O diagnóstico certo e o tratamento errado

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Como acontecia às vezes quando vivia na rua, hoje não se mostra muito receptivo à conversa, nos primeiros momentos.

Ignoro a sua disposição menos dialogante.

U. diz-me para ser eu a falar e conto-lhe tudo o que fiz na última semana. Os encontros com amigos, os livros, os filmes.

Acabo por referir o recém-estreado O Jovem Karl Marx, algo que lhe aviva visivelmente o interesse.

Pergunta-me qual a minha opinião acerca de Marx. Enrolo-me e tento explicar que, depois do filme, fiquei com um conhecimento bastante diferente e mais alargado acerca do autor d’ O Capital.

Por esta altura, já conquistei claramente o seu interesse em conversar comigo durante mais de uma hora. Este sábio octogenário cego e filosófico, agora internado involuntariamente numa instituição de saúde, acaba por interromper-me.

Percebe que a minha opinião sobre este assunto é superficial, e avança, entusiástica e convictamente, com a sua… Ouçamo-lo:

Marx, na verdade, não era bem um economista, um pensador ou um intelectual. De facto, era mais ou menos uma espécie de médico.

Um clínico que teria sido enviado para um país remoto e distante, com o objectivo de estudar a doença que mais afligia os médicos na época.

Ninguém conseguia perceber e estudar correctamente essa grave patologia. Ao contrário dele.

Identificou, aprofundou e entendeu claramente, como nenhum outro ser humano, essa terrível doença que a todos afligia.

Estudou-a, dissecou-a, compreendeu-a como nunca se tinha feito. Era o médico mais competente, inspirado e inteligente do seu tempo.

Apurou a patologia, os sintomas, as causas, a forma como se manifestava… Aí, acertou completamente, e foi o único.

Prescreveu um tratamento para esse terrível mal, que detalhou nos seus livros e nos seus textos. O problema é que, se o diagnóstico não podia estar mais correcto, também o remédio não conseguiria ser mais errado, afirma U.

A análise médica acertou na mouche, mas a forma de debelar a doença errou em toda a linha. Como a Humanidade provou nos anos seguintes, e até hoje.

Nunca se conseguiu fazer com que o tratamento resultasse, o que prova que estava errado.

Continuamos a dialogar sobre os livros e os filmes que suscitam o nosso interesse. E sobre Cervantes, Dostoiévsky, Tolstoi.

Refere um livro que analisa a morte dos intelectuais. Segundo diz, os intelectuais estão a desaparecer e já quase não existem nenhuns. Pergunta-me porquê.

Respondo que é uma tendência social. “Não, não é uma tendência social. É uma iniciativa política, uma vontade dos políticos. É uma coisa que interessa ao poder político”.

Um sorriso que ilumina a noite

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Tem um caixote “de luxo” por detrás de um instituto, e nesse metro quadrado de espaço concentrou algumas das funções básicas de uma casa, com uma medida abundante de brio e dignidade.

Olhamos para ele, e é mais uma daquelas pessoas que vivem na rua mas se apresentam tão limpas e bem vestidas como se estivessem connosco a assistir a uma sessão de cinema.

D. decidiu viver no chão da calçada porque tem uma reforma de 300 euros: Entre pagar um quarto, comer ou comprar os medicamentos para as doenças de que sofre, tinha que fazer escolhas.

Ironiza com as pessoas que acham que esses 300 euros, pelos quais trabalhou a vida inteira, são um valor fantástico. Afirma que os políticos se lembram sempre dos que nada têm, porque, quando o fazem, conseguem mais votos.

Descreve alguns pontos da cidade onde, à noite, cinco ou seis instituições de solidariedade se amontoam para apoiar as pessoas carenciadas. Alguém de fora chega e diz que este é um país muito miserável.

Para ele, aquela não é a verdadeira miséria, porque “a verdadeira miséria está escondida”, longe dos holofotes das câmaras televisivas e das campanhas eleitorais.

Uma parte dessa carência e pobreza é visível aos olhos das instituições que percorrem a noite e a metrópole, em busca dos que precisam de um pedaço de pão ou dois dedos de conversa.

