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Devolveu a vida a uma menina morta

Aproximou-se da farmácia. Da rua, viu um considerável ajuntamento de pessoas à porta. Lá dentro o farmacêutico seu conhecido trocou um olhar com ele e abanou a cabeça, depois de andar algumas vezes para trás e para a frente.

Entrou. Havia uma garota de 12 anos deitada em cima de uma marquesa, e já sem respirar havia longos minutos. À volta, todos os familiares. Pôs-se no meio deles e distribuiu instruções rapidamente. Mandou duas pessoas  massajar cada perna e braço, vigorosamente, de baixo para cima.

Ele próprio colocou-se a meio do corpo e deu-lhe uma massagem forte e prolongada no tronco, repetindo o movimento uma dezena de vezes. As costelas da menina cediam como manteiga, tal era a sua magreza.

Ao fim de algum tempo, ouviu-se um barulho que parecia vindo das profundezas do Inferno, um suspiro que podia ser confundido com um ronco cavado ou o grito de um animal.

A adolescente, cujos pulmões tinham parado e que estava dada como morta, acordou. O passo seguinte era correr a casa do médico que curava os doentes da região e mandá-lo de urgência tratar a paciente.

Ao mesmo tempo, começou a ver que pela primeira e única vez na vida ia chegar atrasado a uma reunião. Um fato que não lhe engomaram a tempo e a ineficácia dos empregados do hotel fizeram o resto.

Perdeu o avião e o encontro de trabalho. Mas foi melhor assim. De outra forma já cá não estaria e teria por morada o fundo do Oceano, como aconteceu com os ocupantes desse voo.

Salvou a vida da garota. 50 anos depois acha que não se portou bem naquele dia, errou: Antes de se ir embora devia ter passado com a família por um supermercado, encher o carro de comida e despejar a carga em casa deles.

Era gente que passava fome, o que explicava certamente o estado em que a jovem se encontrava. Arrependeu-se de não ter feito mais. Mas se não fosse ele, a miúda não tinha passado daquele dia.

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