Um momento insólito

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Sentado em frente do computador, terminava um texto que queria finalizar naquela manhã, enquanto tentava enviar mais dois currículos antes da hora de almoço. Eram umas 12H57.

Toca a campainha, que já tinha retinido repetidamente na última meia hora, embora a tivesse ignorado. Do apartamento para a escada, em fúria, encontro um rapazinho novo, caracóis extremamente farfalhudos e lábios particularmente grossos. Identifica-se com as credenciais da EDP.

Não percebo nada do que diz mas convido-o a entrar. A Amélia, aliás, a Gááta!!, é apanhada de surpresa e corre ao ritmo de Ayrton Senna, para se refugiar no alto do armário da cozinha.

O rapazinho de fala espessa e incompreensível aceita o convite, vai entrando e vislumbrando aqui e ali a Gááta”, o Jeremias e a Matilde. “Ah, tem muitos gatos, é?”. “Tenho quatro. Um, não sei onde está”.

Passara um dia (ou dois) sobre o regresso a casa da Matilde, depois da operação. A minha princesa cinzenta de vestido cor-de-rosa salta lesta e sociavelmente para cima da secretária enquanto mostro as facturas da luz ao moço e tento em vão entendê-lo.

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Dirijo-me à minha querida convalescente: “Muito bem, muito bem”. O rapazinho simpático e enigmático comenta: “Pois, é um salto grande”. Não lhe ocupo tempo precioso a explicar que a pequenota ainda estava debilitada, e que, por isso, sim, era um grande salto.

Parece que devia ter direito a um desconto qualquer, que não me estão a fazer, na electricidade, mas fico sem a menor ideia de que redução de preço é essa.

Peço desculpa ao jovem por não ter sido mais amável no início, depois de vários toques de campainha misteriosos e inconsequentes, quando ele tentava que alguém o atendesse.

Ao longo de toda a enriquecedora visita, o Jeremias não se move de cima da box da NOS, onde quase dorme e absorve o calor. Quanto ao quarto gato, desaparecido durante estes 15 minutos, o Chiquinho, descubro mais tarde que nunca chegara a sair de cima da cadeira, debaixo da mesa, onde ouvia e observava tudo em modo misto de espionagem, lazer e descanso.

Hás-de andar sempre por aí, querida

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Chegava ao pé de mim, a abanar as ancas e o sorriso, e dizia: “Bom dia, senhor Vasquinho, como está?”. Respondia-lhe: “Olá, dona Dores, como está hoje?”.

Tratava-me com toda aquela formalidade desnecessária, mas fazia-o com o carinho de uma mãe ou de uma irmã. A dona Dores brincava connosco, sorria connosco, preocupava-se connosco e dava-nos os conselhos simples e sapientes que uma vida de muitas décadas lhe tinha transmitido.

Ensinava-nos a viver com mais alegria e menos preocupações, apenas com a força do seu sorriso, do seu ar genuinamente bondoso e dos seus olhos marotos e bem dispostos. Circulava por todos os corredores, transportava as correspondências, as informações, as comunicações internas.

Trazia-nos as boas ou as más notícias, em envelopes cujo conteúdo desconhecia, sempre com os mesmo olhar puro e generoso. Metia-se com uns, picava outros, mas plena de bonomia e carinho para todos.

Naqueles tempos, era uma das “minhas velhotas”. Havia algumas “velhotas” de quem gostava bastante, e ela era uma delas.

Deu tudo o que tinha e o que não tinha àquela entidade que a todos nos unia, e suspeito que na hora da separação as altas esferas não perderam muito tempo a pensar nisso.

Não foi uma das pessoas com quem criasse uma relação pós-laboral, mas devia ter sido. Não era nada nova, mas como tinha cara e espírito de moça, concluía-se que não era assim tão velha, que havia de viver para sempre. E que ainda havíamos de nos encontrar algures.

Não seria assim. Mas para mim, este bom anjo há-de andar sempre por aí.

