Uma segunda oportunidade

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Era o boss na disciplina de inglês, desde o segundo ciclo do ensino básico até ao último ano da faculdade – e também na de alemão, e ainda largava umas postas em francês, que nem tinha oficialmente, mas do qual assistia a umas aulas com a conivência de uma professora fofa, para depois dar explicações dessa língua ao discípulo que tinha na altura.

Depois, o tempo passou. Apesar dos muitos anos de estudo e prazer, sólido e utilizável de imediato só ficou o inglês. Pensava eu.

Há um ano tentaram fazer-me uma entrevista de recrutamento por telefone, em inglês – por um telefone em que, na altura, não se ouvia nada. Baralhei-me todo, não disse nada de jeito e não passei dessa primeira fase de recrutamento.

Depois disso, a minha ex-mulher e amiga ofereceu-me o maravilhoso livro A Street Cat Named Bob, e eu pedi-lhe que me mandasse a segunda parte da sequela (The World According To Bob) e a terceira (A Gift From Bob).

Agora estou a ler Nicholas Nickleby, de Charles Dickens. E a ouvir, 24 horas por dia, as notícias da France Twenty Four, em inglês.

No outro dia voltaram a ligar-me do mesmo empregador. A chamada telefónica foi verdadeiramente A Piece of Cake: Foi canja (canja vegan, neste caso).

Fui fazer os testes orais e escritos, de conhecimentos gerais e gramaticais, e senti-me como peixe na água, like a fish in the water! Parecia que tinha voltado aos dias da escola secundária.

Não faço a menor ideia do que vai acontecer, mas sinto sinceramente que aqueles testes bem valiam uma nota de 99%, como nesses bons velhos tempos (normalmente eram de 100%, e, se tal não acontecesse, o que era extremamente raro, ficava furioso).

Tudo isto me andava a passar ao lado mas, na verdade, o meu inglês apenas precisava de uma segunda hipótese para recuperar plenamente a boa forma de outrora. A second chance. Parece-me que somos os dois!

Atingi o peso ideal

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Peso agora 73 quilos e tenho um Índice de Massa Corporal de 24,9 (considerado normal). O meu Índice de Gordura é de 25,5% (entre o bom e o regular).

Os 73 quilos estão dentro dos limites considerados ideiais para a minha idade, sexo e massa corporal (entre os 58,4 quilos e os 73,1).

Já me disseram que sou a única pessoa que “conseguiria engordar a comer só vegetais”, mas o caso não é assim tão grave.

Correr uma hora quase todos os dias sem excepção e acrescentar a isso algumas idas por semana ao ginásio foi uma enorme ajuda. A outra, que tem pelo menos metade da responsabilidade, é a mudança da alimentação.

Os vegetais, as leguminosas, os cereais e a fruta tornaram-se os meus melhores amigos. Isso inclui:

Couves, tomates, cenouras, batatas doces ou brancas, uma dezena de tipos de feijão, favas, ervilhas, grãos, cogumelos, arroz, massa, pão alentejano, pão integral, pão de múltiplos cereais, frutos secos (nozes, amêndoas, uvas frescas ou em passa, figos – também nesses dois estados –, amendoins, tâmaras, cajus, bananas, sumos de fruta natural e tudo o que se consiga imaginar.

Claro, gostava de perder ainda mais gordura, mas parece difícil. No campo da alimentação, nada mais há a melhorar. Embora, na realidade, o objectivo da adopção do veganismo nada tenha a ver com isso.

Tornei-me vegan apenas porque decidi não comer mais cadáveres, nem nenhum alimento ou substância roubado e retirado brutalmente a animais.

Parece que, sem o querer, fui recompensado com mais saúde e menos gordura. Há muitos anos que não conseguia perder tanta.

Quanto ao exercício, também não parece fácil fazer ainda mais do que um a dois treinos por dia. Podia encomendar um novo plano de treino, diferente, mas em termos de euros e cêntimos não é a melhor altura.

Por isso, para já, vou continuar no mesmo caminho. Na esperança de conseguir perder ainda mais uma ou outra grama…

A Humanidade devia estar em Oslo

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Em Itália não é fácil ser homossexual, e menos ainda abortar, ou até comprar a pílula do dia seguinte.

Na Lapa, ser negro e ter assuntos a tratar com a polícia é muito mais fácil do que no Casal da Mira, na Cova da Moura, na Damaia ou na Buraca.

As conclusões nascem enquanto se ouvem várias línguas e sotaques, à porta de um bar do Cais do Sodré.

Mas é altura de ir ver como está o ambiente no Oslo e como anda o preço dos shots. Há uma voz que diz “posso ir com vocês?”. Sai de dentro da boca de um rapaz angolano. Quer desfrutar um pouco mais da companhia da colega portuguesa, que conhece há alguns dias.

Vem, bebe um shot e oferece outros dois, despede-se com amizade e desaparece.