J. está triste e revoltado e conta-nos parcialmente a sua história, de rosto vermelho e banhado em lágrimas. Saiu de casa e a sua mãe mudou de morada por causa dele, dizendo-lhe que ele já não era seu filho.

O homem deixou o lar e a mãe porque esta estava com problemas graves de saúde e “passou-se” com ele. Para não lhe responder e não entrar em conflito, virou-lhe costas e saiu. Até hoje.

Foi só isso? Não, não foi bem só isso. A mãe não gostava que ele bebesse, já estava farta. É óbvio o desejo de saber se não há reconciliação possível. Garante que não.

G. vive noutro quadrado de cartão, a poucas centenas de metros. A equipa acompanha-o há muitos meses, e há bastante tempo que o rapaz não sorri.

Um elemento novo deste grupo garante que o jovem tem um cão. Toda a gente abana a cabeça de incredulidade… Os voluntários aproximam-se e reparam nuns acessórios que os deixam desconfiados.

Metem conversa mais uma vez. Surge, meio escondida por um cobertor, caladinha, terna e carinhosa como um gato, uma pequena cadela, linda, meiga e doce.

Começamos a conversar com ela e com o dono. Pela primeira vez em meses, abre-se um largo e luminoso sorriso no rosto deste homem sem abrigo.

Agora já sabemos que o simpático animal existe. Na próxima visita, a Comunidade Vida e Paz, que, em conjunto com a associação Animalife, apoia as pessoas sem abrigo de Lisboa e os seus animais de estimação, já irá trazer-lhe ração e tentar fornecer-lhe outros bens e cuidados de que o animal e o dono precisem.

A meio da noite, ouve-se uma voz que se projecta em direcção à carrinha. “Olhem, eu também vos posso ajudar?”. É um homem de camisa branca e calças claras, meia idade, cabelo escuro e curto, que quer fazer alguma coisa pelos outros.

Em cinco minutos fica a saber como é feito o trabalho de reinserção social e mudança de vida levado a cabo pela Comunidade Vida e Paz, através das suas equipas de rua, dos seus técnicos e das suas comunidades de reinserção.

Fica com o nome e os contactos da instituição, para que possa juntar-se a nós e pôr a sua boa vontade ao serviço de quem dela precisa.

A noite passa num instante e mostra-nos as muitas facetas da vida e da rua.

Os que estão revoltados e angustiados por viverem à margem da sociedade e encontram nos voluntários alguém em quem aliviar os seus sentimentos de frustração e abandono.

Os que nos dão lições de vida e dignidade. Os que vêem as equipas a tentar dar um contributo para mudar a existência dos outros e querem juntar-se.

A intensidade e a variedade do mundo e da existência concentram-se no curto espaço de cinco horas que voam.

Tenho uma gata que obedece a gestos

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É um ser extremamente doce, meigo, carinhoso e assustadiço.

A vida da minha linda e afectuosa Matilde consiste em saltar para o meu colo em fuga do seu eterno rival, o Chiquinho, do irmão que também aprendeu a persegui-la, o Jeremias, e até da minha Amélinha (aliás, a “Gáata!!, o nome que ela escolheu para si), essa pirralha esguia e negra que me venera, e, claro, também a inferniza desde bem pequenina.

É uma existência difícil, a de Matilde.

Esta princesa cinzenta, sempre que está comigo sem vislumbrar por perto o meu reizinho Chiquinho, presta os seus agradecimentos e homenagens.

Com a passagem do tempo comigo, com a sucessão das duas operações e com a minha insistência em afastar dela os outros três felinos – fofos mas terrivelmente inquietos – sempre que a atormentam, entregou-se-me e passou a olhar-me de uma forma diferente.

Sente-se protegida, defendida e confia absolutamente em mim. Em reconhecimento dessa protecção, esfrega-se em mim, mia-me pedindo atenção e miminhos, deita-se, estende-se e dá-me a barriguinha e o peito para eu acariciar.

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Além de lidar com os ciúmes do meu Chiquinho, as loucuras periódicas do Jeremias e da “Gááta!!” e as constantes exigências de festinhas por parte dos quatro, para a Matilde reservo esta atenção específica: Evitar ao máximo que a perturbem.

