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Um raio de esperança

– Nem sei bem o que lhe aconteceu. Está toda ferida.

– Oh, que tristeza… Que idade tem ela?

– 17 anos.

– Pois, já é uma velhota!

– Nunca devemos receber um cão em casa sem saber o comportamento dele… Os da raça dele são pequeninos mas muito agressivos. Brigou com ela e deu-lhe pancada.

– Coitadinha!

Cinco minutos depois, a senhora de 70 e muitos anos e a sua cadelinha de longevidade correspondente são atendidas pela minha querida doutora.

Mas não é fácil concretizar essa vontade. A simpática mulher está sentada há muito tempo. É difícil levantar-se.

Acabo por erguer da cadeira as duas em peso, gentil humana e canina minúscula e apática. Pergunto se precisa de assistência para dar os sete passos que separam a pequena sala de espera do confortável gabinete. Não, chega lá sozinha.

Fico a olhar para ela, a ver se se equilibra bem com a sua idosa amiguinha nos braços.

A bichinha vai ser toda desinfectada das patas de trás às da frente, passando pela barriga e pela cabeça. E levar uma injecção de anti-inflamatório.

Como é que esta utente, com quem já me cruzei outras vezes, veio de casa até aqui e regressará ao seu lar, se mal pode andar e levantar a sua companheira de três quilos?

Há tempos, embora ela estivesse de muleta, tive que deixá-la ajudar-me a levar as minhas quatro transportadoras de gatos até à rua. Não sei como o fez, mas percebi que esse acto proporcionou prazer ao seu espírito doce e generoso.

Este ser meigo e bondoso, a avó que todos gostariam de ter, deixa-me sempre enternecido com o seu carácter e preocupado com o seu bem estar, e o dos seres de quatro patas que são a sua companhia.

Mas também me revela um raio de esperança, um mundo melhor do que aquele que vemos todos os dias nas notícias.

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