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A mulher perdida

A mulher andava com um ar perdido, rua abaixo, rua acima, rua abaixo, rua acima. Esteve assim durante muito, muito tempo.

T vive na rua e começou a aperceber-se de que esta senhora ia talvez passar a sua primeira noite ao luar, o que explicava o seu ar completamente desorientado.

Foi falar com os Médicos do Mundo e referiu-lhes a existência deste ser humano em dificuldades. OS MM tentaram, mas não conseguiram estabelecer diálogo com ela.

Uma equipa especial de técnicos e coordenadores da Comunidade Vida e Paz dirige-se para o local. Iniciam-se as negociações. A mulher continua a não querer falar.

Depois de longas e árduas tentativas, os responsáveis da CVP começam a conseguir dialogar com aquela alma desesperada. Dão-lhe comida e, muito tempo depois, começam a tentar persuadi-la a passar a noite num albergue.

Quando chegamos junto de T, um homem que, desde há muito, nunca queria conversar connosco, tratamo-lo pelo nome – que entretanto descobrimos –, falamos desta situação (uma pessoa que dorme na rua foi quem pôs tudo a andar para que uma mulher não tivesse que ficar esta noite sem tecto) e contamos-lhe onde está, actualmente, o ancião sábio, culto e profético que viveu na calçada três anos a 50 metros dele.

Não sabia, e fica radiante por ser informado. Irá visitá-lo amanhã. A transferência de uma entidade de saúde para uma instituição de solidariedade desse homem, U, o nosso amigo comum, parece ter passado despercebida a toda a gente. Os amigos, da rua e de fora dela, perderam-lhe o rasto.

T, ao longo de meses, nunca falara connosco. Mas hoje, não sei se foi alguma coisa que fizemos, a sua atitude transforma-se. Conversa durante uma hora, só uma, porque temos outras pessoas a quem ajudar também e ainda só fizemos metade do percurso. Por vontade dele, continuava.

Parece que só habita no passeio quando não tem paciência para aturar a mulher. Mulher, que não é a primeira. É viúvo, e, quando fala dessa esposa que já não existe, as lágrimas vêm-lhe aos olhos.

O mesmo quando refere os dois filhos adultos. Um, não o vê há 12 anos. Esse e outro parecem estar desaparecidos na Suécia. Já tentou encontrá-los, mas é muito difícil. Se uma pessoa tiver uma vida normal e não experimentar nenhum encontro forçado com as autoridades, se quiser ficar desaparecida fica. Ai está uma lição, mas não a única.

Quando se chateia com a mulher, faz uma de duas coisas. Ou dorme na rua ou, no calor da troca de argumentos, vai dar uma volta, conversar com os amigos, jogar às cartas, fumar um cigarro, beber uma mini. Quando volta a casa já não se lembram do que estavam a discutir. Já não estão a discutir nada.

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