Trânsito bloqueado pela estupidez        

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Vinha da quinzenal missão de apoio às Pessoas Sem abrigo, duas da manhã, muito cansado e a pedir cama imediatamente.

Chovia como Deus a dava. A cem metros de casa, vejo que o trânsito está totalmente bloqueado, ao lado da discoteca dos Ferroviários.

A estrada é estreitíssima, mal circularia um pequeno automóvel de cada lado, e houve um esperto que decidiu, simplesmente, ali ficar parado, formando filas de carros e autocarros de ambos os lados.

Apito, buzino, apito e volto a buzinar. Nada. Saio de dentro da viatura, debaixo da chuva diluviana.

Bato à janela. Olha-me um calmeirão com um ar mental e geograficamente perdido. Com muita, muita diplomacia e educação, digo-lhe que está a impedir o caminho dos dois lados e não pode estar ali parado apenas porque isso lhe dá um inexplicável prazer.

Mantém-se o olhar vago e baralhado. Ah, mas eu estou à espera do meu amigo, estou à espera do meu amigo. Informo-o de que existe o Código da Estrada, bem como leis de circulação rodoviária.

Vou repetindo o mesmo muitas vezes, de formas diferentes, sempre civilizada e gentilmente.

Ele diz que sim, que sim, gozando e ignorando-me.

Acabo por desistir. Regresso ao conforto impaciente do meu bólide.

O condutor confundido acaba por se desviar uns centímetros para a direita. Consigo passar, quase lhe raspando a pintura. Ficamos ambos incólumes.

O frigorífico com pernas que nos queria engolir

Manila city, Philippines - Jeepney busses -  photo by B.Henry

A ponte sobre o Tejo está morna, bonita e agradável num Domingo de Primavera. Na faixa do meio, circula-se tranquilamente a 80 km/hora.

Atrás vem alguém que quer andar mais depressa e ignora a existência da faixa dos condutores rápidos, à esquerda. Cola-se à parte de trás, com o pára-choques do jipe.

Gosto de mudar de faixa, quando o Código da Estrada assim o indica, ou quando desejo. Não quando alguém atrás o exige, nomeadamente quando tem livre ao seu lado a faixa da esquerda.

Deixo-me ficar à mesma velocidade, sem abrandar nem acelerar. O tipo de trás apita continuamente e coloco a música mais alta.

O colega automobilista deita espuma pelos ouvidos, olhos e  cabelos. Depois de longos minutos neste braço de ferro, ultrapassa-me e atira-me um objecto duro contra a janela, mas não deixa marcas.

No mesmo dia, a caminho de um café vespertino, o meu pai mete-se numa Rotunda desrespeitando a prioridade. Há um condutor indignado que reage travando a fundo.

O erro foi do meu pai mas o outro ficou tão irritado que tentou provocar um acidente. Depois da Rotunda continua a travar à frente do meu pai, gritando-lhe e ameaçando-o.

O meu querido senhor Ventura tem 77 anos e anda com uma gripe que o tem deixado aflito.

Saio a voar de dentro do bolinhas. Do interior do outro veículo desloca-se uma montanha de carne humana com um metro e oitenta e quilos de músculo e gordura, furioso e agressivo.

Sou o primeiro a chegar ao pé dele. Contra a força bruta não há grandes argumentos, e o erro inicial foi do nosso lado. Assim, levanto os braços em sinal de paz e concórdia e peço ao pedregulho com olhos para ter calma.

O pilar animado concorda com a parte da calma mas diz que as coisas não são assim.

Continua a apoucar o meu pai, acusando-o de ter bebido (está doente, nem se lembra do que é um copo) e não saber conduzir.

Diz que tem o filho no carro e aponta para lá, enquanto fala com o nariz colado à testa do meu pai. Fez, de propósito, uma travagem tão estrondosa que pensámos que lhe tínhamos batido.

O condutor do nosso lado, quando chega ao pé dele, pede para ver os resultados do suposto mas inexistente acidente, e acertar tudo o que for preciso.

Entre ofensas, imprecações e lições de moral rodoviária, o frigorífico com pernas acaba por ir-se embora.

