A verdade, toda a verdade e nada mais que a verdade é esta.
Quando os moços cariocas de uma das empresas de distribuição da Worten vieram trazer a máquina de lavar nova não levaram a velha, por incompetência burocrática da referida entidade, e marcaram outro dia para a recolha.
Depois de esperar sete horas que os jovens do outro lado do Atlântico cheguem, aparecem.
Um deles diz-me que não vão levar com eles este artefacto da civilização… Porque tem água.
Vejamos então. O aparelho deixou de funcionar. Tive que interromper o seu trabalho a meio para não provocar uma tragédia.
Os russos que lá foram a casa levaram-me a perceber que o estado deste objecto de muitos quilos era irremediável.
Se a pusesse a operar para terminar o último programa, corria o risco de originar uma explosão, derreter a cozinha e incendiar o prédio.
Pois os dois potenciais eleitores de Lula da Silva não queriam auxiliar-me fazendo desaparecer da face da Terra este indesejado ítem.
Um deles desce as escadas e liga à Worten para oficializar este desagradável impasse tecnocrático.
Explico ao outro:
Então mas o que é que eu faço?? Está avariada, não posso activá-la, na loja disseram-me que me livravam dela.
O rapaz de sotaque cantante começa a mexer no impopular instrumento e a movê-lo.
Acaba por dirigi-lo até à rua, à porta do prédio. Sugiro que seja deixado do outro lado da estrada, junto ao Ecoponto e aos contentores do lixo.
Não, senão vão-me multar!
E se for eu?
Vão multá-lo a você!
Sem saber o que fazer, acabo por ir trabalhar, com mais de quatro horas de atraso, enquanto os apoiantes da Selecção Canarinha se põem levemente ao fresco.
Chego à uma da manhã. Lá está o sinistro volume à entrada do edifício.
Tomo-lhe o pulso, começo a produzir-lhe rotações e a arrastá-lo para o outro lado da via, para o tal local onde os cidadãos depositam o que já não tem préstimo para a sociedade.
A meio da travessia da rodovia, uma carrinha grande pára à minha frente. Sai um moço simpático, divertido e cheio de energia:
Boa noite, amigo! Vamos levá-la os dois, um em cada ponta, senão nem amanhã!
Segundos depois lá fica ela, ao lado de grandes quantidades de cartão, vidro, plástico e substâncias orgânicas resultantes da actividade humana.
Pelas quatro ou cinco da madrugada, ouço ruídos que associo a cargas e transportes.
Às sete da manhã desperto, vou à janela e espreito o outro lado da rua:
A Samsung de dez programas e com cinco quilos de capacidade não faz mais parte da minha existência.