A morte não o assusta

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Não tem muito para relatar porque no dia-a-dia que vive dentro da instituição de saúde onde foi colocado as horas são quase sempre iguais. Conto-lhe do novo trabalho, o que lhe desperta a curiosidade.

Diz que não posso estar parado e tenho que antecipar o que pode acontecer a seguir. Daqui a algum tempo, a empresa pode concluir que já não precisa de tantos trabalhadores e é necessário ter um plano. Saber exactamente a quem me vou dirigir, o que vou propor e quais são as opções.

Há seis décadas, decidiu que ia entrar na indústria farmacêutica, porque as condições eram apelativas. Foi bater a muitas portas e numa delas foi recebido.

O gerente não tinha nada para lhe propor mas disse-lhe para voltar daí a 15 dias, e esse processo repetiu-se várias vezes no tempo. Marcava o dia na agenda, sem falhas, e ia sempre visitá-lo nessa data.

Depois de muita insistência, de fazer os testes e a formação, conseguiu finalmente o que queria. Ao princípio ganhava o ordenado mínimo, e anos depois recebia essa soma multiplicada pelos dedos de duas mãos. É por isso que diz que a arma mais poderosa é a persistência.

Agora vive nesta instituição contrariado, e enfrenta os problemas que todos nós encontraremos se chegarmos a ser octogenários. Não gosta de depender dos outros mas não tem opção.

Diz que já não o vão deixar sair daqui. Neste lugar terminará os seus dias. Apesar de não ser isso que queria, afirma que não se chateia.

Ainda que confinado a estas instalações, garante que consegue ser livre e feliz. Regressado aqui depois de ter voltado a viver na rua, já tem o caminho para a casa de banho quase decorado de novo apesar de não ver, e tenta por todos os meios percorrê-lo sozinho.

Diverte-se com os contratempos do quotidiano, como os pequenos ralhetes de um ou outro funcionário com medo que ele não consiga fazer tudo por si próprio.

Declara que está à espera da morte mas esta não o preocupa nem o assusta. É um homem que viu e viveu tudo, pelo mundo fora, da prosperidade à existência nas calçadas. Como poderia temer alguma coisa?

O italiano observador

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O jovem italiano de olhos claros e tranquilos como a água do mar imita alegremente os meus gestos enquanto como a sopa. Explico-lhe que é um alimento excelente, rico e muito saboroso.

Acredita e diz que eu devia estar a escrever numa publicação sobre alimentação, como um especialista que degustasse e caracterizasse cada prato que lhe aparecesse à frente, já que sinto tanto prazer nesse acto necessário a todos nós.

Se fosse ao sul de Itália seria feliz, segundo ele. Por ali as pessoa gostam que os convidados encham bem a barriga, não deixem uma migalha por devorar e depois dêem a sua opinião no fim.

Afirma que quando mordo uma fatia de broa de milho fresca e consistente, faço a mesma cara que ele ao apreciar uma adolescente.

Acrescenta que agora já não faz essa expressão, porque as jovens estão mais amargas. Ninguém decide aprofundar esse tema.

Assinala a falta de companhia feminina mas garante que mais tarde ou mais cedo há-de encontrar uma, algo que também não é discutido pela pequena audiência durante a pausa da manhã.

Quando me vê debruçado sobre o computador a responder a um mail de um utilizador dos serviços, observa que parece que estou a fazer amor com o teclado.

Lamenta o excesso de tecnologia. Hoje em dia as pessoas não estão habituadas a comunicar entre si ao vivo. Só quando faltou a luz lá em casa, no outro dia, é que de repente todos os coabitantes quiseram ir ao seu quarto falar com ele.

Filosófico, assegura que nos primeiros dias no novo trabalho as pessoas queriam apresentar-se umas às outras e falar sobre si próprias, mas depois o entusiasmo perdeu-se. Já ninguém quer dialogar, a não ser sobre os casos que estão a tratar.

A partir de uma certa hora do dia acha que já disse tudo o que tinha para partilhar e apenas quer ficar calado.

Chegou a Portugal num dia e no outro começou a trabalhar. Perguntam-lhe se em Itália há ordenado mínimo. Diz que sim, mas as coisas na realidade funcionam de outra maneira.

O Alberto trabalha por 600. O Luca fá-lo por 500. O mínimo legal pode ser X mais do que isso, mas não interessa. O emprego fica para o Luca.

