Um livro especial

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Um banco de pedra isolado na calada da noite, um rectângulo claro e sem significado.

Mas sobre essa laje pura, fria e húmida há um objecto dourado e azul, com silhuetas coloridas que saltam à nossa vista.

Um livro de banda desenhada com a respeitável idade de 18 anos. É da época em que deixou de haver escudos. Ainda traz o preço nessa moeda e em euros.

Um Disney Especial sobre mitos e lendas. Nele se lêem as desconcertantes aventuras do Monstro do Lago Patarata, a história do Tesouro dos Nibelungos, a vida do Primata que comia Prata e o dia-a-dia de outras tantas personagens irresistíveis.

Ficamos a saber o que aconteceu quando o Pateta (o Goofy) deu de caras com uma lagarta lendária… Que tinha a cara exactamente igual à dele.

Os dois bonecos tornaram-se amigos de imediato, e o bicho submarino foi adoptado como mascote deste Pateta que tem rosto e orelhas de cão.

As duas figurinhas levam qualquer um a pensar imediatamente nos seus animais de estimação.

É um álbum cheio de fantasia, amizade, ingenuidade e muitos valores de tempos que não são estes. Um amigo de papel para todos os dias.

Transporta para uma era feliz e tranquila em que a vida é simples e o futuro brilhante.

Dá vontade de passar horas dentro das páginas, acompanhando aquela gente imaginária com uma existência em que tudo acaba em festa e animação.

Aí está um objectivo, levar a vida exactamente dessa forma.

Mangas meritocratas

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Os factos alternadeiros, a existir, seriam factos que trabalhassem numa casa de alterne, transaccionando o corpo para conquistarem uns cobres nas horas vagas.

Fatos alternativos dão jeito àqueles senhores enfatuados que todos os dias têm que usar os seus fatos castanhos, cinzentos, azuis escuros ou pretos, sempre com os casacos e as calças da mesma cor. Que monotonia.

Então e se uma vez por semana os melancólicos engravatados usarem um casaco vermelho, umas calças amarelas e uma gravata cor-de-rosa? Isso sim é que é um fato alternativo!

Fitas flamejantes são filmes factuais e intensos que, um minuto antes de chegar ao fim, peguem fogo, incendiando o grande écrã, e, com algum azar, a própria sala de cinema também.

Ritos rastejantes são a coisa mais simples do mundo. Em todas as civilizações existem ritos de passagem, utilizados pela sociedade para assinalar a passagem das crianças à idade adulta. A circuncisão, por exemplo.

Se o rito de passagem consistir em rastejar ao longo de três metros, sobre tabletes de chocolate negro sem vestígios de leite, procurando levar a cabo esse arrasto do corpo sem derreter as referidas guloseimas…

O prémio seria ter o poder de devorá-las a todas em minutos. Um magnífico rito rastejante.  

Para conhecermos a vida das mangas meritocratas imagine-se que as mangas decidiam, entre si, que só iam colocar-se à venda nas bancas do mercado aquelas, de entre elas, que fossem as mais doces, maduras, gostosas e irresistíveis. Isso significaria que as mangas teriam instituído entre si a meritocracia. Seriam mangas meritocratas.

Bolas beneficiadas são esféricos que tenham sido protegidos pelo Olimpo. Pelotas usadas única e exclusivamente por jogadores tão vesgos, tão toscos, tão desajeitados que nunca conseguem acertar-lhes. Bolas beneficiadas pelo facto de passarem o resto da sua vida felizes, sem dores, sem desgaste, sem o inconveniente de serem constantemente pontapeadas.

Cadeiras coagidas são assentos obrigados, contra a sua vontade, a acolher constantemente pessoas obesas, de pesados tecidos adiposos, indivíduos daqueles que, com verdade e justiça, precisariam sempre de dois bancos individuais para basearem o seu traseiro.