Politiquices de caca                                                            

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É possível que no PSD, no Partido Popular Europeu em que está filiado e nos pensamentos de Paulo Rangel existam algumas preocupações com a população da Venezuela.

É de acreditar que sim. Mas mesmo assim, dá para pensar.

Além da campanha eleitoral europeia, e das aspirações sociais democratas em Bruxelas, quem mais terá sido beneficiado pelo envio forçado de ajuda humanitária para a terra do defunto Hugo Chavez…

Maduro, orgulhoso de ter impedido os caixotes de comida e frascos de medicamentos de entrar no seu país.

Ou Guaidó, acusado de ser uma marioneta nas mãos de Trump e de mais alguns aliados.

O político da oposição foi proclamado presidente interino pelo parlamento eleito, e reconhecido por alguns países.

Invocou a democracia, a liberdade, o desejo de paz e as carências do povo.

Deu a entender desde o início que procurava soluções pacíficas. Agora faz aquilo de que foi logo acusado pelos adversários Maduristas.

Deixa cair palavras que apontam, aparentemente, para um pedido de intervenção militar.

Que Trump e Bolsonaro parecem desejar. Os venezuelanos, no meio das guerras de palavras, não ficaram melhor.

“Eu tenho uma rêsérvva…”                         

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Não há chamadas. Não há casos. Estou há vinte e quatro minutos em prontidão, à espera de telefonemas, e sem casos para resolver.

A pior coisa que pode acontecer num trabalho é não ter nada para fazer. E falta aqui ao lado o pessoal brasileiro, com assunto de conversa e boa disposição durante nove horas ou mais.

Enquanto se espera que caia uma chamada, pode observar-se o ambiente humano.

O piso está a abarrotar de gente, de várias idades mas especialmente mais jovens, de diversas nacionalidades, e há grupos adicionais que chegam todos os dias.

Há novos chefes de equipa a ser anunciados diariamente. A empresa está em franca e acelerada expansão.

Há brasileiros para o mercado espanhol, portugueses para a linha francesa, romenos para os utilizadores alemães, as possibilidades são inúmeras.

Gente que entra e outros que saem. Dezenas de novatos a serem integrados no ofício. E outros tantos a subir de nível, a passar de principiantes para o departamento seguinte, para o apoio aos mais recentes ou para a condução de novas equipas.

A animação é muitíssima, enorme. O trabalho é que está muito paradinho.

Oito meses e oito dias                              

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Oito meses e oito dias. Não sou uma pessoa demasiado lamechas, e a vida continua, o amor, a alegria, o Sol, o céu, as estrelas, permanecem mesmo depois de partir alguém que amamos.

Assim, percorro nos meus dias a felicidade, a tristeza, a dor, o prazer, o bem estar ou as contrariedades, como antes. Não sou alguém que fique parado no tempo, apenas a viver uma ausência ou uma lacuna.

Não sou assim, e não seria uma forma digna nem certa de te homenagear e de retribuir o papel enorme e fundamental que tiveste, e tens, na minha passagem pelo Mundo.

Assim, não tenho problemas em dizer que penso em ti todos os dias, meu amor. Quando saio de casa de manhã atiro beijinhos e acenos de adeus à Amélinha, a “Gááta!!”, à doce Matilde e ao fofo Jeremias, e a ti, que já cá não estás.

Pode parecer ridículo. É um hábito, consciente e racional, um tributo agradecido.

Acontece-me estar a ouvir uma música muito forte e emocional, que nada tem a ver contigo; Ou a ver um filme, daqueles sentimentalmente pesados, que adoro e também não têm qualquer relação com o teu ser.

De repente, inesperadamente, sem preâmbulos, sinto uma descarga incontrolável, uma dor que vem bem de dentro, e sou agitado dos pés à cabeça por um ataque de choro duro, bruto, avassalador.

É uma catarse, uma libertação, saudável, necessária, positiva. Herdei a tua sensibilidade aguda e profunda, a tua empatia, a tua capacidade para sentir intensamente  o que os outros sentem.

Nenhuma destas sensações existia antes da tua partida. É engraçado como evito, ao máximo, dizer que morreste, meu amor. Digo que partiste, que estás no céu (eu, agnóstico até à medula), que te foste embora.

