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Um sorriso que ilumina a noite

Tem um caixote “de luxo” por detrás de um instituto, e nesse metro quadrado de espaço concentrou algumas das funções básicas de uma casa, com uma medida abundante de brio e dignidade.

Olhamos para ele, e é mais uma daquelas pessoas que vivem na rua mas se apresentam tão limpas e bem vestidas como se estivessem connosco a assistir a uma sessão de cinema.

D. decidiu viver no chão da calçada porque tem uma reforma de 300 euros: Entre pagar um quarto, comer ou comprar os medicamentos para as doenças de que sofre, tinha que fazer escolhas.

Ironiza com as pessoas que acham que esses 300 euros, pelos quais trabalhou a vida inteira, são um valor fantástico. Afirma que os políticos se lembram sempre dos que nada têm, porque, quando o fazem, conseguem mais votos.

Descreve alguns pontos da cidade onde, à noite, cinco ou seis instituições de solidariedade se amontoam para apoiar as pessoas carenciadas. Alguém de fora chega e diz que este é um país muito miserável.

Para ele, aquela não é a verdadeira miséria, porque “a verdadeira miséria está escondida”, longe dos holofotes das câmaras televisivas e das campanhas eleitorais.

Uma parte dessa carência e pobreza é visível aos olhos das instituições que percorrem a noite e a metrópole, em busca dos que precisam de um pedaço de pão ou dois dedos de conversa.

J. está triste e revoltado e conta-nos parcialmente a sua história, de rosto vermelho e banhado em lágrimas. Saiu de casa e a sua mãe mudou de morada por causa dele, dizendo-lhe que ele já não era seu filho.

O homem deixou o lar e a mãe porque esta estava com problemas graves de saúde e “passou-se” com ele. Para não lhe responder e não entrar em conflito, virou-lhe costas e saiu. Até hoje.

Foi só isso? Não, não foi bem só isso. A mãe não gostava que ele bebesse, já estava farta. É óbvio o desejo de saber se não há reconciliação possível. Garante que não.

G. vive noutro quadrado de cartão, a poucas centenas de metros. A equipa acompanha-o há muitos meses, e há bastante tempo que o rapaz não sorri.

Um elemento novo deste grupo garante que o jovem tem um cão. Toda a gente abana a cabeça de incredulidade… Os voluntários aproximam-se e reparam nuns acessórios que os deixam desconfiados.

Metem conversa mais uma vez. Surge, meio escondida por um cobertor, caladinha, terna e carinhosa como um gato, uma pequena cadela, linda, meiga e doce.

Começamos a conversar com ela e com o dono. Pela primeira vez em meses, abre-se um largo e luminoso sorriso no rosto deste homem sem abrigo.

Agora já sabemos que o simpático animal existe. Na próxima visita, a Comunidade Vida e Paz, que, em conjunto com a associação Animalife, apoia as pessoas sem abrigo de Lisboa e os seus animais de estimação, já irá trazer-lhe ração e tentar fornecer-lhe outros bens e cuidados de que o animal e o dono precisem.

A meio da noite, ouve-se uma voz que se projecta em direcção à carrinha. “Olhem, eu também vos posso ajudar?”. É um homem de camisa branca e calças claras, meia idade, cabelo escuro e curto, que quer fazer alguma coisa pelos outros.

Em cinco minutos fica a saber como é feito o trabalho de reinserção social e mudança de vida levado a cabo pela Comunidade Vida e Paz, através das suas equipas de rua, dos seus técnicos e das suas comunidades de reinserção.

Fica com o nome e os contactos da instituição, para que possa juntar-se a nós e pôr a sua boa vontade ao serviço de quem dela precisa.

A noite passa num instante e mostra-nos as muitas facetas da vida e da rua.

Os que estão revoltados e angustiados por viverem à margem da sociedade e encontram nos voluntários alguém em quem aliviar os seus sentimentos de frustração e abandono.

Os que nos dão lições de vida e dignidade. Os que vêem as equipas a tentar dar um contributo para mudar a existência dos outros e querem juntar-se.

A intensidade e a variedade do mundo e da existência concentram-se no curto espaço de cinco horas que voam.

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