As três torradeiras

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Além de me encherem de comida (vegan), de bebida (vinho, e um whisky exclusivamente destinado a mim, no fim), salada, fruta, frutos secos, boas conversas sobre o que aconteceu no Mundo, na Cidade e na Província nos últimos setenta anos, os meus pais, ao Domingo, vão, depois, dar uma volta comigo, que inclui sempre um pouco de rio ou Mar.

Se o meu pai está um pouco mais à pressa nesse dia e vai ver o Benfica, ou os Júniores, ou a Selecção, o resto da tarde é para conversas de mãe e filho. Onde se pode falar de tudo, mesmo tudo, sem quaisquer restrições.

Os diálogos acontecem num passeio marítimo ou fluvial acrescentado, numa sala de cinema… Ou em casa, em frente à super-televisão dos meus pais, que, agora, já têm finalmente a boxe e os seus 300 mil canais, dos quais qualquer pessoa nunca vê mais de quatro ou cinco.

A minha mãe deixa-me escolher o canal, o programa (isto é, o filme) e o volume do som. Até me aconselha, dizendo-me quais são as películas mais interessantes que andam a marinar pelos cabos televisivos. Quando vou para casa, acabo por procurar na minha boxe a história que ela me ajudou a escolher, metê-la para trás e vê-la do princípio ao fim.

Ao terminarmos as nossas sessões de conversação dominicais que me curam discreta e imperceptivelmente (não para ela, que detecta sempre tudo), passamos de novo à cozinha.

Para um vegan e uma mãe que o é espiritualmente, esperam-nos várias variedades de pão deliciosas e substanciais, manteiga estritamente vegetal, diversos doces e um bom chá de diferentes sabores à escolha, com ou sem adição de limão. É coisa para durar pelo menos meia hora.

Pão torrado e família Ventura são duas expressões que coexistem constantemente nas mesmas frases. Há sempre uma torradeira pronta a torrar por onde andamos. Como são muito usadas, e ninguém tem orçamento para uma torradeira que dure para sempre, volta e meia avariam.

Num destes dias, a torradeira não segurava o pão. Lá teve a minha mãe que ficar a carregar para baixo, para que o dispositivo conseguisse fazer o seu trabalho aceitavelmente.

Foram à loja e deram-lhes outra. Não funcionava. Voltaram lá e entregaram-lhes outra vez uma nova. Também não trabalhava.

O meu pai encheu-se de moscas. Pediu o valor da torradeira, juntou mais alguns euros e comprou uma, brilhante e imponente, que não tem ar de quem vá recusar-se a trabalhar conveniente e correctamente nos próximos séculos.

Este Domingo à tarde não faltaram torradas bem nutridas e abundantemente barradas para o nosso lanchinho. E ninguém teve que ficar a empurrar o pão para baixo.

Galinhas mais ou menos biológicas

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Tinha várias galinhas, e conhecia todas pelo nome, pela cor, pelo aspecto… De vez em quando havia uma que desaparecia por umas semanas, por exemplo escondida no meio da lenha, e durante esse período ninguém sabia dela.

Depois, o animalzinho aparecia de um dia para o outro, seguido por um grupo de pintainhos a caminhar disciplinadamente atrás da progenitora. A minha avó comentava: “Olha, lá está a galinha não sei quantas! Finalmente apareceste!”.

Naquela casa, em meados do século passado, o que os animais produziam naturalmente era usado para consumo da família, e os bichos não eram colocados numa linha de produção industrial, obrigados a alimentar os humanos, como acontece hoje.

Nos dias que correm, fala-se frequentemente em alimentação biológica, mas isso motiva algumas dúvidas. Se esses alimentos são criados de uma forma intencional para fornecer um mercado de consumidores que os compram, será que os animais vivem de acordo com as leis da natureza, e não são obrigados a entregar o seu leite e os seus ovos à força, fora dos seus padrões normais quotidianos?

São dúvidas que assaltam, levando à conclusão de que o mais parecido com a agricultura biológica era a de antigamente, em que as famílias retiravam o necessário para a sua subsistência, e, de resto, deixavam os bichos viver sem tantas perturbações.

Essa fauna rural, meia dúzia de anos depois, foi responsável pelo facto de o meu tio ainda hoje continuar por cá. O jovem não se conseguia entender com a ração da tropa, razão pela qual não comia nada, apesar de estar na recruta e em esforço constante.

