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“As recaídas começam quando aparece o vazio”

Saía com os amigos e divertia-se. Ao princípio, juntavam-se e faziam aquilo às vezes. Mais tarde, passou a ser obrigatório, mesmo quando não estava com os companheiros.

Durante algum tempo, continuou a ter uma vida funcional. Até que tudo começou a descarrilar. Os rendimentos e as decisões diárias começaram a girar unicamente em torno da droga.

Fez vários tratamentos de desintoxicação e voltou sempre a cair nela. Não comia, não bebia, nada disso interessava. Habituou-se a ir aos bairros difíceis para comprar, entrar e sair sem dar nas vistas, lidar com os traficantes que vivem do vício.

Gastou fortunas, mentia a toda a gente e tentou várias vezes ingerir uma overdose fatal. Por alguma razão, sobreviveu a tudo isso, o que o deixava sempre espantado.

Da última vez, convidou os traficantes lá para casa e disse-lhes para levarem tudo, em troca da máxima quantidade que lhe conseguissem arranjar. Mais uma vez, decidira que ia gastar tudo até ao fim, consumir até morrer.

Estava com um problema grave na perna, que estava a apodrecer, mas isso também não importava. A sua sorte foi que os vizinhos sentiram a falta das suas visitas ao café. Foram lá a casa, arrombaram a porta e chamaram uma ambulância. Acordou no hospital, onde lhe foi amputada a perna.

A. acha que não tinha conseguido fazer uma recuperação com sucesso até agora porque não era a altura: As palavras que ouvia, os caminhos que lhe mostravam, nada era suficiente para salvá-lo.

Hoje vê tudo de uma forma diferente. Sabe que as recaídas não começam quando tem vontade de usar. Começam quando sente que há um vazio na sua vida que não consegue preencher de forma nenhuma.

A. está a fazer um novo caminho para viver sem substâncias destrutivas, na Quinta da Tomada, uma das comunidades terapêuticas e de reinserção da Comunidade Vida e Paz (CVP).

Nas três quintas da CVP, os seres humanos em sofrimento que ali são levados para começar a reconstruir a sua vida recebem tratamento, apoio, dignidade e uma nova perspectiva.

Têm responsabilidades, horários, regras, trabalho, actividades que lhes ocupam o corpo e o espírito. E lhes revelam que, longe das drogas e do álcool, há inúmeras outras coisas que proporcionam prazer, felicidade e um sentido para a existência.

No longo e difícil caminho de regresso à sociedade de onde saíram, são sempre apoiados e acompanhados em permanência. Na resolução dos seus problemas pessoais, na construção da sua autonomia, na procura de trabalho, de habitação.

Para os voluntários que, todos os dias, saem à rua para falar com quem lá vive e propor-lhes uma mudança de vida, este é o outro lado, e o verdadeiro objectivo, do trabalho que fazem todos os que estão envolvidos com esta associação.

Esta semana, a equipa de voluntários das voltas de quinta-feira à noite esteve na Quinta da Tomada, na Quinta do Espírito Santo e no Espaço Aberto ao Diálogo da CVP, cujos técnicos e assistentes sociais recebem as Pessoas Sem Abrigo que lá se dirigem, ajudando-as a resolver os seus problemas quotidianos e a iniciar o seu processo de reinserção.

Para quem se dedica ao apoio e ao contacto directo com as pessoas da rua, ver como é que essa missão é continuada e aprofundada mais tarde pelas áreas da CVP que trabalham directamente na reinserção destas pessoas é uma verdadeira revelação.

 

FOTO: ANTÓNIO SANTOS

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