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Antes tijolos que telemóveis

Era coisa normal verem-se pelas ruas conjuntos de adolescentes com um estrondoso e catastrófico tijolo aos ombros:

Um rádio enorme, que funcionava a electricidade ou a pilhas, podia ser sintonizado em AM ou FM e tinha um ou dois leitores de cassetes aúdio, sendo usado para espalhar o barulho de uma banda de rock, de um concerto ou de uma discoteca por todos os lugares onde passasse.

Cheguei a fazer parte desses grupos, embora não fosse o promotor principal de tal barulheira desproporcionada, até porque não tinha um desses dispositivos imponentes e vistosos.

Eram usados para ir à praia a ouvir temas como o marcante “Is this love”, dos Whitesnake, por exemplo. Quem estivesse a apanhar sol num raio de cem metros lá tinha que deixar entrar nos ouvidos os sons das guitarras apelativas, quisesse ou não.

A moda passou e a música tornou-se um prazer mais individual. Toda a gente tinha o seu walkman, os seus auscultadores ou fones e as suas cassetes pessoais, que se compravam já com música ou se adquiriam virgens, para acolher os temas e os álbuns preferidos de cada um.

Em casa, ouviam-se os rádios, os gravadores ou as aparelhagens.

Os computadores ganharam novas capacidades e funções, e essa foi uma delas. Passaram a descarregar-se ou partilhar-se músicas de todos os estilos e feitios, em vez de comprá-las, sendo escutadas na privacidade caseira.

Os extintos walkman foram substituídos pelos sons que saem de dentro do telemóvel, ou de qualquer outro pequeno aparelho de alta tecnologia que se leva no bolso, ligado aos convenientes fones ou auscultadores.

Hoje em dia as festas caseiras de amigos são animadas por um computador com o Youtube a trabalhar a todo o vapor. Cada um sabe de cor o que quer dar a ouvir, ou pesquisa no telemóvel e depois escolhe no PC do anfitrião.

Mas como todas as modas acabam por regressar, o mesmo acontece agora com o hábito de oferecer bandas sonoras pelas ruas, às vítimas inocentes que por acaso vão a passar.

Ouve-se uma chinfrineira de alegados contornos musicais e não se sabe de onde vem. Observa-se esforçadamente e percebe-se.

Há um pequeno grupinho, ou um indivíduo, que decidiu colocar música no telefone, ou num dispositivo de um a quatro centímetros, ligado sem fios a uma pequena, elegante e omnipotente coluna portátil, e espalhar a alegria por toda a gente.

Percebe-se e compreende-se a boa intenção. No entanto, com mais uns trinta anos e menos paciência do que tinha no tempo dos tijolos originais, fica a sugestão.

Deixem o pessoal escolher as suas próprias músicas, e decidir quais os momentos em que decidem rebentar com os tímpanos, bem como aqueles em que preferem estar em sossego… Ouçam a vossa musiquinha, mas não a imponham aos outros! Usem fones.

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