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No canto de um corredor escuro

M poderia perfeitamente estar connosco a almoçar, na sala de jantar, e ser o nosso tio, avô, primo ou cunhado:

Está bem vestido, absolutamente limpo e cheira bem.

Mas vive num canto de um corredor escuro, em plena capital nacional, no meio do frio, da humidade, do barulho da vida nocturna e do abandono.

Pede-nos que chamemos os Médicos do Mundo, porque ficou sem a medicação e não se sente bem.

A coordenação da Comunidade Vida e Paz tratará disso rapidamente.

Os problemas deste homem com alguns dentes a menos – a única coisa que afecta a compreensão do seu discurso perfeitamente lógico e articulado – começaram quando o filho, com quem vivia, arranjou uma nova namorada.

A mulher virou-o contra o pai: Passou a estar afastado dele e a tratá-lo mal.

A rapariga queria mandar o sogro limpar toda a casa onde viviam – “e bem limpa”, exigia – como se fosse criado do casal.

Depois de agredir o pai verbal e fisicamente várias vezes, o filho expulsou-o de casa. Pô-lo na rua como se fosse um objecto ou um pedaço de lixo.

Há dias, roubaram-lhe a mala onde tinha roupa, artigos de higiene e medicação. Isto pouco depois de alguém, que conhece indirectamente o filho, lhe ter perguntado especificamente se estava a viver na rua, e onde.

O local é bastante escondido, e só quem saiba exactamente onde fica o encontra. O que o leva a crer que o responsável pelo roubo foi o filho.

Diz que nunca poderá perdoá-lo por tudo o que lhe fez e abraça-se a nós a chorar e a pedir desculpa insistentemente.

A conversa dura quase uma hora. Ainda há mais dezenas de pessoas que precisam de ser ajudadas, e a carrinha acaba por partir.

Cinco horas depois, no final da noite de apoio às Pessoas Sem Abrigo da cidade, a equipa volta a passar pelo local.

Dorme, enrolado, tapado e com um ar mais pacificado. A Comunidade Vida e Paz continuará a acompanhá-lo e a ajudá-lo como conseguir.

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