Está tudo bem, “Gááta!!” <3

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Hoje à meia noite fazes sete anos. Só te vou ver depois dessa hora, por isso comecei a dar-te os parabéns logo de manhã, quando acordámos, bebé. 

Sentiste esse amor ainda mais intenso e correspondeste olhando para mim, mimando-me com o teu brilho interior, com aqueles sons que fazes só para mim. Foi assim a manhã toda. 

Eu, tu e o Jeremias andámos nas nossas rotinas caseiras e íamos todos trocando afagos de cinco em cinco minutos.

Fomos buscar-te ao hospital há sete anos, com dois meses de idade. Pouco tempo depois disso, já abrias e fechavas os olhos para mim e ronronavas, mostrando que eras minha e que era eu o centro do teu mundo.

Não me passava pela cabeça que virias a ter insuficiência renal, gastrites crónicas e uma suicida e obsessiva mania de atacar, morder e engolir comprimidos ou pequenos objectos de plástico, metal ou outros materiais.

Viver contigo é estar em vigilância permanente e visitar o veterinário demasiado. Esse é o lado complicado. Depois há tudo o resto.

Há dez anos simpatizava com caẽs e gatos, mas o sentimento ficava por aí.

Não tinha conhecido o Chiquinho, o meu doce companheiro felino que vive para sempre no meu coração. Nem a linda Matilde, a princezinha que reina eternamente nas minhas memórias de amor animal. 

Nem o meu Jeremias, que anima empenhadamente todos os grupos de amigos que vão lá a casa, como no passado fim-de-semana, mostrando que é, na verdade, um cão que reencarnou como gato.

E não te tinha conhecido a ti, “Gááta!!”, único nome que reconheces. 

Para ti a vida é muito simples. Se andar a passear contigo ao colo, se estiver no sofá ou na cama contigo em cima de mim, se estiver sentado à tua frente, está tudo óptimo e maravilhoso.

Ronronarás com infinda meiguice, soltando barulhinhos ternos de pura adoração. Olharemos um para o outro, piscaremos a vista devagarinho, devagarinho, adormecendo-nos mutuamente. E tudo estará bem, “Gááta!!”. <3

“Ah, você tem um bom coração!” <3

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“Ah, você tem um bom coração, você ajuda os animais da rua!”

“Ora, como não gostar deles? São tão bonzinhos. Aquele ali, com a ‘máscara’ de pintas na cara, podia ser o Zorro!”

A velhinha simpática quer alimentar uma gata específica, só que os patudos amigos da Princesinha vêm roubar-lhe a comida. 

Todos comem com avidez. A mulher doce tem problemas de saúde e está meio cega mas coze peixe para a malhadita que, junto com mais uns dois ou três primos, me cumprimenta sempre quando entro ou saio da Praceta. 

Quando vivia em Lisboa, deitava no lixo o patê gastro-intestinal que sobra todos os dias da minha Amélinha, isto é, a “Gááta!!”, único nome que reconhece.

Agora, esses restos deliciosos ficam para os felinos que dormem à luz das estrelas. 

Alguns, por vontade deles, estariam debaixo do meu tecto, como o “Amiguinho”, que corre à minha volta e mia para mim carinhosamente quando me aproximo do meu prédio.

Não posso fazer nada por ele, além de partilhar as tais migalhas da pasta cobiçada, e algum carinho fugidio. Nem todos têm a sorte dos pequenotes que comigo vivem…

A Vida Não É Aqui

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Não me acho como se tivesse participado num suave milagre e noutras páginas queirozianas. Não guardo a sensação de ter vivido todos os confortos e comodidades supérfluas da civilização, e, depois, ter renascido para a vida pura, selvagem e saudável do campo.

Fiz anos, fui extremamente acarinhado e mimado por isso.

No dia anterior e na manhã seguinte entendi-me a sós com as suaves vagas do rio enquanto os meus ténis se deslocavam pelas lonjuras do cais, meia hora para cá, meia hora para lá.

Almocei com os meus pais, como um príncipe emigrado durante anos, não ausente uma semana apenas.

Dormi, descansei e li debaixo dos meus fofinhos, ora miando, ora ronronando, ora lambendo-se satisfeitos.

Saboreei o Sol, a Cerveja, as notícias e as histórias do “Dostoievski Português”.

