Chiquinho

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O gato preto que me deu sorte

Meio do Verão, Alentejo. Um casal, os pais e os tios, uma sardinhada. Aparece um gatinho preto a pedir alimento e atenção. O meu pai ia-lhe dando alguns pedaços, a ele e à sua amiga de quatro patas, enquanto dizia, carinhosamente “tomem lá, seus palermas!”.

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Algum tempo depois, o jovem casal e a amiga regressam ao local para um fim-de-semana de descanso. Começam a ser visitados por aquele ser negro e carinhoso, temporariamente nutrido com as sobras dos jantares trazidos do restaurante mais conhecido da Zambujeira.

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O bichinho tomou desde logo apego à pessoa do grupo a quem não passava pela cabeça ter um felino em casa, eu. A amiga e a namorada explicaram-me que aquele patudo magrinho precisava de mim, e eu dele.

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Horas depois, tomo a decisão. O Chiquinho deixará o seu dia-a-dia agitado e incerto, mudando-se para a cidade. Para Almada.

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Inicia-se uma caminhada de sete anos, com miados, festinhas, longos diálogos de amor e compreensão entre o peludo e o seu humano.

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Com o Chiquinho tornei-me menos egoísta e mais feliz, alegre por ouvir as suas repreensões por estar um minuto sem atenção, ou por querer mais comida, ou por desejar lamber-me as mãos e os braços ainda quentes e molhados a seguir ao duche matinal.

O meu pequenote sabia sempre quando os humanos estavam tristes e carentes de apoio, e vinha fazer o seu trabalho empenhado e altruísta. Mimar, acompanhar, afastar de nós as energias negativas e preocupações.

Não esperava que a jornada fosse tão curta, fiz tudo para prolongá-la. Mas o Destino não quis que fosse assim. Às 13h43 atendi a chamada que nunca queria ter recebido.

Na última manhã que passei com ele falei-lhe de tudo. Da animação e do prazer sem fim que foi passar estes anos incríveis com ele. Das memórias que eu, a Ana e a Maria guardaremos dele para sempre. Dos momentos inesquecíveis que ele me ofereceu sem pedir nada em troca. Da vida quotidiana que nós os três, os seus humanos principais, temos agora, quase uma década depois.

O Chiquinho transformou a nossa existência e ensinou-me uma forma de amor incondicional que não conhecia. Os seus olhinhos brilhantes e inteligentes, as suas conversas apelativas e plenas de significado, a sua doçura, a sua meiguice e a sua sensibilidade vão acompanhar-me até ao fim dos meus dias.

Tu, o gato preto que me deu tanta sorte e alegria, estarás sempre guardado no cantinho mais especial e completo do meu coração. Até sempre, Chiquinho.

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  1. Tão lindo, Vasco. Que bom que o Chiquinho te encontrou e que teve uma vida tão feliz contigo, ao mesmo tempo que te fez um ser humano melhor e também mais feliz.
    Já perdi alguns enormes amigos de quatro patas, membros da minha família que fizeram de mim a pessoa que sou hoje, melhor, mais altruísta, mais abnegada, mais descomplicada e com uma maior capacidade de amar,
    A dor da perda é enorme, quase insuportável. Mas ficam as memórias, tão boas, tão felizes e carinhosas destes amigos incondicionais que nos dão o que têm de melhor pedindo em troca apenas um pouco de atenção e afecto.
    A vida é tão melhor quando partilhada com estes companheiros. O Mundo seria tão melhor se os humanos aprendessem alguma coisa com estes companheiros.
    Sei que agora vai doer, que as saudades vão apertar mas, acredita Vasco, com o passar do tempo o teu Chiquinho será uma doce recordação que te acompanhará toda a vida.
    Um beijo enorme e um abraço apertado.

  2. Fico comovida com a forma como fala dos seus amigos de 4 patas.
    Eu também já tive uma gata preta que deu sorte e que me fez feliz. Um dia entrou na minha vida, através do motor do meu carro, depois de se ter aguentado numa viagem na A5 entre a Pr. da Alegria e Oeiras. Uma sobrevivente! Levei-a para casa, claro, e nunca me arrependi de ela ter aparecido. Vivemos felizes e contentes vários anos até que um dia adoeceu e pouco depois partiu.
    Mas é mesmo como diz a sua amiga Helena Sequeira: custa muito mas depois vai suavizando e ficam as recordações dos momentos que vivemos com eles e do quanto eles nos acompanharam e fizeram felizes.