O alimento que o manteve ao longo desses meses acabou por ser o leite – de uma vacaria que havia nas instalações militares…

Também é verdade que as gentes dessa época, especialmente no campo, tinham uma alimentação muito mais próxima do regime vegan – que adoptei para a vida – do que as pessoas de hoje. Comiam pão, papas, feijão, batatas, legumes, sopa, várias leguminosas, arroz, fruta.

A carne, viam-na pouco mais de uma vez por ano, e o peixe ainda menos. Mesmo assim, conseguiam trabalhar no campo, dar à luz uma porção de filhos e viver durante um período respeitável. A sua dieta era bem mais saudável do que a da maioria dos citadinos de hoje…

Eu não quero saber do Verão

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A cama de Inverno encontra-se atafulhada com um edredão grande e grosso, um pequeno cobertor, duas cobertas finas e uma modesta mas poderosa manta polar, porque o seu utilizador não tem paciência para desenrolar e manusear o apropriado e gigantesco agasalho nocturno que tem no armário do corredor.

Ao início da noite, o Jeremias, um ser ronronante que adora o contacto directo com a pele humana e o calor, chega-se para debaixo disto tudo, enrola-se em mim, mete as patinhas por cima das minhas e ali fica, feliz e satisfeito.

Depois de esperar que todos os felinos adormeçam e se distraiam, a Matildinha vem enfiar-se do outro lado, agarrando-se frenética e amorosamente a mim, aquele em quem projecta 24 horas por dia protecção e confiança absoluta, sentimentos que se tornaram mais evidentes depois de duas operações para retirar nódulos, épocas da vida dela em que procurou de forma óbvia e crescente conforto e abrigo no meu colo.

A Amélinha, a minha “Gááta!!”, bebé de quatro anos que vive em conexão directa com os meus braços, as minhas pernas e os meus ombros, gosta especialmente de se refastelar na manta polar, quente e fofa, que está por cima de nós.

O Chiquinho é aquele ser sábio que me ensinou a ser responsável por alguém, que me explicou que o lugar dele era na minha vida, a confortar-me e acarinhar-me, a mim e aos meus mais próximos, e não na rua, com um destino incerto e perigoso, certamente não muito longo.

Sempre se considerará um ser de estatuto superior nesta casa de maioria felina. Os outros gatos são, para ele, súbditos, gente de estirpe social muito mais baixa. Excepto a “Gááta!!”, que adoptou, assim que ela chegou cá com dois meses, como filha, discípula e protegida, a quem deixa fazer todas as maldades e mais alguma e ainda fica extremamente feliz.

Nos últimos anos, o Chiquinho só veio uma vez para debaixo dos cobertores comigo… Mas sem que nenhum dos outros três lá estivesse.

Cerca de sete horas depois de todas estas acomodações nocturnas, é altura de refazer a cama, o que se torna um enorme desafio enquanto os felinos não saem todos do quarto.

Passa-se à lavagem dos dentes e ao corte da barba. Depois de cada uma destas operações, o Chiquinho mia obsessivamente para mim. Quer os miminhos que lhe são devidos cada vez que vou à casa de banho e uso a bacia, mesmo que seja 500 vezes por dia.

Algum tempo depois é hora do banho. Um grande momento de diversão felina. O Jeremias, mesmo quando não quer, é forçado a acompanhar-me nesta altura, para não ficar na cozinha, encostado à caldeira de aquecimento, e voltar a chamuscar os pêlos.

Trago ainda o Chiquinho: Não me perdoaria se tomasse banho sem ele estar presente, a observar através da cortina.

A Matilde fica no seu castelo e domínio, a cozinha, e convenço a “Gááta!!” a fazer-lhe companhia, para não estar sozinha. No final do duche o Jeremias quer ir beber a água do banho. Mas basta abanar a cortina para ele fugir.

Os dois miam intensamente para mim reivindicando festinhas, o Chiquinho a lamber-me as mãos e os braços ainda quentes.

A manhã e a tarde são passadas na sala, às voltas com o computador. A Matilde, depois de conseguir fugir dos outros e desviar-se dos seus ataques, fica por cima do sofá, enroladinha, a dormir.

O Jeremias, o gato que tem sempre frio, permanece no seu lugar, em cima da boxe da televisão. A “Gááta!!” instala-se em cima das minhas pernas, num novelo carinhoso e anestesiado, enquanto vou teclando.

O Chiquinho ocupa o seu posto favorito, a cadeira, debaixo da mesa. Escondido, ouve e observa o Mundo. De vez em quando vem dar umas patadinhas e uns miados dirigidos a mim ou à “Gááta!!”, para nos quebrar a monotonia.