“Vai repetir-se”

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Os soldados turcos aproximavam-se a pouco e pouco. Todos os dias avançavam uns passos, sem pressas, percebendo pelos raros tiros dos cristãos que as suas munições se estavam a findar. Sabiam que além de algum pedaço de pão já nada tinham para comer. Haviam-nos cercado por completo, não deixando passar homens nem animais”.

Largas centenas de soldados turcos, bem alimentados e armados, preparavam-se para massacrar menos de dez habitantes de Creta que lutavam contra o domínio turco na ilha, no final do século XIX, e pouco depois disso mataram-nos sem dificuldades.

Ao longo desse século, muitas foram as lutas e rivalidades entre os turcos, muçulmanos, e os cretenses, cristãos, sem que estes nunca aceitassem definitivamente o poder da Turquia. Um pouco dessa história é descrito em Liberdade ou Morte, obra irresistível de Nikos Kazantzakis que revela a vida da população da ilha.

Turcos e cretenses que ora estão em guerra ora em paz, mas sempre influenciados pelo ódio de morte entre os dois povos. Há um cristão casado que se apaixona por uma turca, o que o leva a odiar-se a si próprio.

Quando os tambores da guerra começam a rufar intensamente, os turcos raptam a mulher, porque ia casar com um outro cristão e converter-se. Por ela, o capitão que não queria amá-la abandona um convento cristão à sua sorte perante as tropas turcas, que o incendeiam, e nunca se perdoará por isso.

Comandará o último grupo, de menos de uma dezena, que lutará até ao fim para não se submeter aos turcos: Liberdade ou Morte.

Nos últimos 20 anos, os mais optimistas poderiam acreditar que não voltaria a haver grandes guerras no mundo ocidental…

No outro dia, em conversa com um amigo simpático, amável e inteligente que acabara de conhecer, este contou-me uma coisa. Tinha visto um bom documentário sobre Hitler, e achava extremamente interessante a forma como o ditador tinha chegado ao poder… Eleito.

Na opinião dele, as pessoas hoje em dia não estão verdadeiramente a par, nem se interessam muito, pelo que aconteceu na História da Europa nos últimos dois séculos. E isso é um grande problema, porque, mais tarde ou mais cedo, “a História vai repetir-se”.

Calor sentimental

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Nem eram oito da noite e a vaga de frio estava no auge. Tinha acabado de jantar uma banana, um copo de sumo e tratar da medicação nocturna. Lá ao fundo, na cama do quarto, ouço chamar insistentemente por mim. “Já vai, espera um bocadinho…”, respondi docemente.

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Ainda fui à sala, cinco minutos, ver a paisagem da janela e observar os peões enregelados a tentar fugir do frio. Quando voltei, passado um bocadinho, já não chamava por mim. Encontrava-se enfiada debaixo do édredão e dos dois cobertores bem quentes, no quarto, que fora aquecido durante meia hora para se tornar mais habitável até a manhã chegar.

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Enfiei-me, também eu, lá dentro, lembrando-me que na noite anterior, quando chegara a casa, já estava bem aconchegadinha debaixo dos lençóis, aguardando.

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Instalei-me e deixei que a Matildinha – e, alternadamente, o Jeremias e a Amélinha, a “Gááta!!” – se enrolassem prazerosa e ansiosamente em mim, enquanto o Chiquinho reinava superiormente, senhor do humano e dos seus domínios, sobre o meu corpo e as minhas mantas.

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Houve alturas em que me virei ao contrário, mas a minha Matildinha não considerou que isso fosse aceitável. Agarrou-se às minhas costas, às minhas ancas, fincou as patinhas, arrastou-se e passou para o outro lado. Para a minha princesinha, não faz qualquer sentido que eu durma sem que ela esteja bem encostadinha, em conchinha comigo.

