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O diagnóstico certo e o tratamento errado

Como acontecia às vezes quando vivia na rua, hoje não se mostra muito receptivo à conversa, nos primeiros momentos.

Ignoro a sua disposição menos dialogante.

U. diz-me para ser eu a falar e conto-lhe tudo o que fiz na última semana. Os encontros com amigos, os livros, os filmes.

Acabo por referir o recém-estreado O Jovem Karl Marx, algo que lhe aviva visivelmente o interesse.

Pergunta-me qual a minha opinião acerca de Marx. Enrolo-me e tento explicar que, depois do filme, fiquei com um conhecimento bastante diferente e mais alargado acerca do autor d’ O Capital.

Por esta altura, já conquistei claramente o seu interesse em conversar comigo durante mais de uma hora. Este sábio octogenário cego e filosófico, agora internado involuntariamente numa instituição de saúde, acaba por interromper-me.

Percebe que a minha opinião sobre este assunto é superficial, e avança, entusiástica e convictamente, com a sua… Ouçamo-lo:

Marx, na verdade, não era bem um economista, um pensador ou um intelectual. De facto, era mais ou menos uma espécie de médico.

Um clínico que teria sido enviado para um país remoto e distante, com o objectivo de estudar a doença que mais afligia os médicos na época.

Ninguém conseguia perceber e estudar correctamente essa grave patologia. Ao contrário dele.

Identificou, aprofundou e entendeu claramente, como nenhum outro ser humano, essa terrível doença que a todos afligia.

Estudou-a, dissecou-a, compreendeu-a como nunca se tinha feito. Era o médico mais competente, inspirado e inteligente do seu tempo.

Apurou a patologia, os sintomas, as causas, a forma como se manifestava… Aí, acertou completamente, e foi o único.

Prescreveu um tratamento para esse terrível mal, que detalhou nos seus livros e nos seus textos. O problema é que, se o diagnóstico não podia estar mais correcto, também o remédio não conseguiria ser mais errado, afirma U.

A análise médica acertou na mouche, mas a forma de debelar a doença errou em toda a linha. Como a Humanidade provou nos anos seguintes, e até hoje.

Nunca se conseguiu fazer com que o tratamento resultasse, o que prova que estava errado.

Continuamos a dialogar sobre os livros e os filmes que suscitam o nosso interesse. E sobre Cervantes, Dostoiévsky, Tolstoi.

Refere um livro que analisa a morte dos intelectuais. Segundo diz, os intelectuais estão a desaparecer e já quase não existem nenhuns. Pergunta-me porquê.

Respondo que é uma tendência social. “Não, não é uma tendência social. É uma iniciativa política, uma vontade dos políticos. É uma coisa que interessa ao poder político”.

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