Os dois também se deleitam à janela, estudando a vida que decorre debaixo dos seus olhos. Às vezes dou um toque na “Gááta!!” nessas alturas, ou chamo-a, por esse que é o seu verdadeiro nome. Reage instantaneamente, agradada, espantada, carinhosa, profundamente amorosa. “Miaaaaaau! Dono! Estavas aí! Olá! Adoro-te!”.

Seres vivos como nós

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Dois homens, uma mulher e um bebé chegam à praça central com um ar divertido e descontraído. Um deles parece ter uma posição dominante sobre os outros e convence o amigo a fotografá-lo enquanto dá milho aos pombos.

Depois, os grãos de cereal acabam-se e começa a dar aperitivos salgados às aves. Mais uma vez, vai sendo fotografado enquanto o faz. Para não mostrar uma atitude demasiado hostil perante estes turistas de fora da Europa, espero uns momentos e vou falar com eles, em inglês.

Sabia que nesta cidade existem regras contra a alimentação de pombos na via pública?”. Pergunta-me “para que é que é proibido”. Explico-lhe, simplificando, que está escrito numa lei (referindo os regulamentos municipais), que não é permitido e que pode dar origem a uma multa.

E aproveito para dizer, recorrendo ao senso comum, que oferecer acepipes salgados aos animais também não é uma boa ideia, porque pode ser prejudicial à sua saúde. “Ah, pois é, por causa do sal, não é?”. “Sim”.

De uma forma ou de outra, parece que a grande preocupação do homem era ser fotografado a dar comida aos bichos, para depois mostrar a imagem aos amigos.

Alimentar ou não os pombos na rua, além de ser assunto de regulamentos municipais, é também tema de alguma polémica. Quando se pensa em controlar a alimentação das aves por parte de quem passa na rua, a ideia será tentar evitar que se reproduzam excessivamente, o que tornará a sua vida mais difícil e levará a uma convivência complicada com a população humana.

Mas há também as pessoas que acham que, pelo contrário, estes seres alados sofrem com a fome e devem ser nutridos por elas… A mesma discussão se levanta quando se trata de cães, e especialmente de gatos.

No caso destes últimos, quando têm nutrição assegurada, os felinos que nasceram na rua ou foram abandonados por alguém reproduzem-se sem restrições. O resultado é que haverá mais animais sem dono nem protecção a viver na rua.

Se toda a gente (pessoas e instituições) se preocupasse em esterilizar as gatas e cadelas, promover a adopção dos animais de rua e lutar contra o seu abandono – e contra a compra e venda de mascotes, que leva a que as centenas de milhares de abandonados nunca sejam adoptados – com o tempo o problema acabaria por resolver-se.

Quanto aos pombos, as autarquias (algumas tentam fazê-lo) devem pensar na melhor maneira de não se reproduzirem tanto que não consigam sobreviver, e ao mesmo tempo terem uma existência digna e agradável. São seres vivos, tal como nós e todos os outros.

Engoliu uma caneleira

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Todos os dias, o gato engolia uma fita de plástico, das que os sacos de lixo trazem para ser atados. Uma obsessão de que muitos felinos sofrem, e até teria piada, não fossem os riscos graves que isso pode trazer.

Mas como era rápido e sorrateiro, a dona não conseguia impedi-lo. A Doutora perguntava-lhe sempre se o animal estava bem, se tinha fezes estranhas, se vomitava. Tudo normal.

Um dia, pela primeira vez em toda a sua vida, vomitou. Notou-se, também, que estava mais magro. Durante um período longo e preocupante, este bicho empreendedor e determinado ingerira as sinistras e discretas fitas, sem as regurgitar e sem produzir dejectos invulgares…

Quando foi examinado, solucionou-se o mistério. Tinha uma grande bola de plástico dentro do estômago, e era por isso que estava a ficar delgado: Já não conseguia alimentar-se convenientemente.

Felizmente a história acabou bem, com os dotes cirúrgicos da Doutora a tratarem de extrair com eficácia a bola de plástico do interior daquele ser indefeso e endiabrado.

O caso clínico surgiu a propósito de uma história impressionante. Nesse dia, tinha acabado de dar entrada nas instalações clínicas um Retriever, um amigo canino pachorrento, carinhoso e com doses apreciáveis de loucura animal, apesar dos seus respeitáveis 15 anos de idade.

Tinha comido… Uma caneleira. Pois, um objecto de borracha do tamanho da mão de um humano adulto. O que fazer?