Sapos cedendo são os batráquios que, mesmo em países quase tropicais e com verões eternos lá vão aceitando que os charcos fiquem cada vez mais pequenos. Refugiam-se nos últimos dos derradeiros pedaços de humidade e aguardam ansiosamente que venha pelo menos um dia ou um mês de Inverno, com muita chuva durante infindáveis horas, para que depois possam chafurdar alegremente no charco entretanto ressuscitado. É uma vida difícil.

Écrãs ecuménicos são o que todos nós, ou muitos de nós, ou pelo menos alguns, desejamos. Televisões, computadores, telemóveis, écrãs portáteis que não se façam de esquisitos. Que acolham com a mesma alegria e carinho as ideias, os vídeos, as notícias (verdadeiras, se faz favor) ateias, católicas, budistas, muçulmanas, de esquerda, de direita, do centro, das pontas, do meio e de todo o lado.

Notas neutralizadas são as que nos caem nos bolsos mensalmente. Não chegam mesmo a passar pelas nossas algibeiras. Entram no banco e saem logo em passo muito acelerado. Têm que ir pagar a casa, o carro, a luz, a água, o telefone, o telemóvel, a Internet, o streaming, a comida e medicamentos dos filhos e dos animais de estimação e por aí fora.

Dados deferentes são os que se deixam jogar no pano verde pacífica e alegremente sem resistência, e quando vêem o croupier chegar ao casino começam de imediato a fazer vénias e salamaleques, homenageando assim aquele que influencia a sua vida. Mas a verdade é que quando os dados são lançados e determinam o destino, são eles e só eles que decidem como é que vão cair.

Índios irónicos é o que todos são no fundo. É uma enorme ironia terem sido corridos das suas terras desde há séculos e depois ouvir os norte-americanos ou os brasileiros dizer “esta é a minha terra”. Os verdadeiros brasileiros e norte-americanos são os índios.

Gatos geliformes são uma guloseima deliciosa feita de doces constituídos por fruta e açúcar de cana, sem substâncias de origem animal, em forma de gatinhos. Tão lindos, tão bons, tão maravilhosos que nunca ninguém conseguiria comê-los. 

Quando ela me diz que me ama

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A escovagem dos três felinos lá de casa é uma aventura diferente todos os dias. O único gato que exigia e adorava esta actividade era o meu saudoso Chiquinho, que a entendia justamente não apenas como um cuidado de saúde, mas uma merecida homenagem diária, cheia de afecto.

Miava e miava, de todo eufórico com essa atenção distintiva.

Os seus três primos que me alegram os dias são mais difíceis de persuadir.

O meu Jeremias está a ficar velhote e pachorrento. Pego nele, insisto umas vezes e ele acaba por ficar uns minutos a ronronar, de lado, enquanto lhe retiro o pêlo morto.

Com a Amélinha (a “Gááta!!”) tenho uma nova técnica. Deixo-a atacar e morder à vontade no meu pulso a bracelete de pano do Dia do Voluntariado, 27 de Outubro (a sua actual obsessão), e assim consigo “esfregá-la” durante um a dois minutos para lhe puxar o lustro e retirar a pelagem danificada.

Com a Matilde, tudo é diferente.

Primeiro, escovo os outros.

Depois fecho-me na cozinha com ela, conversamos os dois, convenço-a, insisto, tento uma ou duas vezes…

Vou contando de zero a dez e ao contrário e fechando os olhos, respirando fundo, inspirando e expirando ao ritmo da contagem.

Acalmamo-nos os dois nesse êxtase meditativo.

Finalmente, aceita que a vá afagando repetidamente com o instrumento próprio, cinco, dez, quinze minutos, o tempo que eu quiser.

Olha para mim com um amor inexprimível.

Roça-se, esfrega-se, mia e ronrona.

Ficamos os dois tranquilos, felizes, banhados por um estado de espírito superior.

Escovar os nossos gatos não é só um acto de amor, que pode ser levado a cabo com escovas de borracha, as normais de pentear, pentes ou luvas de escovagem (o método mais carinhoso e que considero mais eficaz).