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É mais ou menos como a Amélinha, a “Gááta!!”. Não vê como minimamente razoável que eu fique mais de 30 segundos à secretária, a trabalhar no computador, sem ela deitada sobre as minhas pernas.

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Ao Jeremias e ao Chiquinho não lhes parece bem, igualmente, que eu decida almoçar, jantar ou ler um ou dois minutos na cadeira da cozinha sem eles lá aninhados ao meu colo. O que não deixa de causar situações embaraçosas.

Acontece a “Gááta” estar nesses cinco centímetros quadrados do meu corpo quando estou a trabalhar… Vem o Chiquinho e tenta meter-se em cima dela, querendo também usufruir da mesma proximidade e calor humano.

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Ou então, estou sentado e a Gááta começa a fazer aqueles sons carinhosos que enterneceriam uma pedra tumular. E salta para cima dos meus ombros, enquanto tomo o pequeno-almoço, vejo os meus mails ou escrevo um texto…

Quase todos os anos, falam em vagas de frio e descidas abruptas da temperatura atmosférica, mas eu não acredito nisso. Aqui em casa, não há frio. O que não falta é calor sentimental!

Um gato de rua chamado Bob

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Era um homem perdido na vida, a tentar enterrar definitivamente no passado as drogas e a rua, numa existência triste e sem propósito. Um belo dia, aparece-lhe à porta um gato laranja, simpático e charmoso mas em fracas condições físicas.

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O jovem acolhe-o, trata-o, consegue pô-lo completamente saudável, apesar de mal ter dinheiro para comer. A partir daqui começa a entrar num dilema. Percebe que o animal gosta dele, mas… Ele, um ex-toxicodependente em recuperação, a viver num apartamento fornecido pela segurança social, não considera ter condições para dar uma vida decente a este felino, que busca abrigo, amor e companhia.

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J B acredita que é melhor para o patudo, depois de devidamente recuperado, regressar ao que lhe parece ser o seu elemento natural, a rua. Nos dias seguintes, sempre que sai de casa para ir tentar ganhar umas moedas junto às estações de metro com a sua guitarra, deixa-o fora, para que esse processo possa acontecer.

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O pequeno mostra-se triste e revoltado, e volta sempre para ele e para o seu apartamento. Um dia, quando J se dirige para o seu local de trabalho de artista de rua, dá com o amiguinho ao lado, a preparar-se, como ele, para atravessar uma das artérias mais perigosas da cidade, com o objectivo de ir com ele e acompanhá-lo.

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É a partir deste episódio que J começa, muito lentamente, a perceber. O gatinho sábio e carinhoso escolheu-o, quer ser dele. Nos tempos que se seguem, sucedem muitas aventuras aos dois artistas de rua, homem e gato, e nalgumas delas o doce companheiro chega a estar em risco de vida.

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A verdade é que, ao longo dos meses, é ele que salva o dono. J passa a ser responsável pela vida, felicidade e bem estar de alguém que o ama, venera, acompanha e guia pela existência. Será obrigado a encontrar um modo de vida mais estável e menos à margem da sociedade.

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Terá que assegurar um rendimento que lhe dê estabilidade e lhe permita estar em boas condições de saúde, capaz de fornecer um quotidiano viável e decente ao seu amigo peludo. E deixar de vez a metadona, entrar a sério no mundo dos que já não precisam de drogas ou substitutos para nada. Tudo isso, e muito mais, ele faz, graças ao seu companheiro.

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A street cat named Bob, Um gato de rua chamado Bob, é uma história verídica e maravilhosa. Quem for a Londres pode ter a possibilidade de encontrar James Bowen e o seu gato, Bob. J B deixou de tocar na rua e passou a vender na cidade a Big Issue, a revista dos cidadãos sem abrigo, na qual se inspirou meritoriamente a revista portuguesa Cais .

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Um livro (que até agora já vai numa colecção de cinco, com as restantes aventuras deste par inspirador) e um filme (com o mesmo nome do livro) a não perder!