Visto que também este utente não defecou o estranho objecto que consumiu, que foi detectado bem inteiro dentro dele através de exames, tiveram que lhe abrir o estômago. Uma operação não especialmente perigosa, mas que seria preferível (embora impossível) evitar, neste cão já em fase geriátrica. Teve que ser.

Perante estes relatos, vêm à memória momentos vividos pela minha “Gááta”, que reúne a doidice imprevisível destes dois seres peludos e ainda a multiplica por dez ou vinte.

Num desses momentos de delírio, e numa época em que ainda não era tão evidente que, com ela, é preciso ter sempre três olhos, teve também o seu episódio plástico. O principal, não o único.

Na fracção de segundo em que o saco de lixo foi desenrolado e preparado para o seu uso natural, e sem que fosse possível impedi-lo, devorou a respectiva fita.

Seguiu-se um telefonema imediato para uma grande amiga e especialista em disparates felinos. Recomendou muita atenção nas horas e dias seguintes, a vómitos, dejectos, sintomas e comportamentos invulgares.

Nada aconteceu, e depois disso já foi vista pela Doutora milhares de vezes. Mas tornou-se evidente que ela e objectos de plástico (ou de metal, ou comprimidos de qualquer tipo) não podem coexistir no mesmo espaço…

A maioria dos gatos têm que ser obrigados a engolir os fármacos de que precisam. No caso da “Gááta”, os que ela tem que tomar são postos na palma da mão: Agarra-os, mastiga-os e come-os sofregamente.

E se a deixarem, faz o mesmo aos dos outros gatos, ou a algum que o dono esteja a tomar. Com felinos assim, todos os cuidados são poucos. O que para nós é inofensivo, para eles pode ter efeitos tóxicos ou mortais.

Cá em casa, plásticos, metais e comprimidos passaram a ser encerrados e vigiados 24 horas por dia.

É preciso andar depressa

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Cabem dez pessoas numa carrinha de nove e toda a gente está com vontade de começar rapidamente. Assim acontece, exactamente dentro do horário estabelecido.

Para acolher os novos elementos e as alterações no grupo, há alguém que traz vários tipos de bigodes postiços à escolha, para tornar tudo mais leve e descontraído.

Perto das instalações policiais, duas pernas inquietas saem do veículo a dançar ao ritmo da música dos anos 1980 que se ouve no rádio sofisticado acabadinho de estrear. Um automobilista passa, ri e aplaude enquanto os sacos de comida são distribuídos pelas Pessoas Sem Abrigo que por ali pernoitam.

Junto dos hotéis luxuosos da capital, há um taxista falador: “Aquele senhor que dorme ali, mesmo quando está completamente enregelado, recusa ou deita fora os cobertores que lhe dão. Já lhe dissemos que pode guardá-los ali atrás, ninguém lhos tira, mas ele não quis saber“.

Daqui para a frente, os voluntários continuam a conversar com todos os moradores de rua que se encontram dispostos a dialogar… Mas para aqueles que estão a dormir profundamente as poucas horas que os separam da madrugada e dos ruídos da cidade, os sacos de comida são entregues em passo de corrida. Acordá-los equivaleria a incomodá-los e quebrar o seu descanso.

Um dos mais interessantes e enriquecedores destes seres humanos que vivem sob as estrelas responde, quando lhe perguntamos como está: “Estou a comer”. Não há mais a dizer, H sabe que estaremos sempre aqui para ouvi-lo e conhecer as suas histórias, consoante ele tenha vontade de contá-las – não é o caso hoje.

Junto à eléctrica nacional, os seguranças revelam que há quem passe a noite nas instalações do multibanco. A equipa procura-os, mas não estão lá.

Três horas e meia, duas dezenas de conversas. O homem alentejano e tranquilo que vivia nas traseiras da empresa nacional de telecomunicações passou a ter um quarto, providenciado pela segurança social.

Nem sabe através de que entidade específica, mas não interessa. O quarto é pago por essa instituição e o rendimento mínimo que aufere dá, muito esticado, para a comida e os medicamentos.

Todos os dias de manhã toma um comprimido para a tensão, e hoje diz estar cheio de sono. Na troca de palavras percebe-se. Acordou às três e não conseguiu dormir mais. “Vá descansar, meu amigo. Amanhã vai estar com mais energia”.

O homem-discoteca

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É o homem-discoteca. Tem uma colher de sobremesa, um pedaço de plástico, uma guitarra que usa como tambor e a própria voz. Está de cócoras sobre o chão e não pára de saltar.

