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Eu não mando na morte da minha mãe

A mulher fala na rádio, tranquila e pausadamente, sobre o pai, que não teve outra opção que não fosse o suicídio, porque as dores, numa escala de zero a dez, tinham atingido os 12, e a eutanásia não era nem é permitida.

Os jornalistas da rádio divulgam esta história, outra relacionada, e, horas mais tarde, o manifesto de uma activista anti-eutanásia, que critica serem os políticos eleitos, nas instalações do Parlamento, a decidirem, segundo ela, sobre a vida de todos os portugueses.

Indica que não existe o direito à morte, que é um facto que ocorre naturalmente, mas sim o direito à vida, que deve prevalecer.

Os partidos decidiram discutir este ano o direito à eutanásia ou morte assistida, e esta será sempre uma questão altamente delicada para debater na sociedade.

Tentando ao máximo não ferir nem ofender ninguém, junto-me à discussão. Os partidos não se propõem, de forma alguma, a discutir a vida de todos os portugueses. Tencionam levar-nos a reflectir sobre o que fazer nos casos em que alguém, atingido por uma doença mortal e terminal, já sente apenas dor extrema e insuportável, sofrimento e angústia.

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Algumas das pessoas nessas situações consideram que não estão a deixá-las terminar a sua existência com dignidade. Acreditam que devem ter o direito de escolher quando, e como, abandonarão permanentemente esse estado de dor e sofrimento.

Outros, pelo contrário, defendem que deve ser toda a sociedade, mantendo iguais as normas, direitos e leis vigentes, a decidir que essas pessoas individualizadas não podem decidir morrer. Que não têm esse direito.

Estas questões que envolvem a vida e a morte são difíceis. Especialmente quando lhes adicionamos convicções ideológicas e religiosas, o que eu, agnóstico e ideologicamente moderado, penso que não devíamos fazer.

Influenciado pela minha falta de ideologia e religião, e pela mulher que mais contribuiu nestes 45 anos para construir a pessoa que sou, declaro-me a favor do direito à eutanásia. Com cuidados e precauções sociais e legais, evidentemente.

Terá que haver normas e mecanismos de protecção, tal como foi feito quando se despenalizou o aborto.

Sei desde sempre que a minha mãe, se alguma vez se encontrar numa cama de hospital, dependente para sempre de todos para tudo, mergulhada num mundo onde apenas se perspectiva, para sempre, dor e sofrimento, saberá perfeitamente o que fazer.

E pergunto a mim mesmo. Porque não deixá-la fazê-lo? E a outras pessoas que se encontrem exactamente na mesma situação e expressem clara e inequivocamente o mesmo desejo?

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