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Tudo na vida tem um fim

A minha mãe nunca gostou muito dele. Era velho, grande, pesado, volumoso, difícil de conduzir, estacionar e alimentar: Bebia muito.

Para o meu pai, era indiferente. A vida dele foi comandar veículos de todos os tipos e tamanhos, pesados, muito pesados, ligeiros, intermédios.

Para mim, para a minha irmã, para a melhor amiga dela e para o meu grande companheiro, era uma animação. Dentro do Morris Marina branco de matrícula CF-84-12, conversávamos, brincávamos, ríamos até não nos conseguirmos mexer, a tal ponto que, uma vez por ano, a minha mãe tinha que nos mandar calar porque já ninguém aguentava mais.

O Pedro definia aquela clássica viatura, quase mais sénior que eu, como um avião que rugia, subia rotundas e espalhava metros cúbicos de água para os dois lados da estrada quando atravessava as poças. O meu pai de vez em quando fazia razias aos passeios com ele.

Quando tirei a carta, o meu pai muniu-se de uma paciência que, à primeira vista, não se lhe atribuiria. Ia comigo para uma ladeira bem inclinada, perto do sítio onde esta grande máquina, pela primeira vez na sua vida, tinha tido um pequeno acidente, que lhe deixara a fachada em mau estado.

Levava-me a fazer o ponto de embraiagem vezes e vezes sem fim. Eu deixava-o sempre ir abaixo, e ele insistia, calmamente, placidamente, tranquilamente.

Se o Pedro, depois de eu tirar a carta, me ensinou a estacionar de marcha atrás, e o João a ultrapassar depressa em estradas nacionais, o meu pai, mesmo comigo já encartado, mostrou-me verdadeiramente como se conduzia.

Quando fiz cerca de 26 anos, altura em que fiquei legalmente habilitado para a condução, o Marina foi-me oferecido como prenda de anos. Dominar aquele achado histórico era uma verdadeira experiência.

Quando ia sair à noite com o Pedro, o Emanuel e a Paula, explicava-lhes que, às vezes, para ele pegar, tinha que abrir o gás. “Hã?! O gás?!”. Havia alguém a bordo que esclarecia: Não era o gás, era o ar.

Mas tudo na vida tem um fim, e o seu dia chegou. Poucas semanas depois de receber este muito útil e carismático presente de aniversário, ia eu na auto-estrada, a 160km/hora. De repente, rebenta um pneu.

Com a inexperiência da altura, não consegui de maneira alguma controlá-lo. Andou ali aos ziguezagues até bater num separador, que, meses mais tarde, tive que pagar à Brisa (trinta contos, ou 150 euros). Ficou feito num oito, e o seu único destino possível foi o ferro-velho, onde foi vendido a peso. Era ferro puro, ainda rendeu uns doze contos (ou 60 euros). Para mim, nem um único arranhão.

Os meus pais só viram a sucata em que ficou bem depois de me observarem a mim, durante bastante tempo, e de lhes contar a história calma e tranquilamente, ao vivo e a cores.

O CF-84-12 teve uma vida longa, gloriosa e absolutamente irrepreensível… Até chegar às minhas mãos!

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