Na sala, existem uns magníficos sofás que por cá foram ficando, por simpatia da minha ex-mulher, depois do divórcio. Essa divisão é o lugar onde estão instalados o computador e o “escritório”, pelo que se trata de um local de grande ocupação humana, e, claro, felina.

O Jeremias e a “Gááta!!” adoram afiar as unhas no sofá. Chamo-lhes à atenção, ralho com eles e afasto-os destas confortáveis e preciosas peças de mobiliário.

Também a Matildinha tem o mesmo hábito. Mas se a admoestar de forma audível, a pequenina foge da sala e só volta a vir fazer-me companhia horas depois.

Desenvolveu-se, então, nova metodologia. Estalo os dedos uma ou duas vezes, ela ouve-me e olha para mim. Depois basta abanar visivelmente o meu indicador direito para os dois lados, como um pêndulo. Ela percebe e deixa o sofá em paz.

Para mim não é surpresa, para muitos será de certeza. Venham os leigos dizer-me que estes seres carinhosos e doces não são profundamente inteligentes, sensíveis e sábios… Pois claro que são.

Um homem com uma arma na minha cara

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Era uma grande personagem. O Pratas foi talvez o primeiro alcoólico que eu conheci.

Era meu amigo, gostava de mim, preocupava-se comigo e adorava beber imperiais comigo, que, na altura, andava perto dos 16 anos e nem tinha bem a noção do que era um alcoólico.

Conhecemo-nos na Voz do Barreiro, onde ele era colaborador desportivo. Foi o primeiro jornal onde trabalhei, e era coordenado pelo Dr. Baião, “licenciado em ciências sociais”.

Não me lembro de ter queixas pessoais do Dr. Baião, mas uma parte dos seus subordinados não podiam vê-lo à frente. Alguns tinham motivos bem concretos para isso.

Não sei se era ou não o caso do Pratas, mas o que é facto é que não tinha qualquer apreço pelo chão que o chefe pisava. Incompatibilizaram-se, o Pratas foi-se embora e passou a odiá-lo.

Encontrávamo-nos com frequência para beber um copo, e o assunto de conversa dele era sempre aquele.

O Pratas era um tipo muito simpático e afectuoso, baixinho, magro, frágil. Bastante afectado pelos vapores de Baco, mas um bom coração. Havia sempre lugar para mais uma bebida.

Tinha uma voz e pronúncia muito próprias, com um toque meio alentejano.

Quando falava do Dr. Baião, a sua Nemésis, o seu rosto afável e a sua expressão típica contraíam-se todos, junto com os olhos, a ficar pequeninos com a cerveja, e já não largava o tema.

Quando saí da Voz do Barreiro, o Pratas, que achava que eu era um futuro grande jornalista, levou-me logo para o Jornal do Barreiro, já que não admitia que se desperdiçasse o meu alegado talento.

Uma dessas noites foi encontrar-nos n’O Farol, que servia permanentemente imperiais brancas, pretas e mistas, coisa algo inovadora naquela idade.

As horas seguintes acompanharam-nos noutros cafés, com outras bebidas à frente.

Acabámos por ir parar, eu, ele, outra personagem aparentemente mais duvidosa e um quarto homem, que parecia mais atinado, a casa deste último. No famigerado e perigoso Bairro das Palmeiras, onde quem gostava de estar inteiro e não apreciava a comida do hospital era aconselhado a nunca entrar. Também neste caso, nunca tive grandes provas de que o proveito correspondesse à fama.

Na casa do tal homem, ainda havia mais bebida, daquela que facilmente podia servir como desinfectante de sanitas e ele nos ofereceu em canecas, das grandes, em vez de copos pequeninos.

Por essa altura, a madrugada já ia alta e não faltava muito para que o sol nascesse. Às tantas, o homem arrependeu-se do convite, depois de começarem, ele e o outro que parecia ter aspecto menos fiável, a trocar ideias animadamente, sem que chegassem bem a discutir.

O anfitrião considerou necessário dizer que era polícia, talvez para melhor dominar a situação. A seguir, achou que era apropriado ir buscar a arma, um revólver, e exibi-lo na nossa cara.

Não era grande e talvez nem estivesse carregado, e o diálogo continuou em tom suficientemente pacífico até nos irmos embora, já de manhã.

