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Uma banana madura e uma cerveja fresca

Podemos sempre contar com uma loja indiana para nos vender várias bananas, ou uma só, com o grau de amadurecimento ideal e perfeito para ser consumida na hora. De um Pingo Doce nem sempre podemos esperar isso.

Também conseguimos encontrar na maioria destes estabelecimentos asiáticos uma cerveja fresca, a qual, às vezes, só encontramos no supermercado bem morna, àquela temperatura a que nunca iríamos bebê-la.

Dois factos que se tornam evidentes no dia quente em que visito U., o meu amigo invisual de 84 anos transferido da instituição de saúde onde fora internado compulsivamente por alguém que não queria que vivesse na rua…

Passou, há algumas semanas, para a alçada de uma das instituições de solidariedade mais conhecidas em Portugal. Não para um lar – o objectivo desta intervenção que começou por retirá-lo da rua – mas para uma situação provisória, e com efeitos idênticos.

Quando chega junto de mim parece estar em condições físicas razoáveis, tendo em conta a idade e os problemas de saúde. Ainda em fase de adaptação, não tem muita vontade de falar.

Diz que no novo lugar a comida é melhor, e as instalações também. Pergunto-lhe se está incomodado ou desconfortável, na cadeira onde o colocámos para a minha visita, e responde-me com uma reacção habitual:

Não. Se estiver aqui estou na sua companhia, se for embora fico sozinho. Estou tão confortável aqui como lá.

Percebo a mensagem: Fico mais um bocado junto a ele, mesmo depois de já lhe ter contado tudo e mais alguma coisa que lhe possa relatar, após  uma semana e meia sem vê-lo.

A meio de uma frase qualquer sem importância – após ter pouco sucesso nas mil tentativas de puxar pelos seus temas de conversa preferidos – faz-se finalmente um pouco de luz.

Falava-lhe das câmaras de telemóvel, e das imagens que capturam. Defensor da fotografia analógica, lembra-se de em tempos ter tido uma câmara com lente Zeiss (eram consideradas um produto de altíssima qualidade).

Um fotógrafo insistiu muito em comprar a sua lente preciosa, mas ele não cedeu. Comento que um dos realizadores mais famosos de sempre encomendava esse equipamento directamente ao fabricante, pedindo que fossem criadas lentes especiais e únicas, dirigidas especificamente às suas câmaras de filmar e aos efeitos cinematográficos revolucionários e inovadores que ele inventou.

O meu amigo não vai poder andar pelas ruas a descobrir onde se vendem as bananas mais maduras ou as cervejas mais frescas. Mas as suas memórias são tão ricas que devem ser tratadas como a mais preciosa das cinematografias.

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