Nunca tinha tido a consciência do fim

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“Nunca tinha sentido a consciência da finitude, do fim, até ela ser internada, ter um AVC e eu perceber que se calhar não tinha maneira de saber como ela estava, como as coisas estavam a evoluir.

Adquiri esse sentimento de fragilidade, a minha e a dos que me rodeiam. Afinal de contas, os pais das pessoas da nossa geração (como ela) estão todos a chegar ao fim da vida.

E nós, daqui a pouco, na melhor das hipóteses já percorremos pelo menos metade da nossa.

Saber que um dia vou perder aquela pessoa é uma questão com a qual não estou a conseguir lidar”.

“Bom, por muito que te prepares essa preparação não será nunca suficiente. Um dia isso vai acontecer, vai ser o pior dia da tua vida e depois vais ter que seguir em frente.

Eu tenho a sorte de continuar a ter os meus dois pais. Mas perdi aquele que era o ser central na minha existência, o meu doce e meigo Chiquinho. É um tipo de sofrimento que não tem descrição ou comparação, devasta-te e dilacera-te por completo.

E modifica-te profundamente. Eu já não sou a pessoa que era quando ele partiu. Penso que teve a generosidade de deixar impresso para sempre em mim o melhor dele…

Bem, nele era tudo bom. Era um anjo.

Nunca vamos estar preparados para esses dias, que são os piores das nossas vidas. Depois, a existência continua”.

Demos um abraço muito longo e forte, antes de cada um ir apanhar o seu transporte e regressar ao conforto e ao carinho da sua casa, com os seus animais e ou os seus familiares.

A conversa foi terapêutica e libertadora. Falámos da vida, da morte, da felicidade, da tristeza, de como existir é bom… E difícil, por vezes.

A gozar 17 dias de férias de 2018 agora, naquele dia tive três encontros, igualmente profundos, com amigos igualmente próximo. Mas este marcou-me de uma forma especial.

Fazes 13 anos. Obrigado, Jeremias <3

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Toda a gente me recebeu bem naquela casa, quando lá entrei pela primeira vez, há nove anos.

A linda e doce Matilde, que já partiu e viverá sempre no meu coração, ronronando e pedindo mais carinho, acolheu-me com ternura e meiguice. Como nunca tinha feito com desconhecidos.

Mas quem mostrou um entusiasmo mais vistoso e incontornável foste tu, meu Jeremias. Desempenhaste aquele que é o teu papel nesta vida.

És um cão que reencarnou como gato e ainda não percebeu. Tem sido assim ao longo desta década. Segues-me para todo o lado, mias-me nessa voz de lamentação que significa desejo de festinhas, mimos, atenção.

Nessa tal casa, onde depois morei, ia correr de manhã… À entrada da banheira despia as roupas suadas e molhadas da chuva e era um festim para ti. Rebolavas-te nas peças com o meu cheiro, exultante.

Como fazes sobre o tapete da casa de banho, para que passe a mão de mil maneiras diferentes nesse corpo imenso. Por tua vontade, eu ficava a fazer-te aquilo para sempre.

Dizem que és “Jeremias, o Gato”. Sim, basta olhar para ti. És aquele que atira ao ar e apanha o seu brinquedo preferido, uma e outra e mais outra vez.

Que ama estar em cima de mim com os seus seis quilos, na minha barriga, nas costas, nas pernas, esteja eu tapado ou não, cheio de roupas ou em trajes menores.

És o felino que, ouvindo o seu nome bem pronunciado e articulado, vem logo a correr do outro canto da casa, miando fortemente, para saber o que se passa, o que é preciso.

O meu pequeno lince ibérico já cá anda há 13 anos. Viu a luz do dia a 4 de Outubro de 2006. Tem insuficiência renal, alguns percalços intestinais, certas dificuldades com o baço, as articulações e ocasionais sedimentos na bexiga.

Tem resistido com força e coragem a tudo. À perda da mana Matilde e do amigo Chiquinho, esse ser que desceu à Terra sob a forma de um gato, só para me dar felicidade e amor.

De todo o grupo, que foi de quatro e já só conta com dois (ele e a “Gááta!!”, aquele pedaço felino de mim), Jeremias, ainda que dependa do amor humano para existir, parece ser o mais forte.

Esta linda e anafada bola de pêlos acalmou muito, com os anos. Mas continua a ter uma enorme energia, uma capacidade sem comparação para persistir e se adaptar.

Eu sei que ninguém vive para sempre, Jeremias. Mas quando se fala a alguém dos seus filhos, ou dos seus pais, isso faz com que achem aceitável a sua viagem para o outro lado? Claro que não. Pois. Para mim, contigo e a “Gááta!!” é exactamente a mesma coisa.

Preciso que tu, o resistente dos três “velhotes” felinos que abençoaram a minha existência, fiques cá durante muito, muito tempo. Obrigado por andares por aqui a fazer-me companhia e a tornar luminosos os meus dias, fofinho.