Quando muito, posso admitir que faleceste. Morrer, morte, são palavras difíceis de colocar numa frase onde esteja o teu nome. Mas é um facto. Morreste, Chiquinho, meu doce gatinho.

Os teus miados, as nossas conversas repletas de significado para nós, com princípio, meio e fim, continuam a ressoar na minha cabeça. A forma como te enfiavas  no meu antebraço e ali ficavas, a amassá-lo, horas, até adormecermos, continua bem viva.

O teu olhar e a tua voz, a exigir mimo e atenção sempre que eu ia lavar as mãos (especificamente nessas alturas, vá-se lá saber porquê) continuam reais.

O teu semblante filosófico, amigo, amoroso, compreensivo, inteligente, existirá sempre.

Não acredito na vida depois da morte, pelo que não voltaremos a encontrar-nos, meu querido e meigo Chiquinho. A não ser nas minhas memórias e nos meus sonhos, fofinho. Tenho saudades de sonhar contigo. Tenho saudades de ti, Chiquinho.

Sou esperado noutro lugar    

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Estou a viver o contrário do meu sonho utópico, caracterizado pela previsibilidade e pela certeza quanto aos momentos seguintes.

No final de 2018, tinha a perspectiva de sair de onde estou até 30 de Junho. Depois, o projecto transferiu-se para a última semana de Abril. Mais tarde voltou o cenário inicial.

Agora está de novo apontado o momento próximo das efemérides pascais para a transferência.

Haverá que empacotar 400 livros, centenas de pratos, peças de roupa, algum mobiliário e três gatinhos.

Será necessário, para poder passar de uma beirinha do rio Tejo para a outra. A futura casa cabe na sala actual, mas não parece que isso seja um problema.

É mais longe da clínica veterinária, um percalço com o qual haverá que coexistir. E do trabalho, mas não muito.

Pagarei menos, claro. Na verdade, embora indirectamente, a alteração tem a ver com isso.

A especulação imobiliária, ainda que não se reflicta especificamente em mim, faz-me deixar a capital, rumo à cidade mais próxima.

O outro lado aguarda-me.

A conversa que não aconteceu

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A menina, em idade de saber ler, contar e reflectir, entra no estabelecimento.

Tem cabelos escuros e uns olhos pretos, brilhantes, em constante movimento. Não sabe onde há-de sentar-se.

Depois de andar para a direita e para a esquerda acaba por decidir-se pela mesa em frente. Fica ali algum tempo sozinha.

O simpático idoso que anda a recolher uma ou outra peça de louça para devolver ao balcão chega ao pé dela e pergunta-lhe como está, se está tudo bem.

A garota responde que sim e o ancião sorri para ela, carinhoso. Vai ele próprio instalar-se na esplanada e beber o seu café.

Passado um bocado, chega o pai da pequena. Não um, mas dois pares de fones pendurados nos ouvidos.

Um telefone inteligente e um computador tablet para ele, e outro tablet para a filha.

Cada um agarra-se ao seu dispositivo (dois, no caso dele).

O homem de 40 anos vai de vez em quando à rua com o i-phone e um dos pares de auscultadores, fazer uma chamada. Depois volta, e continuam os dois a interagir com os seus écrãs, não um com o outro.

Cerca de uma hora depois, trocam-se as primeiras palavras: “Vamos embora, filha?”. “Sim.”.

O homem de 70 anos que andava a levar os pires para o balcão, e que nunca tinha visto a miúda, dialogou mais com ela do que o pai.

Como é que entro no site?

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Não há muitas chamadas. Os utilizadores brasileiros andam calmos, dos portugueses nem se ouve falar.

Quando os subscritores do outro lado do Atlântico  ligam é para saber como aceitar ou recusar uma reserva, ou como entrar no seu perfil, ou colocar indisponível uma data no calendário do seu imóvel.

Muitas vezes não conseguem ou não sabem fazer a autenticação do seu contacto, porque desconhecem qual é o seu nome de utilizador.

O trabalho acaba por ser um pouco caricato, fácil e difícil ao mesmo tempo. Implica explicar, por exemplo, o que é um e-mail de confirmação e um código de confirmação de uma reserva.

