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O italiano observador

O jovem italiano de olhos claros e tranquilos como a água do mar imita alegremente os meus gestos enquanto como a sopa. Explico-lhe que é um alimento excelente, rico e muito saboroso.

Acredita e diz que eu devia estar a escrever numa publicação sobre alimentação, como um especialista que degustasse e caracterizasse cada prato que lhe aparecesse à frente, já que sinto tanto prazer nesse acto necessário a todos nós.

Se fosse ao sul de Itália seria feliz, segundo ele. Por ali as pessoa gostam que os convidados encham bem a barriga, não deixem uma migalha por devorar e depois dêem a sua opinião no fim.

Afirma que quando mordo uma fatia de broa de milho fresca e consistente, faço a mesma cara que ele ao apreciar uma adolescente.

Acrescenta que agora já não faz essa expressão, porque as jovens estão mais amargas. Ninguém decide aprofundar esse tema.

Assinala a falta de companhia feminina mas garante que mais tarde ou mais cedo há-de encontrar uma, algo que também não é discutido pela pequena audiência durante a pausa da manhã.

Quando me vê debruçado sobre o computador a responder a um mail de um utilizador dos serviços, observa que parece que estou a fazer amor com o teclado.

Lamenta o excesso de tecnologia. Hoje em dia as pessoas não estão habituadas a comunicar entre si ao vivo. Só quando faltou a luz lá em casa, no outro dia, é que de repente todos os coabitantes quiseram ir ao seu quarto falar com ele.

Filosófico, assegura que nos primeiros dias no novo trabalho as pessoas queriam apresentar-se umas às outras e falar sobre si próprias, mas depois o entusiasmo perdeu-se. Já ninguém quer dialogar, a não ser sobre os casos que estão a tratar.

A partir de uma certa hora do dia acha que já disse tudo o que tinha para partilhar e apenas quer ficar calado.

Chegou a Portugal num dia e no outro começou a trabalhar. Perguntam-lhe se em Itália há ordenado mínimo. Diz que sim, mas as coisas na realidade funcionam de outra maneira.

O Alberto trabalha por 600. O Luca fá-lo por 500. O mínimo legal pode ser X mais do que isso, mas não interessa. O emprego fica para o Luca.

Não tem vontade de se pronunciar mais sobre questões laborais. O intervalo terminou, é hora de voltar a pegar na chamadas e nas mensagens.

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