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“Obrigado por fazerem isso. Estas pessoas não deviam estar na rua!”

O voluntário mais alegre salta de dentro da carrinha com um cobertor na mão. Dirige-se automaticamente a um homem destapado e deitado num banco de jardim. Coloca, cuidadosa e carinhosamente, a manta sobre o ser humano que ali dorme.

O rosto desperta, os olhos brilham e da boca saem várias palavras claras e bem articuladas. “Obrigado, muito obrigado!”. O gesto deste voluntário repetir-se-á, horas mais tarde, noutro local.

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Será momentos antes de a equipa encontrar, no chão da avenida mais luxuosa do país, um jovem da República Dominicana que fala cinco línguas, esteve no Algarve atrás de um trabalho que afinal não existia, e apenas quer uma oportunidade para ganhar a vida.

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Mas os potenciais empregadores das dezenas de sítios onde vai procurá-la semanalmente exigem-lhe uma morada e um currículo. “Como?”.

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Duas ruas atrás, o electricista que se nutre com sorrisos continua preocupado. Nesta época festiva ninguém gasta dinheiro em arranjos de electrodomésticos, ou nos restantes trabalhos técnicos e manuais que domina.

Nem em Janeiro. No primeiro mês do ano toda a gente está a pagar os saldos dos cartões de crédito que acumulou na época festiva.

Do outro lado da estrada, o homem sem dentes que apenas aceita iogurtes dá as indicações sobre o novo companheiro de calçada. “Está ali ao lado, é novo aqui, ainda não está orientado, não se esqueçam de lhe levar a sandes, o bolo e o iogurte”.

Há três ou quatro voluntários a conversar junto à carrinha, enquanto os outros quatro ou cinco distribuem comida, uma palavra amiga e caminhos para mudar de vida.

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Ouvem, em surdina, uma voz fina. “Obrigado.”. “Hm?”. “Obrigado.”. Dirigem a atenção para baixo. Um menino tímido, doce e emocionado, de óculos de lentes grossas, ar frágil e carinhoso, pronunciara estas palavras e olha para eles.

Os voluntários conversam com a mãe do menino de três ou quatro anos, que explica. Ao seu filho meigo e sensível, faz muita impressão ver estas pessoas a viver na rua.

O pequeno diz que é Natal, e que aquelas pessoas não deviam estar ali, assim ao frio. Foi por isso que agradeceu aos voluntários, por virem ao encontro destas pessoas, para ajudá-las.

A equipa dirige-se para o quadrado de calçada onde um homem vive só, cego e sábio, há anos incontáveis, no mesmo local onde todas as semanas multidões de jovens que seguem as últimas tendências da sociedade vão assistir aos eventos culturais do momento.

O octogenário invisual que nunca está sujo nem cheira mal continua a enriquecer os voluntários com o seu saber enciclopédico de história, geografia, política e religião .

A morte, Deus e o tabaco são três temas presentes no seu espírito esta noite. Por uma razão inexplicável, um voluntário que raramente fuma saíra de casa com um cigarro, depois esquecido no bolso do casaco após  perdida a vontade.

A dada altura, o profeta da rua pergunta se alguém tem um cigarro, que seria o primeiro e único que fumaria nesse dia. Era esse o destino daquele cigarro. Consumi-lo-á com prazer, sozinho, depois de contar à equipa que já escapou 15 vezes à morte, destacando três.

Num eléctrico, num hospital e num escritório, onde esteve sentado em cima de uma bomba. Mas agora está farto de viver, diz que já chega, não é preciso mais.

Critica as tentações que o Diabo apresenta à Humanidade, esclarecendo que atrás do dinheiro chegam o álcool, a droga e a perversão sexual.

É uma noite em que tudo acontece. Há um homem que é encontrado a dormir profundamente num ponto da cidade, coberto por uma manta, encostado a uma mala, calçando ténis cor de laranja e cinzentos… E é visto, uma hora depois, a vários quarteirões de distância, outra vez em sono cerrado, debaixo do mesmo cobertor, junto à sua mala, calçando os sapatos laranja e cinzentos.

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