É necessário dizer a mesma coisa várias vezes, alto e devagar, e formulado de modos diferentes.

Há o clássico do anfitrião que registou a propriedade e começou a hospedar pessoas na casa há semanas ou meses. Ainda não recebeu nenhum pagamento. Tudo porque nunca chegou a incluir no seu perfil no site uma conta bancária, ou alguma outra forma de receber os pagamentos.

Com os portugueses também há situações invulgares. Não percebem, por exemplo, porque deixaram de receber reservas.

Aconteceu algo como não verem os emails, onde receberam uma comunicação dizendo que têm que preencher o formulário fiscal X, ou fazer a verificação empresarial Y, obrigatória para quem tem rendimentos acima de W…

Este ano, é previsível que passe do nível I para o nível II na empresa. Significa ganhar o mesmo ou menos e lidar com situações diferentes.

2019 será uma época de transformações. Venham as novidades para agitar o dia-a-dia!  

Agora só como chocolate

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Não encontrava em lado nenhum chocolate totalmente vegan, sem vestígios de leite, sem qualquer substância de origem animal. Foi assim durante dois anos.

Um amigo meu pelos vistos arranjava, mas devia custar os olhos da cara, e era porque estava sentado.

Agora – quando me preparo para sair de onde estou – o Celeiro do Saldanha já tem chocolate cem por cento vegetariano. Até que enfim!

Em poucos dias já comprei (mesmo!) dezenas de barras. Passei quase a alimentar-me de chocolate. Ao pequeno-almoço. Ao lanche. Ao jantar. No cinema. Antes do almoço. Depois dele. Agora sou ainda mais do que vegan. Sou chocolegan.

Só como chocolate. Vegan, claro. Estou feliz.

Continuo a sugar gelados vegan, tamanho Grande, várias bolas, mas todas de chocolate. E a devorar barras alimentares à base desse ingrediente, bem como a fazer desaparecer bolachas em que esse é o protagonista, e a dar sumiço a bolos, mousses e outros alimentos constituídos a partir do célebre e venerado alimento negro.

Mas agora, para gáudio supremo e beatitude completa da minha pessoa, também posso deglutir tabletes desse nutriente, embrulhadas em papel e prata, pretas, estaladiças, espessas, intensas. Estava mais que na hora.

Bem vinda, princesa felina dos domínios vascais                        

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Desde ontem à tarde ainda não parou de miar e ronronar. A Matilde já estava nisto quando cheguei à clínica, para a ir buscar depois da operação, e continuou.

Deram-lhe Mirtazepina, para abrir o apetite. É uma espécie de ecstasy dos gatos. Ficam com a moca, todos malucos. Não param de conversar e pedir atenção. Assim tem sido.

Cheguei a casa, tirei-a da transportadora, já com a casa de banho dela, a água, de Monchique, a ração nova e especial e o patê para ela no quarto. Já tinha comido na clínica por isso não ligou muito àquilo.

Fiz os tratamentos habituais aos felinos lá de casa, dei-lhes comida, deixei-os verem-na e ela a eles, só por um ou dois minutos. A Amélinha, a “Gááta!!”, reage mal a estas alterações de rotina.

A Matilde e o Jeremias estavam tranquilos mas a minúscula e lustrosa pantera negra rosnava à assustadiça convalescente. Passámos a noite os dois no quarto, ela sempre conversando comigo.

De vez em quando acendia a luz do telemóvel para ela ver a água, a comida e a casa de banho.

Às tantas vi que já não tinha a nova camisola cirúrgica, que tem fecho de velcro. Havia que vestir-lhe a antiga, cheia de buracos por causa das cirurgias anteriores, mas que tem fecho éclair.

 

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Uma aventura de uma hora, até porque comecei por lha colocar ao contrário. Pelo meio arrancou da pata o penso, que já não era muito necessário, e dedicou-se a tentar tirar o da outra.

Depois dessas cinco horas de cama e sem descanso, fui trabalhar e deixei metade da casa para ela e a outra para os “manos”. À hora de almoço a minha amiga vai ver como param as modas. Bem vinda, princesa felina dos domínios vascais.