldades. Nas suas duas deslocações diárias, mandavam-me logo a seguir um sms a avisar que tinham enviado um mail com as fotos dos pequeninos e toda a informação sobre a visita, como estavam os meus meninos, se estavam contentes, tranquilos.

 

A Amélita, perante qualquer pessoa que venha cá a casa à excepção de mim, esconde-se no topo do armário da cozinha e já não sai de lá. À segunda visita da Susana foi esperá-la à porta. Qualquer imprevisto que houvesse, além de cuidarem dos meninos, da comida, das casas de banho deles, elas resolviam imediatamente: Se faltava algum medicamento, se eu me tinha enganado na informação sobre a dosagem…  E, sendo elas formadas na área, estavam preparadas para solucionar qualquer situação, ou levar os peluditos à clínica caso fosse necessário.

 

Infelizmente, não existem serviços públicos de pet-sitting, apenas privados. O que significa que nem todas as pessoas podem a eles recorrer. No meu caso, houve alguém, da família, que me ajudou, pagando metade do valor. Só assim pude ir de férias. Não havendo um serviço público, cada um dos cêntimos que gastámos no O Gato Fica valeram o seu peso em ouro maciço.

Fizemos frente a um elefante zangado

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O dia começou mal para o George. Ia ele a conduzir a sua robusta e atlética Toyota Hiace pelas crateras e buracos da reserva queniana, atulhada de turistas ávidos por conhecer a verdadeira vida selvagem… Às tantas, o consistente veículo ficou preso numa das muitas poças de lama que galgava velozmente pela manhã. A marcha atrás não entrava de maneira nenhuma.

 

O problema foi quando surgiu um elefante fêmea, uma matriarca protectora e territorial, que, muito legitimamente, não gostou de ver o seu lar invadido por estranhos pela enésima vez. Normalmente, o grupo de visitantes sairia dali rapidamente e seguiria o seu caminho. Mas não foi isso que aconteceu.

 

Com o meu grupo de australianos educados e humorados, mas cujo chefe de família demorou uma semana a dirigir-me uma palavra mais calorosa, seguíamos na nossa Toyota, conduzida pelo enorme e destemido Charles Opany. O nosso guia viu o perigo em que se encontravam os outros viajantes. Não havia tempo para pensar muito nem chamar ajuda. A ajuda estava ali e éramos nós, quiséssemos ou não.

 

O queniano divertido e empreendedor começou a conduzir a carrinha, connosco lá dentro, em direcção ao elefante. O plano era simples e ousado. Ir com a viatura para perto do animal zangado e assustado, ir avançando e recuando, distrair o paquiderme enquanto o George tentava engatar a marcha atrás.

 

Estivemos nisto durante algum tempo, o período adequado  para apenas pensarmos que aquela era uma aventura inesperada e desafiante, não propriamente um risco vital. Com o passar dos minutos, que ninguém sabe quantos foram, George conseguiu finalmente meter a sua carrinha em movimento e fugir. Depois foi a nossa vez de nos pormos ao fresco, o que não era muito fácil, com aquelas temperaturas elevadas.

 

Escapámos todos absolutamente ilesos, nós e os da outra carrinha. Horas depois, no acampamento, conversámos e dialogámos sobre a nossa experiência. Os asiáticos da outra Hiace, jovens estudantes a fazer uma volta ao Mundo, classificaram o momento como mais uma diversão, admitiram algum susto, mas ninguém se desencorajou ou quis desistir a meio da semana de safari para observação e conhecimento da verdadeira vida selvagem…

“Vamos transformar aquelas montanhas em escolas”

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Tinha havido um horrível atentado no Paquistão, levando à morte de dezenas de pessoas. A meio da conversa, o tema foi introduzido e o rapaz de 20 anos soltou uma exclamação. “Fogo, essa gente está sempre nisso, não sabem fazer outra coisa? É impressionante!”.

 

Fiquei a olhar para ele e tentei explicar racionalmente (com um ar provavelmente irritante): São países que vivem na miséria económica e política, que passam boa parte do tempo em guerra, ou em guerras… Mas a maioria dessas populações, se as deixarem, farão a sua vida normal quotidiana, trabalhão, irão à escola, nascerão, viverão, amarão, percorrerão uma existência normal, se isso lhes for permitido.