A recuperação de Matilde

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A segunda visita não foi tão descontraída como a primeira. Não a apanhei ainda na marquesa, a acabar de fazer o tratamento da noite, disponível para ser abraçada e ficar encostada a mim recebendo o meu carinho. Estava no seu espaço próprio, com menos mobilidade, a fazer soro.

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Deitava-se sobre a minha mão e pedia-me carinho, que recebeu durante o espaço de uma hora em que estive lá. Vim para casa, sabendo que estava nas mãos da melhor médica do mundo, e que já só faltava um dia.

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Sábado à noite fui buscá-la. Sabia que ainda iam ter que dar-lhe mais medicação e afastá-la de mim um bocadinho, antes de poder finalmente levá-la.

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Sentei-me ao lado dela, conversando com ela, e não mostrando uma proximidade tão grande que a levasse a pensar que iria sair dali logo nos minutos seguintes, ou que eu estaria a ir-me embora quando a deixasse aos cuidados da doutora para os últimos tratamentos.

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Mas depois de uma pequena espera, pude, finalmente, fazer a viagem de 15 minutos com ela para casa. Quando chegou, saltou agilmente para cima da minha cama, mostrando que esta intervenção cirúrgica tinha sido muito mais simples do que a de há um ano e dois meses.

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Decidi que neste primeiro dia iríamos passar a noite juntos e sozinhos. Tinha medo que o resto do pessoal cá de casa a incomodasse, depois do que pareceu uma longa ausência que quebrava e punha em causa todas as rotinas do dia-a-dia.

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Mas também porque queria ficar essas horas encostado a ela, ouvindo a sua respiração gentil e reconfortando-a. No dia seguinte, de manhã, quando os outros ainda estavam meio adormecidos, resolvi promover logo a reaproximação.

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O Chiquinho, que, em alturas normais, passa o tempo a persegui-la, cheirou a Matilde e deu-lhe as boas vindas. O Jeremias fez o mesmo. Só a Amélinha, a “Gáata!!”, é que demorou uns dias a aceitar de novo a sua companheira de brincadeiras e tardes passadas enroscadas uma na outra a aquecerem-se. Mas depois do receio e surpresa inicial, isso passou-lhe.

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Houve mais alguns percalços. Após esta segunda operação, agora apenas para retirar um pequeno nódulo, a minha princesinha não queria tomar a medicação com a comida, a única forma que, ao longo dos anos, consegui desenvolver com sucesso para medicá-la.

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Ao segundo dia, voltei a usar a técnica mais íntima e personalizada, a que recorro em casos de muita falta de vontade da parte dela, e que, no dia anterior, não resultara. Dar-lhe a comida com medicação à colherada. Nesta segunda tentativa correu bem, e nas seguintes também.

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Andava, igualmente, com falta de apetite. A minha querida doutora deu-lhe um comprimido para isso; Abri um novo saco de comida – com o cheiro intenso da alimentação acabada de estrear – e tudo se encaminhou.

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O fármaco que a doutora lhe prescreveu teve o efeito secundário de a tornar muito, muito mais faladora. Toda essa conversação aparentou, desde o início, ser uma forma de mostrar que precisava ainda mais de carinho do que o habitual.

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Queria ser mimada… De minuto a minuto. Enquanto aquecia o almoço, sentei-me no chão. A minha Matildinha saltou para o meu colo, amassou-me e ficou a ronronar durante quinze minutos enquanto a acariciava.

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O seu grande rival no meu coração, o Chiquinho, nem pestanejou. Ao longo da semana, sempre mostrou compreender perfeitamente aquilo que a sua amiga, com quem me disputa todos os dias, estava a passar.

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Vai até perto dela, cheira-a, dá-lhe umas lambidelas e mostra-lhe a sua solidariedade, que ela, alguns momentos depois, percebe que é pacífica e bem intencionada.