Vai produzindo sons estranhos e ritmados, com os seus instrumentos inesperados, e grava cada um deles, que combina rapidamente no seu sampler portátil, um pequeno aparelho que permite captá-los e misturá-los.

Todas as partes da guitarra servem: As cordas, as suas pontas soltas, o braço, a caixa de ressonância. Regista e cozinha todos esses sons, sempre dançando de cócoras, animado e afável.

No período de tempo que costuma durar uma faixa de um álbum, vai criando ali, à nossa frente, uma nova música, que se torna mais complexa com o passar dos minutos, e que podia passar facilmente em qualquer discoteca da moda. Ao lado um cão grande, preto e bonito assiste a tudo absolutamente impassível.

O homem-discoteca vai interagindo com o público. Há um menino de dois ou três anos que acha aquilo tudo extremamente curioso e quer ver e mexer. O rapaz amável não se preocupa nada, sorri para a mãe e o filho.

Assistimos a um pequeno concerto de música de dança, criado e inventado na hora perante os nossos olhos. São muitos os artistas que actuam nesta zona, mas este prende a atenção, por ser completamente diferente. É um rapaz dos seus 20 e tal anos, com ar de quem já anda nesta vida há algum tempo e não tem quaisquer problemas com isso.

Mas neste dia tivemos azar. Há nuvens no céu e parece que vai começar a chover a qualquer momento. Por causa disso o músico acaba por, num inglês perfeito e sociável, pedir desculpa à sua audiência e explicar que está na altura de recolher, evitando assim um banho forçado proveniente dos céus.

Os espectadores ficam com pena de não assistir mais um bocadinho a esta arte improvisada.

Uma teoria sobre a estupidez

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A senhora dos seus cinquenta e cinco anos, olhos da cor dos mares nórdicos, cabelos que já foram loiros, observa insistentemente. Acaba por explicar, num inglês afável, que olhava a capa do livro, e o nome escrito nela. Gustave Flaubert.

Pergunta se é de Madame Bovary que se trata. Não, é Bouvard e Pécuchet, embora antes tivesse lido Madame Bovary, um livro absolutamente maravilhoso. Quer saber se estou a ler Bouvard e Pécuchet em inglês ou francês. Respondo que é em português e conto-lhe a história em inglês.

É a de dois amigos que vivem no final do século XIX na capital francesa. Conhecem-se, tornam-se imediatamente próximos, e, pouco depois, um deles recebe uma herança e fica rico. Saem de Paris e mudam-se para uma quinta no campo. Aqui começam os disparates.

Retratados por Flaubert como dois burgueses ignorantes, que, para o autor, espelham a estupidez da época, dedicam-se à agricultura, à botânica e ao estudo, mas em tudo o que fazem sobressai sempre a sua arrogância e idiotice profunda.

Flaubert leu largas centenas de livros que lhe serviram de referência para este romance, que o autor apresenta quase como se fosse um ensaio sobre a ignorância. As duas personagens passam o tempo a folhear volumes sobre a agricultura, botânica, medicina, história, geologia, arqueologia, filosofia, lógica, espiritismo, magnetismo e outras incontáveis ciências, ou alegados saberes daquela época.

Depois de se considerarem agricultores (irremediavelmente fracassados), acreditam tornar-se, apenas pela superficial auto-aprendizagem, geólogos, arqueólogos, médicos, curandeiros, deputados, filósofos, especialistas em magnetismo curativo, espíritas e daí por diante.

Explico tudo isto, revelo que o livro é divertido por pretender reflectir a burrice burguesa e o novo riquismo do século XIX (uma época não tão diferente da nossa quanto isso), sorrio e continuo a ler por mais uma hora.

Nessa altura, fecho o livro e vou-me embora, com um novo sorriso. A germânica companheira de ocasião mostra-se desiludida com a minha partida.

Uma gata destemida e audaz

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Na secretária do escritório pessoal, redigia algo no computador. Ao colo,  enroscada e feliz, a Matildinha, com o seu vestido cor-de-rosa, que foi obrigada a usar de novo, para acabar de cicatrizar correctamente, um mês depois da operação.

