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O último voo da águia

O nosso primeiro concerto. Ali, no palco do pavilhão da Quimigal, estavam os cinco artistas que reverenciávamos todos os dias, nos discos e nas cassetes.

Anos 1980. Tudo doido e completamente acelerado, T-shirts, calças de ganga, blusões de ganga ou de cabedal.

À nossa frente um punk grandalhão vestido de couro negro e cheio de picos de metal por todo o lado, como um ouriço. Saltava, pulava, esperneava e distribuía encostos à esquerda e à direita. Estava a limitar-nos o espaço.

O Pedro deu-lhe uma canelada de tal ordem que até lhe ficou a doer o pé. O tipo não se acusou. Mas o nosso cantinho ficou maior, porque os encontrões deixaram de vir na nossa direcção.

Anos mais tarde, em preparação de uma viagem de finalistas, fomos ao escritório dos nossos ídolos, que conhecíamos das gravações veneradas e da actuação ao vivo, os Xutos & Pontapés.

Pedimos-lhes para darem uma sessão de autógrafos na nossa escola. Vieram o Kalu, o Botas (o Roadie) e o Zé Pedro. Foi um sucesso estrondoso.

Antes disso ainda tivemos direito a ir beber um copo num barzito do Barreiro, com aqueles músicos que marcariam três gerações. E que estavam connosco, ali, com a mesma afabilidade e gentileza que mostrariam com alguém que conhecessem havia 20 anos.

Estavam em casa, e nós também. Quando a tal viagem de finalistas a Paris aconteceu, encontraram esses estudantes na Cidade Luz e reagiram com simplicidade desarmante: “Olha os gajos!”.

É a marca de carácter do Zé Pedro, do Kalu (que me deu uma magnífica entrevista décadas depois), do Tim, do João Cabeleira e do Gui.

Era o que transparecia com contundente evidência quando ouvíamos os programas e as entrevistas do Zé Pedro nas rádios nacionais.

Ele dava-nos aulas em directo sobre os Led Zeppelin, os Rolling Stones, os Brian Jonestown Massacre ou os White Stripes, como se ainda estivesse comigo e com o Pedro, no tal café, a beber um copo no Barreiro na alvorada dos anos 1980.

Obrigado, Zé Pedro. Obrigado, Xutos.

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