 

Fiquei a pensar em alguém que me disse que basta ir a Varanasi, na Índia, para perceber que a vida não vale nada. Que uma existência humana vale menos que a de uma vaca… Que não somos nada.

 

Há um livro biográfico, que relata uma história verdadeira e se chama Três Chávenas de Chá. É sobre um norte-americano, que, de estudante a alpinista, de montanheiro a aventureiro, acaba por dar consigo a construir uma escola no Paquistão, nos anos 1990. E depois outra, e mais outra. Cinquenta e cinco. Especialmente dirigidas para as meninas, as raparigas…

 

No mesmo país que viu nascer e prosperar os talibãs e a Al-Qaeda, que odeiam a liberdade, subjugam, dominam e espezinham as mulheres. Quando Greg Mortenson, autor e protagonista da história e do livro, se decidiu a construir a primeira escola, não tinha um tostão. Tinha que viajar para o Paquistão, comprar material, contratar uma equipa e pôr de pé uma escola. Era uma, mas acabaram por ser 55. E dar origem a uma das mais importantes obras humanitárias das últimas décadas.

 

Não me lembrei de contar isto ao rapaz de 20 anos com quem conversava sobre o Paquistão. Mas posso garantir com toda a certeza que com este livro todos nós temos imenso a aprender. Acaba com um homem daquela região do Mundo a dizer a Greg qualquer coisa como: “Estás a ver aquelas montanhas de pedra? Vamos transformar aquelas montanhas em escolas”.

Os finais felizes existem!

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Os nossos destinos estavam ligados, disso não havia a mais pequena dúvida. Mas, é claro, eu não sabia ao certo que íamos conseguir criar uma sorte diferente para ele. A nossa sina ditou que eu conhecesse na Comunidade Vida e Paz uma mulher elegante, culta, inteligente e humilde, voluntária da Rafeiros SOS. Pouco tempo depois de começarmos a fazer voluntariado juntos para ajudar as pessoas da rua e os seus animais, a diligente e eficiente funcionária pública conseguiu encontrar um rumo para a vida deste gatito.

 

O felino meigo, doce, sociável e brincalhão foi abrigado, alimentado, protegido e mimado durante vários meses, na empresa onde eu trabalhava, depois de lá ser abandonado por desconhecidos. Os homens do armazém e da manutenção, tudo gente de barba rija e muito bom coração, adoram animais. Acolheram-no e defenderam-no, satisfizeram-lhe as necessidades quotidianas, davam-lhe mesmo banhos com shampô anti-pulgas.  Hoje, a vida dele mudou. Conseguiu vaga na Rafeiros SOS, e as senhoras da associação são as suas novas protectoras.

 

Há poucas horas, cheguei à empresa com a transportadora. Viu a caixa, andou a cheirá-la, a espreitá-la, a brincar com ela. Arranjou maneira de abrir a porta e colocar-se lá dentro.

 

Fui ter com a dedicada voluntária que se interessara pelo futuro do pequeno, que, por ter um ano e picos, ainda não conseguira arranjar novos e bons donos permanentes. Do local de trabalho dela fomos para a associação, onde tive oportunidade de ver como ele, e todos os seus novos companheiros, são bem tratados, acarinhados e alvo de todas as atenções possíveis e imagináveis.

 

Pediram-me que desse um nome ao nosso menino… Não aceitaram as minhas duas primeiras sugestões. À terceira foi de vez: Só vos digo que, Finalmente, já existe um Gato Dostoievski! Vai ser analisado, vacinado, tratado às doenças que possa ter, e, depois da vaga de adopções de felinos bebés do Verão, procurar-se-á uma família responsável e carinhosa para ele. O Destino de Dostoievski está agora em boas mãos.

A rapariga simpática

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Irritado e em brasa, era esse o sentimento exacto. Tinham-me cobrado para cortar as unhas dos meus companheiros felinos, e ainda por cima não tinha sido pouco. Queixava-me da situação, indignado, à mesa do almoço. Degustava a refeição intermédia do dia muitas vezes com aqueles colegas, embora não trabalhasse com eles.

