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Aquilo que não tenho

Alguém disse que a existência é uma penitência, a vida é um milagre e o Universo é uma incógnita. Não podia concordar mais com a segunda e a terceira parte da frase.

Estou desempregado há um ano, há 12 meses que não encontro trabalho e tenho mais 365 dias de subsídio de desemprego. Vivo com quatro gatos, embora, felizmente, dois deles sejam alimentados e financiados pela minha ex-mulher, e amiga.

Daqui a 50 semanas não faço ideia do que me vai acontecer.

Mas tenho os melhores pais, amigos e familiares do Mundo.

De 15 em 15 dias levo comida, conversa e a oferta de uma mudança de vida a pessoas que vivem na rua. Ao contrário delas, tenho uma cama, comida na mesa e paredes para me proteger do frio.

Tenho os meus gatinhos, os seres mais doces, carinhosos, fiéis e amigos que já conheci até hoje.

Tenho os meus livros, que me levam a viajar no tempo e no espaço, seja à Rússia de 1800 ou à vida – real – de um homem que tinha sido toxicodependente e vivido na rua e foi salvo por um gato.

Tenho os clássicos do cinema, dos anos 1950 até este milénio, que vão passando em reposição. Como Os Inadaptados, de John Huston, onde um trio de personagens magnéticas não aceita o Mundo onde vive. Talvez sejamos todos inadaptados, hoje, perante a realidade irracional que construímos à nossa volta.

Ou Spartacus, com Kirk Douglas. Iremos tornar-nos também, futuramente, escravos educados e cultos, que, até ao fim da sua vida, nunca serão livres?

Devemos olhar sempre o futuro e o que está à nossa frente com optimismo, fé e crença na Humanidade e em nós mesmos. Embora, hoje, isso seja um pouco mais difícil do que há uma ou duas décadas.

Outra coisa que também tenho e é de graça são as corridas matinais, em que observo a cidade e a vida a acordar, chegando a casa com energia para lidar com o dia que se segue.

Na verdade, são muito mais, e muito mais importantes, as coisas que tenho do que as que não tenho.

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