É também necessário para prevenir problemas de estômago e infecções urinárias, contribuindo para a higiene destes anjos de quatro patas e da casa.

É uma tarefa em que conseguimos unir prazer recíproco e tratamento felino.

Um sono que não acaba

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O pessoal anda escandalizado, indignado até à medula. Findou o Verão! O calor está de malas feitas. Chove.

Que horror, como é possível? É indecente, inaceitável. É por estas e outras que o prestígio dos políticos está como está.

Continuo a cumprir o meu plano de vida, trabalhar seis meses por ano de calções, de Maio a Outubro.

Não concordo com o estado de espírito geral de protesto contra a insuficiência das alterações climáticas.

Adoro o calor dos 25 aos 30 graus, e não fico deprimido em casa só porque o estio de seis meses é artificial e causado pela destruição em curso do Planeta.

Mas estava ansioso pela chegada do Outono!

Ele e o Inverno são épocas do ano muito mais carinhosas e aconchegantes do que este Verão parado no tempo.

Armei-me em friorento e comecei, já esta semana, a dormir debaixo do édredão. Porquê?

Se a Amélinha (a “Gááta!!”) e o Jeremias dormem em cima de mim, agarrados ao meu corpo, encostados à minha pele, mesmo que estejam 35 ou 37 graus, a Matildinha está sempre a ser perseguida e importunada por eles…

Assim, não se junta a nós na cama tão facilmente nessa época quente e luminosa sem fim.

Neste Outono que levei a começar mais depressa passando a tapar-me à noite, o que faz ela? Vem imediatamente colocar-se, comigo, debaixo dos lençóis. Ali fica, cozida às minhas costas, até de manhã.

Passei a receber, por fim, as minhas doses triplas de afecto, que voltaram a incluir esta princesinha cinzenta, além do seu irmão tigrado e da minha luzidia pantera negra.

Agora descanso muito melhor, sem uma única interrupção do sono até à hora de acordar.

O que me faz feliz?

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O bem estar espiritual chega através das coisas que parecem irrelevantes.

Levanto-me cedo. Faço uma corrida de uma hora.

Dedico-me depois à caminhada matinal acelerada. 20 minutos de um terminal de comboios a outro, à beira rio, com o nascer do Sol no programa.

O pequeno-almoço à frente das águas, a ler as notícias da manhã. Café, em dose liberal, porque dentro de 24 horas é dia de folga, não há horários rígidos e a insónia não assusta.

A minha Amélinha, a “Gááta!!”, distribui umas arranhadelas a meio da noite, sempre ansiosa por dedicar-se ao disparate. Sacudo-a com o pé. Fica encostada, enroladinha, contra as minhas pernas, a ronronar até de manhã.

O mesmo fazem o Jeremias e a Matilde. O tigre caseiro que se porta como sombra do seu humano e a princezinha cinzenta, que se alimenta dos mimos e da atenção que lhe dedico.

Deita-se de lado, dá-me o corpinho, para lhe fazer festas no farto pêlo e lhe dar beijos na barriga redondinha.

Ao mesmo tempo a “Gááta!!” canta, dá gritinhos e mia. Rebola no chão, estica-se à minha frente.

Quer a mão, os dedos, a passearem-se pela sua silhueta negra e luzidia enquanto me observa com aqueles olhos verdes claros sempre cheios de curiosidade, amor e malandrice.

O que me faz feliz são os olhos deles.

O Chiquinho foi “O meu primeiro gato”, e hoje continua a visitar-me nos sonhos, conversando comigo, dando-me amor e pedindo-me miminhos, como fez ao longo de toda a sua vida.

Mas antes de o conhecer já existiam o Jeremias, o primeiro felino a querer travar amizade comigo, e a Matilde, que quando me conheceu veio para o meu colo, mostrando que eu “devia ser muito boa pessoa”.

Hoje fazem anos. Que venham muitos mais!