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Até às últimas consequências

O oficial do exército russo abotoou o seu dólman e dirigiu-se para o centro da Praça Vermelha. Era hora de comemorar a revolução e a ditadura do proletariado.

Atravessou a ponte Bolshoy Moskvoretsky e ouviu o som de uma canção que lhe pareceu vinda do outro Mundo.

A neve que caía sobre a estrada, o frio sólido e pesado e a luz matinal branca e alaranjada davam a tudo um ar feérico.

O veículo decrépito transportou-o ao seu destino. Sentia-se enjoado como uma dama em alto mar. O astro subia no horizonte.

O jovem prematuramente calvo completou o seu breve percurso e penetrou com candura na multidão. Não encontrou o fausto que seria de imaginar, os ânimos acirrados, os estandartes no ar.

O povo pareceu-lhe alienado, mas já não pela revolução. Talvez pelas redes sociais, ou pelo desejo de um novo imperialismo.

Os velhos jogavam às damas nos cafés. Nos campos, a turfa continuava a ser colhida.

Os cientistas não deixavam de estudar as partículas microscópicas, colocadas entre duas lamelas de vidro para posterior observação.

Parecia que nada de nefasto ou glorioso se tinha passado.

Mesmo assim, havia apenas cem anos, Lenine tinha desembocado em Moscovo, trazido numa carruagem “selada a chumbo, como se fosse o bacilo da peste”, diria Winston Churchill.

Antes de pôr o pé no chão já estava a discursar. Incendiou as multidões com a sua inteligência e fúria radical, e a revolução foi levada às últimas consequências.

A sociedade anterior foi extinta por completo.

Para a pátria do comunismo, o mundo que nasceu a seguir foi muito pior do que aquele que existia antes.

A utopia levou atrás de si milhões de vítimas.

Nos outros quatro cantos do Planeta, a realidade anterior, uma existência de criados e senhores que nunca deixariam de o ser durante toda a vida, também conheceu o seu fim.

O que se vive um século depois não é um amanhã que canta trazido pelo pai dos povos. É incomparavelmente melhor do que os dias de 1916.

O marxismo-leninismo teve alguma coisa a ver com essa mudança, o capitalismo também.

O comunismo foi derrotado. O sistema capitalista permanece perverso, como já era então.

É altura de encontrar alguma coisa diferente.

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