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Um tanto ou quanto imobilizado e sem poder fazer grande coisa, portanto. E sem me lembrar que, além do Chiquinho e do Jeremias, tenho também uma gata intrépida e audaz, a “Gáata!!”, que gosta de saltar para as portas e janelas, além de se deliciar por pular para cima de mim e repousar sobre os meus ombros, quando ando pela casa, quando estou a almoçar, quando me encontro na casa de banho…

O passo seguinte, que procuro, se possível, evitar, é a tal passagem para as portas ou janelas. Que foi precisamente o que ela fez nesse dia. Quando estou de pé e com as mãos livres, vou para junto da porta ou da janela, eventualmente para cima de uma cadeira, e enfim, ela lá acaba por se deixar convencer a descer de novo para a segurança dos meus ombros.

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Os felinos, às vezes, só se lembram do que lhes convém. Esquecem-se que subir é muito fácil, mas voltar para baixo já não é a mesma coisa. Como estava com a Matildinha ao colo e não queria perturbá-la, nem tinha à mão o borrifador de água para convencer a “Gáata!!” a regressar mais depressa, dei umas pancadinhas na janela com as mãos e os dedos, para ver se ela acelerava a saída da embaraçosa situação.

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Nada. Continuou ali, confusa e inquieta com a posição que obteve para si própria. Passado um bocado, finalmente lá acabou por conseguir vir por aí abaixo sem mais delongas ou atrapalhamentos. Aterrou em cima da mesa, felizmente sem a levar à frente.

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Devo dizer que a “Gáata!!”, além de viver permanentemente ao meu colo, nos meus braços e nos meus ombros, e de se lançar para cima das minhas costas em todas e quaisquer situações, faz ainda outra coisa igualmente enternecedora.

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Quando está em cima do micro-ondas onde aqueço o jantar, e vou convencê-la a sair de lá para lhe dar a medicação, estica os bracinhos para mim como um bebé.

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Vem, como já é de esperar, para os meus ombros, miando com o amor e carinho de uma criança pequenina e ronronando de felicidade e satisfação.

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Os sons invulgares, meigos, doces e infantis que a “Gáata!!” faz para mim já se tornaram conhecidos entre quem vem cá a casa ou trabalha na clínica veterinária. Para mim, são uma canção que embala, descontrai e conduz à felicidade absoluta.

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Homem sem abrigo dá conselhos sobre desemprego

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São duas da tarde do oitavo dia do segundo mês de 2017 e o homem de 84 anos, cego, continua deitado no chão citadino, na mesma posição em que o encontramos habitualmente à noite.

Os olhos que não vêem estão abertos. Parece mais cansado e mais debilitado, pelo que o habitual “estou bem, estou vivo, estou com Cristo” não satisfaz. Acrescenta que os Justos estão com Cristo, e que nós, os que andamos pelo Mundo, não estamos.

Fala com dificuldades e com pausas prolongadas para respirar. Explica que são muitas horas, na rua, naquela posição.

30 anos de existência, sem tecto, pelas cidades do Mundo. Esclarece que viver na rua em Portugal ou em qualquer outro país é a mesma coisa. A única diferença é que os portugueses são mais comunicativos com ele.

Compara a ditadura portuguesa com a espanhola, afirmando que, olhando para as duas, a nossa foi suave. E que os espanhóis ainda estão a viver essa ditadura na cabeça, ainda têm uma mentalidade autoritária.

Recorda Felipe González, o primeiro-ministro socialista espanhol que levou o país para a Europa e para o desenvolvimento económico. Lembra que a indústria automóvel espanhola cresceu enormemente nessa época, e que em Portugal isso não poderia ter acontecido, por falta de território.

Critica os políticos que, na sua descrição, colaboram com o governo espanhol de direita de Mariano Rajoy, ao qual não pertencem, e que serão penalizados por isso nas eleições.

Quer saber um pouco mais sobre a pessoa com quem está a falar. “Então, bom trabalho! Vai trabalhar agora?”. “S-sim.”. “Onde trabalha?”. “Bem, neste momento, trabalho mais em projectos pessoais e coisas desse género”.

“O que faz?”. “Jornalismo.”. “É jornalista? Trabalha em que jornal?”. “Trabalhava numa revista, mas houve uma reestruturação.”. “Está difícil arranjar trabalho?”. “Um bocadinho.”.

“Eu trabalhei numa multinacional farmacêutica durante muitos anos. Nós recebíamos imensos currículos, que se amontoavam no meio do pó. Quando precisávamos de alguém, entrevistávamos pessoas dentro dos nossos conhecimentos, e, aí sim, analisávamos os currículos. Por isso, não se limite a mandar currículos. Vá aos empregadores, marque presença. E não desista, não desmoralize. Se não é casado nem tem filhos, então é mais tranquilo”.

“Obrigado, meu amigo. Obrigado. Um bom resto de dia. Até à vista”.