Ouvi as ondas do mar rugir enquanto observava os pescadores de fim-de-semana na sua labuta.

Contemplo uma sala vazia onde pululam aqui e ali operadores do serviço de apoio e atendimento ao cliente. Ainda faltam mais três horas.

Na Austrália, os Trabalhistas não conquistaram o poder.

As andanças e desavenças do Brexit prometem proporcionar uma derrota histórica e retumbante aos Conservadores e ao Labour, em Inglaterra, nas eleições deste mês.

Igual tareia monumental se prevê para o Partido Popular em Espanha.

Em Taiwan sentem-se, sufocantes, as garras da China, que quer integrar o território independente e asfixiar a sua liberdade.

Assim andou o Mundo nas últimas 24 horas.

A minha princesa Matilde é agora o anjo que sempre foi <3

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No dia em que me conheceste, saltaste para o meu colo. Não era coisa que fizesses a desconhecidos. Alguém disse que eu devia ser muito boa pessoa.

 

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O meu destino cruzou-se com o da tua dona, nessa época. Quatro anos depois, após o divórcio, ela teve que ir viver para Londres e deixou-te comigo, que já era o teu “humano número dois”, porque a viagem seria demais para a tua saúde e a tua idade.

 

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Foste a minha filhota doce, meiga, querida, amiga, sensível, boa e carinhosa durante os anos seguintes.

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Os teus três “manos” perseguiram-te e chatearam-te durante toda a vida, por seres tão vulnerável.

 

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Depois da primeira operação que fizeste, e das seguintes, sentiste o meu amor e protecção de uma forma muito profunda e intensa. Devolveste em decuplicado com os teus miminhos e a tua dedicação.

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Dormias enrolada a mim todas as noites, feliz e segura. Sentia as tuas patinhas agarradas a mim, ouvia as tuas mastigadelas discretas, uma melodia inspiradora que me adormecia.

 

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Seguias-me pela casa, miavas para mim, ronronavas  insistentemente para o teu papá quando acontecia ficarmos sozinhos por momentos.

 

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Tiveste uma existência complicada por causa dos teus companheiros felinos, mas os diálogos que tínhamos, o amor que dávamos um ao outro, a doçura que circulava de mim para ti e retribuías ampliada pelo anjo que eras, essas ficam. Ficarão até ao fim dos tempos, meu amor.

 

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A tua saúde instável foi afectada pelo stress da preparação das mudanças, apesar de todas as medidas de prevenção, dando conta do teu coração e dos pulmões.

 

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Foi tudo terrivelmente rápido. Partiste na clínica, à minha frente.

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Fiquei ainda a beijar-te e afagar-te, minha querida e linda Matilde. Mas já não estavas cá. Até sempre, meu amor, a gata mais doce, meiga, carinhosa e sensível que alguém poderia conhecer.

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Mesmo na rua é preciso respeito            

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Cara não muito limpa nem apresentável, cabeça e cabelo com aspecto descuidado e quase desfigurado. Cumprimenta com a mão direita, depois a esquerda e a dextra de novo.

Agradece muito a comida entregue pela Comunidade Vida e Paz. Pergunta se há roupa. A associação está com problemas de armazenamento e distribuição, temporários. Não há roupa.

Agradece e cumprimenta de novo, a partir da cama improvisada naquele lugar onde mora, na calçada.

Um pedaço de chão arranjado com carinho, onde é possível ver sapatos, cobertores, alguns pertences.

Há uma mochila do Pateta, da Disney, carinhosamente pendurada e destacando-se no meio daquele cenário ambíguo e semi-caótico. Dizemos-lhe boa noite e prosseguimos.

O serão começa como acaba. Três ou quatro horas depois, junto a uma farmácia, há um homem que dorme e outro que está a pé.

Numa espécie de árvore de Natal permanente, os enfeites são garrafas e embalagens de plástico.

Encontramos um jovem negro, bonito, pele suave e leitosa.

Muito, muito simpático, é a opinião comum dos voluntários que vão entregar-lhe a comida.

Diz que está à procura de umas beatas de cigarro antes de ir dormir, mas não quer fazer barulho e incomodar o companheiro que descansa.

Explica que, mesmo na rua, é preciso respeito.