O rapaz a quem a apresentação do objecto se destinava ficou todo ofendido com tal atitude e não se cansou de repeti-lo, antes e depois de sairmos. Mas tudo acabou na paz do senhor.

São do mesmo tamanho mas cabem uns dentro dos outros

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Enquanto passa a música mais chungosa dos anos 1980, chegam os tipos mais chunga dos anos 1980.

Duas loiras, uma gorda, outra magra, um moço de pólo clarinho, calças escuras e cabelo bem curto.

Ocupam todo o espaço disponível e anexam para eles a mesa que estava a ser usada por outros, deixando fundadas dúvidas sobre a segurança dos casacos e das malas lá depositados.

Ele abre os braços e as mãozinhas para mostrar que aquele metro quadrado à sua volta, afinal, agora é só dele.

No grupo que foi invadido há uma rapariga para quem todos os dançarinos olham; com ela, uma amiga simpática e outra engraçada, mas claramente ofuscada por aquela que todos fixam.

Os três ou quatro que ali já estavam instalados acendem vários olhares de incómodo e enjoo perante os invasores, alternando faíscas entre estes, os casacos e as malas, agora tidos como inseguros, e não fazem por disfarçar o enfado e a preocupação.

Finalmente, o trio nada bem vindo acaba por perceber o que era impossível não ver e retira-se.

Os momentos seguintes são passados a verificar malas, carteiras e casacos, assegurando que tudo está no lugar. Dinheiro, cartões, chaves, telemóveis e por aí fora.

A discoteca, numa zona central da cidade, fica nos escombros das catacumbas do que em tempos foi um centro comercial prestigiado, ao lado de um hotel ainda mais requintado.

Tem fantásticas noites de temática musical muito específica, e esta não é uma delas.

Salvam-se os temas de David Bowie, Prince e Depeche Mode, que prometiam muito para as horas seguintes. O resto das músicas e artistas são tão maus que nem conseguem pronunciar-se.

Algumas imperiais depois, ficam no ar interrogações próprias do momento e do contexto. Houve alguém que alcançou uma invenção genial.

As dezenas de copos que, nas horas anteriores, contiveram vodka ou cerveja, têm, na aparência, exactamente o mesmo tamanho. Mas mesmo tendo todos exactamente o mesmo tamanho, encaixam-se na mais harmoniosa perfeição uns nos outros, em torres infindáveis.

Um dia mágico antes de uma tarde mística

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A caminho da instituição de saúde onde vou visitar o meu ancião e sábio amigo, à saída dos transportes, encontro uma cara conhecida, um protagonista de um momento insólito.

Está com o cabelo muito mais curto e com uma roupa diferente, mas não há dúvidas de que é o mesmo rapazinho que, há uns meses, me visitou, para me propor uns descontos nas contas mensais, e na altura ficou surpreendido por ver tantos gatos cá em casa.

Insisto e esclareço que não, que não vou contribuir para mais uma associação, mas agradeço e elogio o trabalho dele.

Pergunto-lhe se antes não estava numa empresa de telecomunicações. Diz que não. Não fico convencido mas vou à minha vida.

Ao regresso, duas horas depois, corrijo a pergunta: “EDP!!”. “Ah, sim, trabalhei na EDP.”. “Então, você foi à minha casa, viu os meus gatos, a Matilde estava com uma camisola cor-de-rosa, a recuperar da operação”.

Ah, pois, já me lembro!!”. Pois, eu sabia. Mas as surpresas ainda não terminaram.

Um metro à frente, encontro uma loja indiana. Onde trabalha… O homem que costumava estar, até há uns meses, num estabelecimento igual em frente à minha casa. Vou falar com ele.

Conversamos uns minutos. É dono desta e de outras duas lojas, e também de um tuk-tuk.

Pergunta-me se quero levar alguma coisa. Digo que não, não preciso de nada.

Insiste. Só depois a minha barriga, em vácuo desde o almoço há mais de quatro horas, percebe.

O homem encarou a minha entrada  na loja como se fosse uma visita a sua casa. Oferece-me amável e afavelmente uma banana, que o meu estômago vazio colado às costas muito agradece.

