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Adeus, Tozé. Oh captain, my captain

O Tozé ficou a olhar para mim embasbacado. “Você não se trata nada mal!”. A minha mãe tinha-me feito umas sandes nuns pães gigantes, com refeições monumentais dentro, para levar numa visita de estudo a Peniche, onde todos nós comemos que nem abades e bebemos que nem alarves.

O Tozé era o nosso stôr de Filosofia do 12º ano, um dos grandes responsáveis pela minha paixão por esta disciplina, a mãe de todas as ciências, aquela que estuda o saber e questiona a realidade.

Nas aulas do Tozé aprendíamos a Filosofia histórica e formal, a Filosofia espontânea e a Filosofia da vida. O nosso stôr contava-nos as histórias dos sítios difíceis e complicados onde tinha dado aulas, e de como, com a sua descontracção e o seu metro e oitenta e tal, tinha passado incólume por essas experiências de filme. “Os tipos punham as navalhas e o haxixe em cima da carteira, ali à minha frente, só para me provocar”.

Relatava outros episódios a que tinha assistido, de gente que andava à pancada, jorrava sangue por vários sítios e lavava a cara nesse líquido que contém a vida. Pelo meio, ensinava-nos todas as teorias de Hegel, Kant e Kierkegaard.

Mesmo no meu caso, que amava a disciplina e até quis candidatar-me a esse curso, é escusado perguntar qual a parte da aula de que gostava mais…

Um belo dia, já não sei bem porquê, eu e os matulões que me protegiam e a quem eu ajudava nos estudos demos por nós juntos com o Tozé, algures no Barreiro, sem aulas nem obrigações. “Bora beber uma ginginha ao Manel da Galega?”, atira o nosso líder espiritual.

Seguimos o nosso guru, evidentemente. Foi a primeira e mais deliciosa ginginha que saboreei em toda a minha vida.

O companheiro número um de todas as aventuras daquela época saudosa almoçou comigo na semana passada. “Olha, tenho uma notícia triste. O Tozé morreu”.

Naqueles dias mágicos e goriosos, chamávamos ao Tozé “Oh captain, my captain”, porque para nós ele era como o Professor Keating (Robin Williams) do Clube dos Poetas Mortos, realizado em 1989 por Peter Weir. Era a aventura, o sonho, a ousadia e a orientação espiritual. Adeus. Oh Captain my Captain.

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