 

A meio das minhas queixas, oiço a voz de uma rapariga, com quem, na altura, ainda não tinha almoçado muitas vezes. “Ah, mas eu posso cortar as unhas dos teus gatos!”. Hum? Uma jovem que nem me conhecia bem, não sabia verdadeiramente quem eu era, oferece-se para vir a esta ponta da cidade, percorrer não sei quantos quilómetros e tratar da manicure felina da casa?

 

Depois percebi que esta era uma estudante altruísta, uma espécie de “Padroeira dos Animais”, ao vivo e a cores. É uma pessoa que, se vai na rua e vê um cão perdido, faz o que for preciso e emprega o tempo necessário até encontrar o dono do patudo. Até anda com um cinto, que serve de coleira e trela improvisada, para esses casos.

 

O avô tem uma quinta em zona de caçadores (que, segundo conta, têm o hábito de matar gatos). As fêmeas da região vão dar à luz à quinta, onde se sentem protegidas e defendidas. A neta do proprietário dedica-se, depois, a encontrar donos responsáveis e carinhosos para os bebés nascidos.

 

Combinamos, e esta amiga dos seres vivos vem a minha casa. Eu achava que, a alguns dos pequenotes, íamos conseguir suprimir as pequenas garras. Mas à Matide, que não suporta que lhe façam o que quer que seja, nem pensar. E à Amélia nunca na vida: Quando ouve entrar alguém que não seja eu, vai para cima do armário da cozinha e lá fica.

 

Começamos pelo Chiquinho, o ser que, com o seu amor, me  fez apaixonar pela espécie felina, há meia dúzia de anos. Ele não gosta lá muito, protesta um bocadinho, mas lá se consegue. Segue-se o Jeremias, o meu gato-cão, que adora estar 24 horas por dia ao meu lado, e em cima de mim, até nas situações mais inusitadas e embaraçosas. Não fica especialmente feliz com a ideia, mas permite.

 

Ganho coragem e passamos à adorável, doce e dona de si Matilde. Sem tirá-la de onde está, pata por pata, dedo por dedo, e com pausas de persuasão, completa-se a tarefa. A Amélita, mini-péste que decidiu que o seu coração era meu quando tinha dois meses (há quase quatro anos), continua em cima do armário.

 

Ponho um pouco de ração no prato, desce, come, desaparece, reaparece. Pego-lhe ao colo (o local onde ela não se importaria de passar todos os dias e noites), enfia a cabecinha dentro do meu sovaco, como adora fazer. A rapariga simpática, nobre e altruísta corta uma unha de uma pata, depois outra, e outra. E outra pata, e outra unha, e outra e mais outra. A minha Amélinha já pode continuar a trepar por mim acima, descansar e passear nos meus ombros, fazer-me ainda mais companhia, ali, tão perto, em mim.

E não é que afinal era mesmo possível?

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Há uma ou duas dezenas de gente à porta, com um ar preocupado e irritado, desde antes das oito da manhã, embora o serviço só abra às nove. A entrevista foi marcada no dia anterior, e começa ainda antes dessa hora.  Entrego toda a documentação, forneço todos os dados, respondo a todas as perguntas.

 

Descubro que já estava inscrito, desde 1994 (!), no Barreiro, onde vivi parte da minha existência. Após a regularização do pedido, começo a ser informado dos meus direitos e deveres. Nessa altura, a minha visita ao Instituto do Emprego e Formação Profissional mostra ser uma revelação.

 

Durante dois meses ouvi colegas, amigos, empregados, desempregados, ex-desempregados, especialistas em contabilidade, em Direito… Recebi todas as opiniões, mais assertivas, convictas e contraditórias. As que diziam que era impossível fazer trabalhos, precários, pontuais, regulares ou em part-time, e receber ao mesmo tempo o subsídio de desemprego. E as que afirmavam que não havia qualquer problema com isso.

 

Parece que, graças à pessoa amável, prestável e dedicada que tratou da marcação da entrevista, esta decorreu também com a interlocutora mais adequada, preparada e capaz de dar as melhores notícias. Responde a todas as perguntas que eu possa ter e deixa-me completamente esclarecido. E informa-me que sim, é possível trabalhar temporariamente sem perder o subsídio, explicando-me como. A descoberta é tão positiva que resolvo comemorá-la com um passeio a pé de mais de uma hora pelas avenidas…