É um acto de hospitalidade, a retribuição pela visita.

O diálogo com o meu amigo internado já tinha sido bastante enriquecedor e interessante. Os bastidores dessa mesma visita não foram menos surpreendentes.

Viveu o luxo e a prosperidade. Perdeu tudo o que tinha. Está em Paz

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Revela, a propósito da polémica sobre o sarampo, que já está vacinado contra a tuberculose. Mas da pior maneira.

U. contraiu-a quando era menino, no país onde vivia com a família. Isso foi há umas oito décadas. Pensou que ia morrer, queria até pôr termo à vida, mas não teve coragem.

Relata que a doença desapareceu por milagre, sem que os médicos, que apenas lhe detectaram uma mancha pulmonar e o declararam curado da patologia, conseguissem explicar porquê.

Mudou de continente com os pais, para uma nação onde já tinha familiares. Viviam-se tempos de ditadura.

Estudou, trabalhou. Com persistência e tenacidade, conseguiu emprego numa próspera multinacional.

O seu chefe levou-o a almoçar a um lugar de luxúria e segredo, que ninguém conhecia. Era o ponto de encontro dos mais poderosos da sociedade.

Chegou a ser dono de uma empresa e a ter uma vida de prazeres e luxos. A amante fez correr, falsamente, que ele era contra o regime. Nunca mais conseguiu trabalho e perdeu tudo o que tinha.

Decidiu ir estudar gratuitamente numa faculdade estatal, já que não havia mais nada a fazer. Trabalhou para a instituição de ensino, dando consultas, que os pacientes procuravam, também por serem grátis.

Mesmo ali, foi perseguido pelas falsas acusações de envolvimento político. Foi a uma espécie de julgamento universitário, mas a sua sensatez e inteligência, aliadas à sabedoria e ao relato detalhado e circunstanciado de todas as perseguições políticas que sofrera, fizeram com que fosse ilibado.

Os anos seguintes ao curso passou-os a viver sem nada, nas ruas, por vários continentes.

Aterrou em Portugal. Sem tecto, aceitava de vez em quando alimentos frugais e alguns momentos de conversa com voluntários de várias instituições.

Diz que essas são pessoas muito boas e generosas, que se preocupam com os outros.

Sofre de várias doenças agravadas pela idade e acabou internado, contra a sua vontade e a sua liberdade, numa instituição que, embora não pareça de todo adequada para uma alma tão livre e sábia, lhe proporciona cuidados, acompanhamento e apoio a nível de saúde.

As horas do Sábado que antecede as presidenciais francesas, um dos inúmeros temas que segue com enorme interesse e analisa com profunda lucidez, passam em minutos.

Relata uma derradeira história. No segundo local onde viveu, quando ainda tinha casa e trabalho, encontrou uma cadelinha que estava a ser devorada viva pelos parasitas.

Pensou ir a casa buscar uma potente Smith & Wesson, acabar com o sofrimento do animal. Mas ninguém ia perceber.

Achariam que era um assassino, e não alguém que queria fazer o bicho parar de sofrer.

Foi a uma loja especializada, comprar um produto anti-parasitas. Os vermes que estavam a matar a amiga, a quem já dera nome, morreram no momento.

A pequena bebeu, e bebeu, e bebeu. Estava desidratada. Ainda teve um cachorrinho, a quem U. deu um nome tão inspirado como o que atribuíra à mãe.

Quando saiu do país de algibeiras vazias, tendo vendido por nada tudo o que tinha, os dois felizes caninos ficaram para o novo dono da casa.

Antes tijolos que telemóveis

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Era coisa normal verem-se pelas ruas conjuntos de adolescentes com um estrondoso e catastrófico tijolo aos ombros:

Um rádio enorme, que funcionava a electricidade ou a pilhas, podia ser sintonizado em AM ou FM e tinha um ou dois leitores de cassetes aúdio, sendo usado para espalhar o barulho de uma banda de rock, de um concerto ou de uma discoteca por todos os lugares onde passasse.

Cheguei a fazer parte desses grupos, embora não fosse o promotor principal de tal barulheira desproporcionada, até porque não tinha um desses dispositivos imponentes e vistosos.

