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Ter coração ou não ter

Calças, blusa e casaco escuros. Cabelo grisalho, óculos, figura um pouco pesada e volumosa. Tem um problema de saúde permanente, que a faz deslocar-se, sempre, de muleta.

barbeiro33

Todos os dias a vejo, no mínimo uma vez por dia, a andar para baixo ou para cima, nesta rua que é mais que íngreme, quase uma verdadeira rampa. No chão, preso por uma trela e a acompanhá-la, um cãozito, que parece um brinquedo. Cinzento como o cabelo dela, é de uma daquelas raças pequenas que muitas vezes vemos com senhoras de idade.

Os seus problemas fazem com que se desloque com bastante dificuldade. Pela interacção com o cãozito, que se resume basicamente a fazer com que ela e ele se acompanhem ao mesmo ritmo paciente e vagaroso, não se percebe muito da relação entre mulher e cão.

Mas deduz-se bastante. Para já, que a mulher, mesmo com as dificuldades que tem, nunca nega ao seu amiguito o prazer e a necessidade diária de um passeio na rua, que não se limita a uma volta de cinco ou dez minutos.

Percebe-se também que os seus eventuais familiares, provavelmente, nunca se ofereceram para substituí-la, ao menos de vez em quando, nesta tarefa que se nota ser-lhe dolorosa.

E quando vejo a senhora diariamente, a andar devagarinho e dificilmente com o seu companheiro, recordo-me de quem faz exactamente o contrário. Vêm-me à memória as alimárias do prédio do lado.

Depois de terem preso no terraço durante toda a vida, à chuva e ao frio, um lindo e enorme cão, que acabou por morrer doente e negligenciado, decidiram repetir.

Têm agora um cachorrinho doce, meigo, carinhoso e carente, que, como o antecessor, também passa o tempo sozinho no terraço, dia e noite, sete dias por semana. Neste momento, em pleno Inverno. Sem uma palavra de amor, um gesto de carinho, uma festinha no pêlo.

Já ali está há meses, e, ao longo desse período, não sei quantas vezes foi à rua. O que é certo é que, durante as muitas horas que passo actualmente em casa, se encontra sempre lá.

Naquela casa vejo regularmente pelo menos três pessoas adultas, saudáveis e cheias de vigor, com boas pernas que podem usar para ir à rua passear, e levar o pequenote. Mas sem uma ponta de sentimento ou consciência, já que nunca os vejo ocuparem-se do forçadamente solitário e triste animal.

Só se lembram dele para lhe ralharem, porque “ladra”. Pois não há-de ladrar, ganir, uivar e lamentar-se inconsolavelmente toda a noite, se o que ele quer é amor, carinho e atenção e tudo isso lhe é estritamente negado… A tal senhora devia lá ir explicar-lhes o que é o compromisso emocional e consciente de ter um animal.

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