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Enquanto desejo intensamente que a minha top-model de fatinho cor-de-rosa se tenha visto livre para sempre da doença que a atacou, ela vai permanecendo longas temporadas nos lugares que associa ao conforto e à segurança.

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A sua caminha… E os arranhadores que a sua mamã, a minha ex-mulher, lhe trouxe dedicada e carinhosamente de Inglaterra no Natal. E que têm sido um enorme sucesso cá em casa. Servem aos habitantes daqui de cadeira, ginásio, brinquedo e fonte inesgotável de bolas de cartão que lhes arrancam e com as quais depois jogam incessantemente, mordiscando-as e pontapeando-as no soalho de madeira.

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Bem vinda, Matilde, a gatinha mais fofa, doce e querida que alguém poderia conhecer!

Não precisamos de palavras

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Abracei-me a ela e ficámos assim, durante uma hora, trocando beijinhos e carinhos, sem precisar de uma palavra. Não nos víamos desde as oito da manhã, quando a deixei aos cuidados da melhor médica que já conheci, para que lhe extraísse um nódulo do peito.

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Isto para ela não é novidade: Já tinha acontecido há um ano e dois meses, mas dessa vez fora mais complicado. Tinha muita coisa para ser retirada de dentro dela. Foi uma cirurgia profunda, e a recuperação demorou algum tempo, especialmente no campo psicológico.

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Mas algumas semanas depois, a Matilde não apenas voltou ao normal, como se revelou, para sempre, ainda muito mais carinhosa e agradecida, por todos os cuidados, atenções e dedicação que recebeu a seguir à operação, nos dias que decorreram mais tarde e actualmente, a todas as horas e minutos.

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Quando dormimos juntos e sozinhos nessa noite, mostrou a devoção e gratidão que tinha crescido dentro dela, e continua a fazê-lo constantemente.

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É curiosa a percepção psicológica destes seres que comigo habitam. Se o Chiquinho passa o tempo a meter-se com ela e a incomodá-la, o que é facto é que no dia que antecedeu a intervenção, não foi irritá-la uma única vez, declarando tréguas de apoio e compreensão sensata e omnisciente. Estiveram até os dois deitados juntos, encostados um ao outro, horas, sem que nada perturbasse essa paz.

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Se os telefonemas e visitas à clínica tranquilizam, bem como o facto de estar nas mãos da melhor médica que existe neste hemisfério e no outro, algo se evidencia no coração, a cada instante.

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A vontade de trazê-la de volta, muito brevemente, para tê-la junto a mim, ao meu lado, seguindo-me regularmente, sublinhando que me adora, que confia em mim, que sabe que darei sempre o melhor de mim para que esteja bem, feliz e tranquila. Mal podemos esperar!

O loiro e o resto dele

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Cruza-se comigo, com o ar de quem vive num mundo que não é o meu. Loiro, cabelo curto, idade e estilo indefinidos.

O resto deste ente misterioso deve pesar uns três quilos, é completamente cinzento e nunca se descola dele. Esta entidade composta de dois seres vive do outro lado da rua. As duas metades, humana e canina, são inseparáveis.

Num desses dias em que nos encontrávamos no passeio, eu com o jornal debaixo do braço e ele com as quatro patas a deslocar-se orgulhosamente à sua frente, decidi estabelecer um tímido contacto com a parte saltitante deste duo.

O normal seria uma palavra amiga, enquanto a mão é dada a cheirar, mas não houve tempo para tanto. Bastou-me olhar para aquele minorca cinzento que parece um bonequinho animado, e nem cheguei a abrir a boca.

Só de ver-me contemplá-lo, este temível protector, que mede uns dez a quinze centímetros, desatou imediatamente a ladrar para mim. A partir daí, os nossos encontros mantiveram-se diários mas passaram a ser bastante mais distantes.

Não voltei a abusar da confiança que não me foi dada por este pequeno animal de bom coração e feitio pouco recomendável.