No Oslo, há jovens nórdicos e latinos, com boa aparência e disposição. Há quarentonas e cinquentonas tugas, loiras que fumam, bebem e dançam com liberdade e alegria as músicas dos anos 80.

Há quatro ou cinco homens portugueses entre os 40 e os mais de 60 anos que bebem, dançam com toda a descontracção, felicidade e capacidade de inovação artística do Mundo.

Tudo se mistura e funde, numa explosão de bem estar e harmonia, com a ajuda dos shots de um euro.

Há um quadro luminoso, desenhado em formas muito simples mas belas, que parece representar o porto de Oslo, os navios, os prédios, as casas, as igrejas e as características gerais da cidade norueguesa.

No Jamaica, meia dúzia de metros à frente, há espaço, finalmente, pela primeira vez em muitos e muitos meses. Um milagre de Agosto.

Há um asiático novo e musculado, com um ar muito banal, que, primeiro, paga imperiais e mais imperiais. A seguir, começa a querer dar várias notas de 20 euros à rapariga alta, bonita, vistosa, de cabelo claro e meio arruivado que dança na pista.

Aparentemente, não percebeu muito bem onde estava. Mas tudo se resolve sem problemas depois de meia dúzia de recusas mais afirmativas.

Enquanto isto acontece, há dois países com armamento nuclear que se ameaçam.

Há um Chefe de Estado de uma grande potência mundial que oferece carta branca, direito de existência e legitimidade social e democrática ao racismo, ao nazismo, ao fascismo, ao supremacismo branco, à ideologia assassina de raiva racista irracional e cega do Ku Klux Klan que se aproveita da liberdade e democracia para propagar o ódio e matar.

A Humanidade devia ser igual às noites do Oslo e do Jamaica, e não aos dias da América.

Sinto-me como o Neymar

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É verdade, sinto-me um pouco como o Neymar. Se eu for mostrar o meu verdadeiro palmarés, assumir todos os clubes onde já estive, e durante quanto tempo, toda a gente vai ficar assustada.

Vão achar que nunca poderiam contratar-me. Acreditarão que só se forem um clube que esteja no bolso do Qatar e possa comprar pessoas como copos de água ou de café é que poderão alguma vez recrutar-me.

Ainda me vou sentir culpado por provocar uma guerra entre a Arábia Saudita e o Qatar.

Nas várias versões do meu currículo em português e inglês, já cortei a idade, o estatuto de divorciado, a foto e metade da experiência, bem como boa parte das datas.

Tinha feito uma carta de apresentação estupidamente curta, que só tinha um parágrafo. A minha melhor amiga disse-me que estava muuito longa. Parecia uma grande lista de coisas. Encurtei-a ainda mais.

Durante este Verão, também deixei de me concentrar em concorrer para a área do jornalismo, dos conteúdos, da comunicação social ou outras relacionadas. Não há espaço.

Tal como fui aconselhado, estou a alargar os campos. Até gostava de trabalhar com animais, como cat sitter, por exemplo. Ou dar formação. Ou dar explicações. Ou fazer assessoria de imprensa. Ou outra coisa qualquer.

Acho que seria capaz de fazer quase tudo, menos vendas. Impingir frigoríficos a esquimós e aquecedores a berberes não é para mim. Não tenho nada contra, nem a favor. Simplesmente, não era capaz de o fazer.

Fora isso, restam infinitas coisas que podia fazer. Basta que esqueçam as minhas parecenças meramente aparentes com o Neymar e me contratem…

Where everybody knows your name

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Passamos de cerveja na mão mas chama-nos a atenção. Como a minha amiga é uma brasa fumegante, não há problema em parar um bocadinho e espreitar.

Saimos, ainda com a bebida, damos umas voltas e umas horas depois regressamos. À porta está escrito Cheers, e este é um bar… Especial.

Somos assaltados à entrada por um homem simpático e muito conversador, um dos responsáveis pelo espaço que nasceu onde deixou de existir o Frágil, frente ao Portas Largas.

Cabelo grisalho, barba cinzenta, espessa e cerrada. Este anfitrião que parece saído do palco de um concerto dos ZZ-Top faz questão de nos explicar tudo, mas mesmo tudo, sobre este pub, meio irlandês, meio americano, que preencheu o lugar do mais que mítico Frágil.

Relata-nos a história do nascimento deste novo ponto da noite, o que queriam fazer, o que não fizeram e como acabaram por modificar tudo e ainda vão voltar a alterar a decoração. Mas isso não interessa muito, na verdade.

Há cervejas irlandesas. Não há música a enfiar-se nos nossos ouvidos. Podemos conversar! Há écrãs que transmitem um jogo de futebol, para onde podemos olhar, se quisermos.

Há um balcão corrido, há duas americanas ao nosso lado, podemos ouvir toda a convera e participar, se desejarmos. Podemos falar com o barman e contar-lhe as nossas mágoas ou as nossas alegrias.

É o tipo de sítio onde, se viermos uma ou duas vezes, toda a gente saberá o nosso nome. Salta à vista a influência da série dos anos 1980 Cheers Aquele Bar (Where everybody knows your name), por mais que o cinquentão gentil que nos recebeu torça o nariz a isso.