Não tem vontade de se pronunciar mais sobre questões laborais. O intervalo terminou, é hora de voltar a pegar na chamadas e nas mensagens.

Na terceira idade “já não há prazer sexual”

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Quer saber as novidades do Mundo. Fica preocupado com o atentado da Flórida e diz que esta é uma época complicada da nossa História. Mostra-se contente por não ter filhos, já que estes iriam ter uma vida difícil.

Octogenário, afirma que mesmo que tivesse oportunidade de estar com uma mulher isso já não lhe interessava. O Viagra, diz, apenas actua sobre “o membro”: Na terceira idade “um homem já não sente prazer sexual, mesmo que execute o acto”.

Essas sensações, acredita, já estão mortas. Mas isso não o preocupa. Revela que nesse campo fez o que tinha a fazer e sentiu tudo o que lhe era devido.

Alguém achou que este homem idoso e com vários problemas de saúde não devia estar na rua, embora ele quisesse viver sob as estrelas. Fazia-o para reivindicar a reforma do país onde viveu a maior parte da sua vida, antes de vir parar a Portugal.

E se não lhe satisfaziam esse direito, também achava que não devia subsistir de uma caridade oferecida como favor. Contra esse desejo, foi colocado de novo numa instituição de saúde. Não está exposto à dureza dos elementos, mas preferia não estar ali.

Animado com a visita, recorda como há mais de meio século lhe perguntaram se não teria problemas por ter contratado um funcionário mulato. Respondeu que não.

Só se o homem quisesse entrar para as forças armadas desse país então em ditadura é que as coisas se podiam complicar. Não por ingressar numa empresa privada.

Algumas reflexões depois, garante que ser católico ou protestante é a mesma coisa. O que interessa é que aceitam o mesmo Deus, são todos cristãos.

E se há quem diga que Cristo “foi o primeiro comunista”, ele está em completo desacordo. Jesus foi para ele algo muito mais parecido com o primeiro social democrata.

Aquele que morreu na Cruz nunca aceitaria nada daquilo que se passou na União Soviética ou na China.

Considera que, no outro lado do Planeta, Trump até pode ser reeleito mas acabará por desistir dos seus projectos mais absurdos e megalómanos. Por não conseguir governar sozinho e porque os Estados Unidos são uma democracia. Não o tipo de regime em que o líder diz que “as coisas têm que ser assim e assim” e acontece exactamente isso.

A minha primeira chamada

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Confesso que estava borrado de medo. Tanto que, inicialmente, até deixei cair a chamada sem querer. Recuperei o fôlego e voltei a atender.

Ainda estava meio em pânico, a bloquear, sem ver nada à minha volta e a tentar lembrar-me de quais eram as teclas em que tinha que carregar e os procedimentos iniciais de atendimento.

Depois disso, lá prossegui. Tive uma sorte do outro mundo. Era uma velhinha brasileira muito querida e amável que estava com um problema que eu, ainda por cima, consegui perceber logo sem ter que pedir ajuda nem consultar informação.

Para esta senhora do outro lado do Atlântico me perceber, fui falando com muita calma e devolvendo a simpatia que sentia na voz dela. Passei alguns momentos a explicar-lhe que ela tinha mesmo que fazer todos os processos de verificação da conta, por uma questão de segurança e protecção dos seus próprios interesses.

Era preciso fornecer o documento de identificação, tirar uma foto com qualidade e carregá-la no site. A minha formadora, mentora e guia espiritual sugeriu entredentes que a utilizadora fizesse a foto com a webcam do computador, para melhorar a nitidez.

Consegui convencê-la a fazer isso. Completei todos os processos necessários do meu lado e, pouco depois, recebi uma mensagem daquela senhora doce, já não para se queixar e lamentar mas para me dizer que tinha conseguido fazer a autenticação e entrar na sua conta do site.

Agradeceu muito, afirmou que eu tinha sido bastante gentil com ela. No final, já um pouco mais tranquilo, recebi uma salva de palmas da senhora professora sábia, afectuosa e sensata, e da turma de gente jovem, rápida, inteligente e eficaz que me acompanha nas aulas.

A grande barreira inultrapassável foi vencida, como tudo na vida. A partir daquele momento fiquei preparado para lidar com os brasileiros, portugueses, ingleses, americanos, simpáticos, agressivos, cooperantes, arrogantes e todos os outros géneros de espécimens humanos que viesse a encontrar.