Eram usados para ir à praia a ouvir temas como o marcante “Is this love”, dos Whitesnake, por exemplo. Quem estivesse a apanhar sol num raio de cem metros lá tinha que deixar entrar nos ouvidos os sons das guitarras apelativas, quisesse ou não.

A moda passou e a música tornou-se um prazer mais individual. Toda a gente tinha o seu walkman, os seus auscultadores ou fones e as suas cassetes pessoais, que se compravam já com música ou se adquiriam virgens, para acolher os temas e os álbuns preferidos de cada um.

Em casa, ouviam-se os rádios, os gravadores ou as aparelhagens.

Os computadores ganharam novas capacidades e funções, e essa foi uma delas. Passaram a descarregar-se ou partilhar-se músicas de todos os estilos e feitios, em vez de comprá-las, sendo escutadas na privacidade caseira.

Os extintos walkman foram substituídos pelos sons que saem de dentro do telemóvel, ou de qualquer outro pequeno aparelho de alta tecnologia que se leva no bolso, ligado aos convenientes fones ou auscultadores.

Hoje em dia as festas caseiras de amigos são animadas por um computador com o Youtube a trabalhar a todo o vapor. Cada um sabe de cor o que quer dar a ouvir, ou pesquisa no telemóvel e depois escolhe no PC do anfitrião.

Mas como todas as modas acabam por regressar, o mesmo acontece agora com o hábito de oferecer bandas sonoras pelas ruas, às vítimas inocentes que por acaso vão a passar.

Ouve-se uma chinfrineira de alegados contornos musicais e não se sabe de onde vem. Observa-se esforçadamente e percebe-se.

Há um pequeno grupinho, ou um indivíduo, que decidiu colocar música no telefone, ou num dispositivo de um a quatro centímetros, ligado sem fios a uma pequena, elegante e omnipotente coluna portátil, e espalhar a alegria por toda a gente.

Percebe-se e compreende-se a boa intenção. No entanto, com mais uns trinta anos e menos paciência do que tinha no tempo dos tijolos originais, fica a sugestão.

Deixem o pessoal escolher as suas próprias músicas, e decidir quais os momentos em que decidem rebentar com os tímpanos, bem como aqueles em que preferem estar em sossego… Ouçam a vossa musiquinha, mas não a imponham aos outros! Usem fones.

A notícia que não aconteceu

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A notícia saiu do bloco de notas do jornalista e foi alojar-se na máquina de escrever, onde ficou durante algum tempo a ganhar corpo e a aperfeiçoar-se.

Dali seguiu para a gráfica, onde foi juntar-se às fotos, aos títulos e às outras notícias.

Foi impressa horas depois e distribuída, em milhares de cópias, por homens e mulheres que já tinham começado a ouvir o acontecimento na rádio mas queriam saber o que se tinha passado, com todos os pormenores.

A notícia andou nesta vida durante muitas décadas, em que toda a gente pegava no papel para perceber a realidade que se vivia na sua vila, na cidade, no país e no mundo.

Chegaram os computadores e a Internet e tornaram tudo muito mais fácil, rápido e eficaz.

As pessoas compravam jornais mais bonitos e coloridos, que continuavam a ajudá-las a ver mais longe e a pensar melhor sobre o que diziam os políticos, os economistas, os homens e as mulheres da rua, os que faziam vida nos palcos, os que davam cartas nos estádios.

Foram vindo as redes sociais… Com o tempo, passou a aterrar informação de todos os lados, fornecida por toda a gente, muitas vezes sem grande crédito ou fundamentação.

As pessoas começaram a deixar de ter paciência para gastar dinheiro e andar com desconfortáveis pedaços de papel que já não lhes pareciam interessantes ou importantes.

Preferiam ficar a saber das últimas na televisão, no computador, no telemóvel.

Toda a gente tinha uma ideia, uma informação falsa ou verdadeira, uma frase ou um argumento para partilhar. Podia fazer isso em alguns segundos, e ver também o que todos os outros andavam a dizer, fosse verdadeiro ou não.

Cada um podia ser o seu próprio órgão de informação, criar a sua audiência individual e juntar-lhe mais algumas dezenas ou centenas de pessoas.

