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Homem sem abrigo dá conselhos sobre desemprego

São duas da tarde do oitavo dia do segundo mês de 2017 e o homem de 84 anos, cego, continua deitado no chão citadino, na mesma posição em que o encontramos habitualmente à noite.

Os olhos que não vêem estão abertos. Parece mais cansado e mais debilitado, pelo que o habitual “estou bem, estou vivo, estou com Cristo” não satisfaz. Acrescenta que os Justos estão com Cristo, e que nós, os que andamos pelo Mundo, não estamos.

Fala com dificuldades e com pausas prolongadas para respirar. Explica que são muitas horas, na rua, naquela posição.

30 anos de existência, sem tecto, pelas cidades do Mundo. Esclarece que viver na rua em Portugal ou em qualquer outro país é a mesma coisa. A única diferença é que os portugueses são mais comunicativos com ele.

Compara a ditadura portuguesa com a espanhola, afirmando que, olhando para as duas, a nossa foi suave. E que os espanhóis ainda estão a viver essa ditadura na cabeça, ainda têm uma mentalidade autoritária.

Recorda Felipe González, o primeiro-ministro socialista espanhol que levou o país para a Europa e para o desenvolvimento económico. Lembra que a indústria automóvel espanhola cresceu enormemente nessa época, e que em Portugal isso não poderia ter acontecido, por falta de território.

Critica os políticos que, na sua descrição, colaboram com o governo espanhol de direita de Mariano Rajoy, ao qual não pertencem, e que serão penalizados por isso nas eleições.

Quer saber um pouco mais sobre a pessoa com quem está a falar. “Então, bom trabalho! Vai trabalhar agora?”. “S-sim.”. “Onde trabalha?”. “Bem, neste momento, trabalho mais em projectos pessoais e coisas desse género”.

“O que faz?”. “Jornalismo.”. “É jornalista? Trabalha em que jornal?”. “Trabalhava numa revista, mas houve uma reestruturação.”. “Está difícil arranjar trabalho?”. “Um bocadinho.”.

“Eu trabalhei numa multinacional farmacêutica durante muitos anos. Nós recebíamos imensos currículos, que se amontoavam no meio do pó. Quando precisávamos de alguém, entrevistávamos pessoas dentro dos nossos conhecimentos, e, aí sim, analisávamos os currículos. Por isso, não se limite a mandar currículos. Vá aos empregadores, marque presença. E não desista, não desmoralize. Se não é casado nem tem filhos, então é mais tranquilo”.

“Obrigado, meu amigo. Obrigado. Um bom resto de dia. Até à vista”.

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