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A vida é um comboio

Gostava de caminhar até à estação de comboios que havia a meia hora da minha casa, passear perto da linha férrea e sentar-me a observá-la, e aos comboios que iam chegando e partindo.

Alimentava um dos meus hobbies, as míticas coleccções de latas de bebida portuguesas e estrangeiras que os míudos como eu gostavam de juntar, às centenas, na altura.

Eram duras e indestrutíveis, aparentemente feitas de ferro. Muitas chegavam com os visitantes, e tinham cores, letras e desenhos que nunca encontrávamos por cá.

Aproveitava para conversar com os turistas e praticar o inglês, que, depois de alguma estranheza inicial, se tornou uma das minhas paixões de juventude.

Um dia, um tipo português, meio louco, meio pedófilo, tentou acercar-se de mim, meter conversa e tocar em partes reservadas do meu corpo roliço. Como a atitude era completamente estranha e impossível de perceber para um puto ingénuo e mimado como eu, deitei a fugir com toda a força que as pernas me permitiam.

Vinte e tal anos depois, tive o privilégio de conhecer os comboios decrépitos e carismáticos da Roménia, preenchidos por nacionais que, na grande maioria, não falavam uma palavra de qualquer língua que não a sua.

A sensação de liberdade de fazer uma viagem de comboio de onze horas, sozinho e desconhecedor da língua local, é absolutamente incomparável.

Longos trajectos que levavam a que, mesmo sem compatibilidade linguística, a comunicação se tornasse inevitável, mais tarde ou mais cedo.

Tinha a pequena mochila para duas semanas cheia de livros e uma ou duas T-Shirts. Os livros esgotaram-se, reli-os, e, quando cheguei a uma velha e escondida livraria que tinha policiais muito antigos em inglês, abasteci-me obsessivamente.

Quase no final da estadia, encontrei duas jovens estudantes de Sociologia que… Falavam inglês! Bonitas e simpáticas, o resultado foi que tiveram que me ouvir durante várias horas, e também às crónicas que redigira nos tempos mortos: Um estrangeiro a descrever, com a sua visão, o país onde viviam. Concordaram com as minhas perspectivas.

Hoje, desempregado e com responsabilidades felinas familiares, vivo ao lado de uma estação de comboios, no centro da Meca turística portuguesa.

Gosto de ver chegar e partir as pesadas e velhas máquinas. Não me agrada tanto observar as composições modernas e sofisticadas. Mas sinto-me sempre um turista na minha própria cidade.

Tenho o secreto desejo de me enfiar num daqueles veículos e partir, sem destino, sem amarras, sem preocupações. Seria uma Grande Aventura. Um dia, há-de acontecer.

Num filme qualquer, alguém dizia que a vida é um comboio. Em todas as estações, há pessoas que entram e outras que saem. Um dia, também chegará inevitavelmente a nossa vez de partir nessa grande viagem… Devemos estar prontos. E, até lá, divertir-nos e aproveitar esta breve passagem o máximo possível!

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