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O electricista que precisava de um sorriso

Naquela noite fria e chuvosa, V. mostra, feliz, o casaco quentinho, impermeável, hermético e bonito, lilás, que uma voluntária acaba de lhe oferecer. “Isto é preciso chover mesmo muito, para entrar aqui alguma coisa”, elogia.

Para quem vai passar a noite na rua a arrumar carros, é uma ajuda preciosa que faz a diferença. As gotas grossas e frias continuam a cair sobre a cabeça de quem anda pela cidade entre as oito e a meia noite a tentar perceber de que precisam os que dormem sobre um metro de calçada.

Chegados à porta da empresa mais próspera, premiada e corrupta do sector energético, encontramos… Um electricista, canalizador e reparador de electrodomésticos, que dorme na rua e usa os ganhos para fazer publicidade, para ter mais clientes, em vez de os aplicar numa cama de uma pensão.

Não aceita albergues nocturnos, na ideia dele isso é para “alcoólicos e drogados”, parecendo-nos mais que evidente não ser ele nem uma coisa nem outra. O voluntário com quem gosta mais de trocar impressões sobre a Vida está parado no meio do passeio, um pouco perdido. Vai falar com ele.

Aquele minuto e meio de conversa era algo que o electricista esperava e desejava. Além da sandes, do bolo e do iogurte, naquela noite gélida e tempestuosa os olhos dele pediam um sorriso que o acolhesse, uns tímpanos que o ouvissem, um aperto de mão forte e credível que desse abrigo à sua mão grande e vigorosa. Um minuto e meio era quanto queria e precisava.

Do outro lado da grande avenida há um gato que é um homem. Segundo nos contou, já sobreviveu a uns sete acidentes mortais, a impactos, quedas e choques de todos os feitios. É sempre ele que indica onde e como estão todas as pessoas sem abrigo daquela rua, ajustando e corrigindo o mapa-roteiro dos voluntários.

Manda-nos para a rua do antigo Expresso, onde voltou a haver alguém que precisa de nós. Demove-nos de ir à rua da frente, o homem que lá dormia está aqui nesta. “Tem convite para a festa de Natal das pessoas sem abrigo na cidade universitária?”. “Eu? Fui o primeiro a ser convidado!”.

Embora haja equipas de voluntários na rua 365 dias por ano, as desta instituição trabalham rotativamente, cada uma só está no terreno de 15 em 15 dias. Daí, no final, a piada do homem-gato. “Então, só nos vemos para o mês que vem!”. “Hãn?! Ah, pois é, tem razão!”.

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