Os Sete números que mandam na minha vida                

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No call-center, para ter esperança de receber um bocadinho de bónus, há sete métricas, ou medidas, a seguir religiosamente.

Pontualidade absoluta (não é difícil).

Assiduidade total (a mesma coisa).

Adesão, o que, aqui, se chama erradamente “aderência”.

Significa que os almoços e as pausas têm que ser feitos nas horas exactas estabelecidas pela equipa dos horários; quando essa equipa define que estamos em chamada estamos, quando decide que estamos a fazer casos escritos obedecemos, quando estabelece que estamos em reunião ou formação também e por aí fora.

Depois temos o número de casos por dia. Temos que fechar 14 diariamente.

E a taxa de promotores. A quantidade de pessoas que elogiam ou criticam a nossa chamada.

Elogiar é dar 9 ou 10 de 0 a 10. Uma nota passiva (neutra) é um 7 ou 8 de 0 a 10. Uma nota negativa é dar 0 a 6 de 0 a 10.

Os detractores têm mais valor na média do que os promotores. Para cada detractor que se receba, tem que se receber uma porção de promotores para reequilibrar, porque valem muitos menos na média.

Muitas vezes até se fez um trabalho maravilhoso, mas o utilizador está chateado com a empresa por outra razão qualquer e dá um zero ou 6, ou um 7 ou 8.

Fundamental é a autenticação dos utilizadores que telefonam (verificação dos dados da conta, que provam que é ele que está a ligar).

Se fizermos 300 chamadas num mês e falharmos por milímetros um dos cinco pontos de autenticação de uma das chamadas, ficamos sem bónus.

Por último, temos a taxa de ocupação, cujo objectivo é 80 por cento. Esta taxa mede o tempo que passamos nas ferramentas virtuais da empresa.

Se tivermos que fazer uma tradução no Google isso prejudica a taxa de ocupação, porque o Google é um site externo.

Se tivermos que pesquisar um tema nas notícias ou uma  conversão de moeda, é a mesma coisa.

São estes os sete números que mandam na minha vida.

Trânsito bloqueado pela estupidez        

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Vinha da quinzenal missão de apoio às Pessoas Sem abrigo, duas da manhã, muito cansado e a pedir cama imediatamente.

Chovia como Deus a dava. A cem metros de casa, vejo que o trânsito está totalmente bloqueado, ao lado da discoteca dos Ferroviários.

A estrada é estreitíssima, mal circularia um pequeno automóvel de cada lado, e houve um esperto que decidiu, simplesmente, ali ficar parado, formando filas de carros e autocarros de ambos os lados.

Apito, buzino, apito e volto a buzinar. Nada. Saio de dentro da viatura, debaixo da chuva diluviana.

Bato à janela. Olha-me um calmeirão com um ar mental e geograficamente perdido. Com muita, muita diplomacia e educação, digo-lhe que está a impedir o caminho dos dois lados e não pode estar ali parado apenas porque isso lhe dá um inexplicável prazer.

Mantém-se o olhar vago e baralhado. Ah, mas eu estou à espera do meu amigo, estou à espera do meu amigo. Informo-o de que existe o Código da Estrada, bem como leis de circulação rodoviária.

Vou repetindo o mesmo muitas vezes, de formas diferentes, sempre civilizada e gentilmente.

Ele diz que sim, que sim, gozando e ignorando-me.

Acabo por desistir. Regresso ao conforto impaciente do meu bólide.

O condutor confundido acaba por se desviar uns centímetros para a direita. Consigo passar, quase lhe raspando a pintura. Ficamos ambos incólumes.

O frigorífico com pernas que nos queria engolir

Manila city, Philippines - Jeepney busses -  photo by B.Henry

A ponte sobre o Tejo está morna, bonita e agradável num Domingo de Primavera. Na faixa do meio, circula-se tranquilamente a 80 km/hora.

Atrás vem alguém que quer andar mais depressa e ignora a existência da faixa dos condutores rápidos, à esquerda. Cola-se à parte de trás, com o pára-choques do jipe.

Gosto de mudar de faixa, quando o Código da Estrada assim o indica, ou quando desejo. Não quando alguém atrás o exige, nomeadamente quando tem livre ao seu lado a faixa da esquerda.