Olho para os dois ao longe, homem e cão. Já vi este homo sapiens sapiens ralhar aqui e ali com o seu canídeo, tal como faço com os meus felídeos quando calha e quando tem que ser. Mas sempre me pareceu que ele o fazia por alguma razão necessária.

Penso neles, o loiro de um metro e setenta, e o grisalho de quinze centímetros. Quer-me parecer que, com ou sem o mau feitio, cada um deles não tinha problemas nenhuns em dar a vida para que o outro pudesse ser feliz.

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Da mesma maneira me parece que dificilmente podiam viver um sem o outro. Quando sinto à volta deles aquele amor que não se explica, e penso na existência de carinho que se vive aqui em casa, comigo, a Amélinha (a “Gááta!”, o seu verdadeiro nome), o Chiquinho, o Jeremias e a Matilde, sinto que tudo no mundo faz sentido.

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Fui agredido pelas velhinhas soaristas

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Passeava pelo Barreiro, no início da década de 1990, na companhia do meu grande e melhor amigo, como habitualmente… Os ferrenhos comunistas da cidade operária e os socialistas que também por lá havia andavam de ânimos acesos, na segunda campanha presidencial de Mário Soares.

Embora a cidade ainda pertencesse ao PCP sem grande margem para dúvidas, o que é facto é que quando o presidente socialista em tentativa de reeleição lá apareceu, foi a loucura, depois de um primeiro mandato em que conquistou as inimizades da praxe mas também, ao mesmo tempo, um sólido culto nacional que o levou a ser reeleito confortavelmente.

Ou seja, mesmo com inúmeros detractores da sua figura, o Barreiro estava em festa, e os muitos e sonoros apoiantes vieram todos para a rua. A comitiva passou por nós num bonito e invejável Audi escuro e reluzente. Com menos de 20 anos, não tinha uma noção realista do papel que este político desempenhara na segunda metade do século XX.

Ingénuo e contestatário, achei que havia por ali muita ostentação. Tive a infeliz ideia de gritar “chulo”, e mais qualquer coisa pior. As gentis, determinadas e muito socialistas velhinhas que militavam no Movimento de Apoio a Soares Presidente (MASP) não deixaram a defesa do seu Chefe de Estado por mãos alheias. Levei com os paus das bandeirinhas do MASP na cabeça, e retirámo-nos estrategicamente.

Durante as presidências abertas, figura que ele inventou para estar mais próximo do povo, fazendo a vida difícil a Cavaco Silva, primeiro-ministro totalmente de direita que não fez nada de especial pela democracia mas ajudou muitos amigos a enriquecer, deslocou-se ao Barreiro.

Mini-jornalista local jovem e inexperiente, recordei-lhe uma crítica de Pacheco Pereira, que, ao contrário do que acontece hoje, na época ainda podia considerar-se de direita. Soares despediu-me com uma frase qualquer que queria significar que aquilo não tinha importância nenhuma.

Estudei, em notícias, artigos, perfis e entrevistas, a vida d’“O Bochechas”, e das várias figuras políticas que marcaram a nossa vida, da década de 1970 à década de 1990, período em que se consolidou a nossa democracia.

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O homem que foi Ministro dos Negócios Estrangeiros, primeiro-ministro (repetidamente) e Presidente (ídem) foi um dos últimos grande políticos portugueses, com Francisco Sá Carneiro, Álvaro Cunhal, Adelino Amaro da Costa e Adriano Moreira.

Houve um conjunto de homens, de uma fibra muito própria, que arriscaram a sua vida e tudo o mais para deixarem para trás as brumas obscuras do fascismo e colocar de pé em Portugal um sistema político diferente: Onde existisse democracia e liberdade. Soares foi um deles.

Depois, participou activa, convicta e corajosamente na consolidação desse sistema. Não deixou que os comunistas transformassem a nação em mais um país satélite da União Soviética, um estado de inspiração estalinista. Não permitiu que os militares tornassem Portugal um regime militar anti-democrático de teor altamente duvidoso.