Era ideal para começar a noite, e prometemos voltar noutro dia.

Antes da meia noite, estamos entre o Oslo e o Jamaica, que já devia ter aberto há meia hora, mas não há maneira.

Entramos no Oslo. Há montes de estrangeiros e estrangeiras jovens e vistosos. Há shots de vodka Iganoff a um euro, e muito bem servidos. Aqui permanecemos confortavelmente até que abra o nosso local de culto, o mítico Jamaica, já depois da meia noite.

Onde os shots de vodka são de Absolut, custam quase o triplo e levam um terço da bebida. Entramos e somos imediatemente transportados para o mundo das músicas decentes dos anos 1980. Rock, hard rock, pop, reggae. The Doors. Rolling Stones. The Queen. Depeche Mode. David Bowie.  E por aí fora.

A minha amiga explica-me mais tarde que tivemos a ousadia de abrir a pista, e isso comporta riscos. Pois… As minhas danças fantásticas, sinceras e ridículas são gozadas sem pudor de dois cantos diferentes da sala. Defeco mentalmente no cérebro inexistente dos gozões e continuo. Já estou habituado.

Há uma jovem morena, bela e misteriosa que dança, sempre de olhos fechados, do princípio ao fim da noite. O seu corpo interpreta todas as músicas com sensibilidade, elegância e clarividência. Sempre de olhos fechados.

Quando passa Don’t stop me now, dos Queen, toda a gente repara na amiga que está comigo. Usando os seus dotes teatrais e musicais, ela vive e dramatiza o tema do início ao fim, de forma intensa e inigualável. Ela é a personagem de que a letra fala, e todos os seus estados de espírito, com total exactidão.

Uns tentam acompanhá-la, outros ficam a olhar. Por esta altura, já arranjámos meia dúzia de amigos que vivem a música tão profunda e autenticamente como nós.

Uns levantam e abanam os braços, outros metem-se connosco, outros dançam com a dupla bizarra e impossível de ignorar que formamos. O som continua a rodar, imparável, até ao fim do mundo. Jamaica.

A mulher perdida

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A mulher andava com um ar perdido, rua abaixo, rua acima, rua abaixo, rua acima. Esteve assim durante muito, muito tempo.

T vive na rua e começou a aperceber-se de que esta senhora ia talvez passar a sua primeira noite ao luar, o que explicava o seu ar completamente desorientado.

Foi falar com os Médicos do Mundo e referiu-lhes a existência deste ser humano em dificuldades. OS MM tentaram, mas não conseguiram estabelecer diálogo com ela.

Uma equipa especial de técnicos e coordenadores da Comunidade Vida e Paz dirige-se para o local. Iniciam-se as negociações. A mulher continua a não querer falar.

Depois de longas e árduas tentativas, os responsáveis da CVP começam a conseguir dialogar com aquela alma desesperada. Dão-lhe comida e, muito tempo depois, começam a tentar persuadi-la a passar a noite num albergue.

Quando chegamos junto de T, um homem que, desde há muito, nunca queria conversar connosco, tratamo-lo pelo nome – que entretanto descobrimos –, falamos desta situação (uma pessoa que dorme na rua foi quem pôs tudo a andar para que uma mulher não tivesse que ficar esta noite sem tecto) e contamos-lhe onde está, actualmente, o ancião sábio, culto e profético que viveu na calçada três anos a 50 metros dele.

Não sabia, e fica radiante por ser informado. Irá visitá-lo amanhã. A transferência de uma entidade de saúde para uma instituição de solidariedade desse homem, U, o nosso amigo comum, parece ter passado despercebida a toda a gente. Os amigos, da rua e de fora dela, perderam-lhe o rasto.

T, ao longo de meses, nunca falara connosco. Mas hoje, não sei se foi alguma coisa que fizemos, a sua atitude transforma-se. Conversa durante uma hora, só uma, porque temos outras pessoas a quem ajudar também e ainda só fizemos metade do percurso. Por vontade dele, continuava.

Parece que só habita no passeio quando não tem paciência para aturar a mulher. Mulher, que não é a primeira. É viúvo, e, quando fala dessa esposa que já não existe, as lágrimas vêm-lhe aos olhos.

O mesmo quando refere os dois filhos adultos. Um, não o vê há 12 anos. Esse e outro parecem estar desaparecidos na Suécia. Já tentou encontrá-los, mas é muito difícil. Se uma pessoa tiver uma vida normal e não experimentar nenhum encontro forçado com as autoridades, se quiser ficar desaparecida fica. Ai está uma lição, mas não a única.

Quando se chateia com a mulher, faz uma de duas coisas. Ou dorme na rua ou, no calor da troca de argumentos, vai dar uma volta, conversar com os amigos, jogar às cartas, fumar um cigarro, beber uma mini. Quando volta a casa já não se lembram do que estavam a discutir. Já não estão a discutir nada.