Deixo-me ficar à mesma velocidade, sem abrandar nem acelerar. O tipo de trás apita continuamente e coloco a música mais alta.

O colega automobilista deita espuma pelos ouvidos, olhos e  cabelos. Depois de longos minutos neste braço de ferro, ultrapassa-me e atira-me um objecto duro contra a janela, mas não deixa marcas.

No mesmo dia, a caminho de um café vespertino, o meu pai mete-se numa Rotunda desrespeitando a prioridade. Há um condutor indignado que reage travando a fundo.

O erro foi do meu pai mas o outro ficou tão irritado que tentou provocar um acidente. Depois da Rotunda continua a travar à frente do meu pai, gritando-lhe e ameaçando-o.

O meu querido senhor Ventura tem 77 anos e anda com uma gripe que o tem deixado aflito.

Saio a voar de dentro do bolinhas. Do interior do outro veículo desloca-se uma montanha de carne humana com um metro e oitenta e quilos de músculo e gordura, furioso e agressivo.

Sou o primeiro a chegar ao pé dele. Contra a força bruta não há grandes argumentos, e o erro inicial foi do nosso lado. Assim, levanto os braços em sinal de paz e concórdia e peço ao pedregulho com olhos para ter calma.

O pilar animado concorda com a parte da calma mas diz que as coisas não são assim.

Continua a apoucar o meu pai, acusando-o de ter bebido (está doente, nem se lembra do que é um copo) e não saber conduzir.

Diz que tem o filho no carro e aponta para lá, enquanto fala com o nariz colado à testa do meu pai. Fez, de propósito, uma travagem tão estrondosa que pensámos que lhe tínhamos batido.

O condutor do nosso lado, quando chega ao pé dele, pede para ver os resultados do suposto mas inexistente acidente, e acertar tudo o que for preciso.

Entre ofensas, imprecações e lições de moral rodoviária, o frigorífico com pernas acaba por ir-se embora.

Politiquices de caca                                                            

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É possível que no PSD, no Partido Popular Europeu em que está filiado e nos pensamentos de Paulo Rangel existam algumas preocupações com a população da Venezuela.

É de acreditar que sim. Mas mesmo assim, dá para pensar.

Além da campanha eleitoral europeia, e das aspirações sociais democratas em Bruxelas, quem mais terá sido beneficiado pelo envio forçado de ajuda humanitária para a terra do defunto Hugo Chavez…

Maduro, orgulhoso de ter impedido os caixotes de comida e frascos de medicamentos de entrar no seu país.

Ou Guaidó, acusado de ser uma marioneta nas mãos de Trump e de mais alguns aliados.

O político da oposição foi proclamado presidente interino pelo parlamento eleito, e reconhecido por alguns países.

Invocou a democracia, a liberdade, o desejo de paz e as carências do povo.

Deu a entender desde o início que procurava soluções pacíficas. Agora faz aquilo de que foi logo acusado pelos adversários Maduristas.

Deixa cair palavras que apontam, aparentemente, para um pedido de intervenção militar.

Que Trump e Bolsonaro parecem desejar. Os venezuelanos, no meio das guerras de palavras, não ficaram melhor.

“Eu tenho uma rêsérvva…”                         

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Não há chamadas. Não há casos. Estou há vinte e quatro minutos em prontidão, à espera de telefonemas, e sem casos para resolver.

A pior coisa que pode acontecer num trabalho é não ter nada para fazer. E falta aqui ao lado o pessoal brasileiro, com assunto de conversa e boa disposição durante nove horas ou mais.

Enquanto se espera que caia uma chamada, pode observar-se o ambiente humano.

O piso está a abarrotar de gente, de várias idades mas especialmente mais jovens, de diversas nacionalidades, e há grupos adicionais que chegam todos os dias.

Há novos chefes de equipa a ser anunciados diariamente. A empresa está em franca e acelerada expansão.

Há brasileiros para o mercado espanhol, portugueses para a linha francesa, romenos para os utilizadores alemães, as possibilidades são inúmeras.

Gente que entra e outros que saem. Dezenas de novatos a serem integrados no ofício. E outros tantos a subir de nível, a passar de principiantes para o departamento seguinte, para o apoio aos mais recentes ou para a condução de novas equipas.

A animação é muitíssima, enorme. O trabalho é que está muito paradinho.