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Hás-de andar sempre por aí, querida

Chegava ao pé de mim, a abanar as ancas e o sorriso, e dizia: “Bom dia, senhor Vasquinho, como está?”. Respondia-lhe: “Olá, dona Dores, como está hoje?”.

Tratava-me com toda aquela formalidade desnecessária, mas fazia-o com o carinho de uma mãe ou de uma irmã. A dona Dores brincava connosco, sorria connosco, preocupava-se connosco e dava-nos os conselhos simples e sapientes que uma vida de muitas décadas lhe tinha transmitido.

Ensinava-nos a viver com mais alegria e menos preocupações, apenas com a força do seu sorriso, do seu ar genuinamente bondoso e dos seus olhos marotos e bem dispostos. Circulava por todos os corredores, transportava as correspondências, as informações, as comunicações internas.

Trazia-nos as boas ou as más notícias, em envelopes cujo conteúdo desconhecia, sempre com os mesmo olhar puro e generoso. Metia-se com uns, picava outros, mas plena de bonomia e carinho para todos.

Naqueles tempos, era uma das “minhas velhotas”. Havia algumas “velhotas” de quem gostava bastante, e ela era uma delas.

Deu tudo o que tinha e o que não tinha àquela entidade que a todos nos unia, e suspeito que na hora da separação as altas esferas não perderam muito tempo a pensar nisso.

Não foi uma das pessoas com quem criasse uma relação pós-laboral, mas devia ter sido. Não era nada nova, mas como tinha cara e espírito de moça, concluía-se que não era assim tão velha, que havia de viver para sempre. E que ainda havíamos de nos encontrar algures.

Não seria assim. Mas para mim, este bom anjo há-de andar sempre por aí.

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