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Oito meses e oito dias                              

Oito meses e oito dias. Não sou uma pessoa demasiado lamechas, e a vida continua, o amor, a alegria, o Sol, o céu, as estrelas, permanecem mesmo depois de partir alguém que amamos.

Assim, percorro nos meus dias a felicidade, a tristeza, a dor, o prazer o bem estar ou as contrariedades, como antes. Não sou alguém que fique parado no tempo, apenas a viver uma ausência ou uma lacuna.

Não sou assim, e não seria uma forma digna nem certa de te homenagear e de retribuir o papel enorme e fundamental que tiveste, e tens, na minha passagem pelo Mundo.

Assim, não tenho problemas em dizer que penso em ti todos os dias, meu amor. Quando saio de casa de manhã atiro beijinhos e acenos de adeus à Amélinha, a “Gááta!!”, à doce Matilde e ao fofo Jeremias, e a ti, que já cá não estás.

Pode parecer ridículo. É um hábito, consciente e racional, um tributo agradecido.

Acontece-me estar a ouvir uma música muito forte e emocional, que nada tem a ver contigo; Ou a ver um filme, daqueles sentimentalmente pesados, que adoro e também não têm qualquer relação com o teu ser.

De repente, inesperadamente, sem preâmbulos, sinto uma descarga incontrolável, uma dor que vem bem de dentro, e sou agitado dos pés à cabeça por um ataque de choro duro, bruto, avassalador.

É uma catarse, uma libertação, saudável, necessária, positiva. Herdei a tua sensibilidade aguda e profunda, a tua empatia, a tua capacidade para sentir intensamente  o que os outros sentem.

Nenhuma destas sensações existia antes da tua partida. É engraçado como evito, ao máximo, dizer que morreste, meu amor. Digo que partiste, que estás no céu (eu, agnóstico até à medula), que te foste embora.

Quando muito, posso admitir que faleceste. Morrer, morte, são palavras difíceis de colocar numa frase onde esteja o teu nome. Mas é um facto. Morreste, Chiquinho, meu doce gatinho.

Os teus miados, as nossas conversas repletas de significado para nós, com princípio, meio e fim, continuam a ressoar na minha cabeça. A forma como te enfiavas  no meu antebraço e ali ficavas, a amassá-lo, horas, até adormecermos, continua bem viva.

O teu olhar e a tua voz, a exigir mimo e atenção sempre que eu ia lavar as mãos (especificamente nessas alturas, vá-se lá saber porquê) continuam reais.

O teu semblante filosófico, amigo, amoroso, compreensivo, inteligente, existirá sempre.

Não acredito na vida depois da morte, pelo que não voltaremos a encontrar-nos, meu querido e meigo Chiquinho. A não ser nas minhas memórias e nos meus sonhos, fofinho. Tenho saudades de sonhar contigo. Tenho saudades de ti, Chiquinho.

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