A verdade credível, fundamentada e rigorosa, construída pela investigação e pelo cruzamento de várias versões contraditórias, deixou de ter importância.

A notícia, aquela coisa que nos dava alegria ou tristeza pela manhã e nos oferecia olhos que viam mais, foi ficando velhinha, desprezada, maltratada.

A notícia que nos fazia vibrar, que nos preocupava ou irritava, pela noite ou pela madrugada, foi-se diluindo e desaparecendo no oceano imenso da informação sem garantias, da desinformação, da propaganda e das opiniões gratuitas e sem alicerces.

Ficámos mais ricos ou mais pobres? Vou procurar e ler um bom artigo de jornal em papel para ver se percebo.

“Quem está a matar aquela pessoa não sou eu. É Deus”

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Mudaram-no de lugar. Desta vez, além do pijama, está também convenientemente vestido com um roupão confortável, calçado, e, além de lhe cortarem o cabelo bem curto, também lhe tiraram todos os vestígios de barba.

Ao lado, há uma senhora igualmente idosa, olhos azuis e brilhantes, momentaneamente ausentes. Chinelos, um pé calçado com uma meia castanha, o outro descalço.

O meu amigo E., de 84 anos, internado compulsivamente e fechado à chave neste lugar, está hoje mais falador. Diz que o levam de um sítio para outro, como uma bola de pingue pongue.

Continua a ser visitado por pessoas que o conheceram quando vivia na rua (até há um mês) e querem saber como está. Falamos sobre a tensão entre os Estados Unidos e a Coreia do Norte, bem como os ataques na Síria e no Afeganistão.

Afirma que americanos e coreanos devem pensar duas vezes antes de fazer alguma coisa. “O armamento atómico deve ficar como está, bem quieto e sossegadinho”. Gesticula expressivamente, com a palma da mão a empurrar para baixo

Diz que Donald Trump pode ser criticado e refreado pelos membros do Governo que escolheu, e que foi buscar ao Partido Republicano. Mas na Coreia do Norte, se o líder disser que amanhã toda a gente tem que sair à rua de calças vermelhas, toda a gente sai à rua de calças vermelhas no dia seguinte e ninguém se atreve a contrariá-lo.

Chega a hora do lanche. É, por assim dizer, Sábado de Páscoa, e a refeição leve é constituída por iogurte sólido misturado com bolachas doces. O meu amigo e a sua companheira do lado mostram gostar bastante da escolha, que deita um cheiro adocicado.

E. sofre de cataratas e não vê. Depois de lhe ser fornecida a tijela e a colher, observo com enorme atenção à medida que vai comendo tudo devagarinho até ao fim, sozinho, sem desperdiçar nem entornar uma gota.

A terceira senhora a contar da esquerda assiste à nossa conversa de grande proximidade física, porque ele ouve mal e eu falo muito baixo, e comenta. “Assim é que é conviver! Assim é que é bom conviver”. Sorrio para as duas mulheres e aceno positivamente.

O meu interlocutor viveu em vários países do mundo, está aqui encerrado contra a sua vontade e, por razões indeterminadas, não consegue ter acesso à sua reforma. Já não vai poder realizar o seu sonho.

Embora não seja português, gostava de poder acabar a sua vida em Portugal, no campo, num sítio onde pudesse estar próximo do animais.

Vai recordando algumas histórias de um dos países onde viveu, o Brasil. Uma vez estava sentado num café com um médico, a conversar. Entrou um homem, cumprimentou toda a gente, bebeu o seu café e foi-se embora.

O médico disse-lhe que aquele era um dos maiores assassinos do Brasil. Já tinha morto mais de 30 pessoas. Uma vez, em tribunal, o juiz disse-lhe isso mesmo.

Você é considerado um dos maiores assassinos. É relacionado com dezenas de homicídios”.

Ao que este respondeu: “Vossa senhoria, eu, se for ameaçado por alguém, vou ter que me defender. E se me defender, vou fazê-lo com uma arma. E se me defender com uma arma, vou apertar o gatilho. E se eu apertar o gatilho, alguém vai morrer.

Mas olhe, Vossa Senhoria: Quem está a apertar o gatilho sou eu. Mas quem está a matar aquela pessoa não sou eu. É Deus”.