É um processo, como todos os grandes momentos de transformação na nossa existência…

Já tenho o contrato na mão

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É a novidade da semana. Já tenho o contrato na mão, para ser assinado até sexta-feira.

Não vale a pena lê-lo demasiadas vezes. As coisas mudaram muito desde Abril de 2004, data em que assinei o último. Depois disso tivemos a “crise”, a troika, a austeridade, a PAF e mil alterações à legislação laboral.

Os contratos de hoje nada têm a ver com os de há… 14 anos! Mas não é nisso que estou concentrado. E também não estou (sempre) a pensar que ainda me falta muito para me sentir um assistente de apoio e atendimento ao cliente capaz de trabalhar a cem por cento.

Já ajudei algumas pessoas, mas ainda preciso de ser muito amparado pelas formadoras para conseguir resolver as situações com que se deparam os utilizadores do serviço.

Mas não é isso que ocupa a maior parte das minhas ideias. Nem as incertezas, de todos os tipos, relativamente aos próximos meses.

Há uma luz que se acende no infinito e ilumina a minha consciência. Até há três semanas, quando os familiares, amigos, conhecidos e humanos em geral me perguntavam como estavam as coisas, a reacção era a mesma dos últimos meses.

Bem, estou à procura, ainda não encontrei, vou prosseguir a minha busca. Pois é, diziam, as coisas estão complicadas.

Agora já tenho uma resposta diferente para dar. Estou a fazer a formação num call center, ainda tenho muito para aprender mas o meu futuro mais próximo deverá ser ali.

Estou a ser ensinado a apoiar aqueles que nos contactam, de uma forma sempre amável, eficaz e consequente.

Se tudo correr bem vou ficar a trabalhar a 35 minutos de casa, e posso ver o rio, o céu, as nuvens e as estrelas a caminho do local de laboração ou no regresso ao fim do dia.

Ainda por cima, ao fim dos primeiros 15 dias de formação, o Chiquinho passou o primeiro teste. O meu gatinho lindo, quase pessoa e paciente diabético atravessou este primeiro período a ficar mais horas sem comer (já que a sua alimentação tem que ser separada da dos seus três companheiros felinos, comigo presente) e a glucose do seu sangue não subiu!

Tudo aquilo que pode correr bem está a encaminhar-se no bom sentido. É continuar.

Sinto-me ignorante

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É claro que isto tem solução. O que há a fazer é deixar o tempo passar e continuar com os olhos, os ouvidos e o cérebro bem disponíveis.

Mas por enquanto sinto-me um néscio acéfalo. Faço parte de uma turma de dezena e meia de pessoas, quase todos de 20 anos, à excepção de alguns que têm 30.

Estou sempre atrasado e perdido. É muita informação, são imensos conceitos, várias ferramentas tecnológicas, diversos endereços de Internet, nomes de utilizador, palavras chave.

É tudo em inglês. Apesar de o meu uso do idioma de Shakespeare ter melhorado a olhos vistos, não é a minha língua nativa.

A senhora professora é cinco estrelas. Assertiva nas doses certas, rigorosa, paciente, clara, explicativa. Está sempre a trazer-nos biscoitos, bolachas, guloseimas de todos os tipos e até fruta, no meu caso.

Atribui-nos todas as actividades possíveis e imaginárias, para dominarmos o conhecimento através da prática. Deixa-nos fazer simpáticos intervalos quando já estamos a cair para o lado.

Brinca connosco, espicaça-nos e capta a nossa atenção. Quando vê que não estamos a conseguir manter-nos concentrados, diz-nos que podemos ficar de pé e mexer-nos, para não nos irmos abaixo.

Gosto de vê-la a explicar as coisas e a puxar por nós. Não sabia que havia formadores tão eficazes e dotados.

Isto quer dizer que, tirando os meus neurónios destreinados e baralhados, tenho tudo a meu favor.

Daqui a umas semanas espero manusear facilmente as ferramentas, resolver os casos, esclarecer as dúvidas dos utilizadores e ser um bom agente de atendimento e apoio ao cliente, por escrito e telefonicamente, em português e inglês.

E a avaliar por todas as informações recolhidas, este parece ser o call center mais agradável e interessante do mercado, nomeadamente para quem não tem experiência na área.