Há quem diga que Salazar era um grande estadista e economista. Como, se milhares morriam de fome ou na prisão, por não concordarem com isso? Há quem tenha ficado ressabiado com a descolonização. Que outra descolonização era possível fazer, quando a colonização se prolongou no tempo, até ao impossível e impensável? Como e com que meios?

Um regime fascista cego e parado no tempo, e os excessos da revolução, como as nacionalizações, levaram o país à bancarrota, que foi o que Soares enfrentou quando chegou ao poder.

Além de nos afastar da sovietização e da militarização, conseguiu, com a sua habilidade diplomática, a ajuda externa de que o país precisava para não mergulhar no caos. Empurrou-nos para dentro da Europa e da Comunidade Económica Europeia, para que não fôssemos um calhau perdido no Oceano.

Governou como pôde, e não parece que fosse nada fácil fazer melhor. Era um homem, que tinha defeitos e cometia erros como todos os homens, e esteve tanto tempo em funções de alta responsabilidade que impossível seria não errar, e bem à vista de todos. Para mim, que sou eleitor do partido Pessoas Animais Natureza, foi o último grande político do século XX.

Quando eu andei nas obras

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Não sabia se ia entrar para a universidade, tinha muito tempo livre e pouco dinheiro. Já não sei bem como aconteceu aquilo, mas falei com alguém que falou com alguém, pus-me num sítio à espera de uma carrinha e fui à Siderurgia Nacional (SN) pedir trabalho – nas obras – para uns meses.

Havia trabalho, e não era mal pago. Um servente de pedreiro, ali, há 25 anos, ganhava 70 contos: 350 euros. Dava para juntar uns cobres para os primeiros tempos do curso, porque também ainda não sabia se ia ter bolsa.

A SN, naquela época, era um antro de droga e loucura. As conversas ao almoço variavam entre charros, cocaína, heroína e sexo oral. Não suportava o tipo que, 25 horas por dia, falava das raparigas com quem tinha tido sexo, onde e como, porque nunca gostei de tais conversas chauvinistas.

De vez em quando olhava-se para alguém e percebia-se que já estava pedrado outra vez. Muita daquela gente já não existe, de certeza. O Estrela, por exemplo. Era um homem simpático e afável, e um farrapo humano sempre à espera de meter mais alguma coisa para dentro.

Eu, que percebo tanto de enrolar cigarros ou afins como de motores de aviões, às vezes lá o ajudava a fazer a ganza que ele ia fumar, porque o Estrela já nem isso conseguia fazer – mas trabalhava nas obras.

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E as obras, na SN, tínham dias… Uma coisa acontecia sempre: Se alguém tinha o relógio ligeiramente adiantado e estava para se ir embora, o encarregado, um quase corcunda de metro e meio que tinha a força de um burro e um carregado sotaque que eu não conseguia localizar, gritava de imediato: “Faltam dois mêniúutos!!!”.

Mas o trabalho, esse, variava. Passei a primeira semana a fazer amizade com outro moço igualmente simpático e comunicativo – que estava sempre ganzado – e a varrer a mesma sala. Mas, na semana seguinte, vieram as valas para abrir, a poder de pá e picareta, os baldes de massa e os sacos de cinquenta quilos de cimento para carregar.

A coisa era de tal ordem que até acontecia aquele gesto natural de lembrar algo inesperado e dar uma estalada na testa – mas corria mal, porque a mão já estava ferida e cheia de bolhas.

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Quando chegava à Quinta da Lomba, fazia a rua principal a pé, exausto e imundo dos pés à cabeça.

Nesses momentos de curta caminhada, empoeirado e mal cheiroso, percebia quem eram as pessoas que me interessavam na vida, e as outras. As que me interessavam eram as que me cumprimentavam, de aperto na mão ou beijo na cara, com a alegria e a simpatia de sempre. As outras eram as que olhavam para mim espantadas e mudavam subitamente de passeio.