O que está a acontecer

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Aí chegada, a alma parou, angustiada, como um papagaio no seu zénite, quando o vemos fixar-se subitamente, e, em terra, a criança, com a corda nas mãos, que faz um arco. Aí chegada a alma parou, esperando que se descesse o corpo para que ela pudesse subir, que a terra o recebesse para que ela pudesse ganhar altitude, no alto e em baixo, o corpo e a alma, não constituindo senão um”.

A alma era a do professor e deputado pacifista grego Gregoris Lambrakis, morto em 1963 pela extrema direita grega. O assassinato do político é descrito no livro Z, de Vassilis Vassilikos, e no filme do mesmo nome do realizador Costa Gravas.

Numa altura em que a extrema direita ressuscitou na América e na Europa, faz sentido pensar no que é que isso quer dizer. Donald Trump foi eleito com o apoio expresso e empenhado da extrema direita. Era o candidato acarinhado pelo Ku Klux Klan, que comemorou a sua vitória com um comício.

Durante as décadas de 1950 e 1960, o Ku Klux Klan assassinou centenas ou milhares de pessoas apenas por serem negras. E hoje, continua tão racista como nessa época.

O homem que Donald Trump acaba de nomear para seu conselheiro principal chama-se Seve Bannon. É um activista de extrema direita. É racista, detesta os judeus apenas por serem judeus, maltrata as mulheres e considera que são seres inferiores.

Os encontros políticos que Donald Trump considera prioritários na sua agenda são com o político britânico Nigel Farage e a francesa Marine Le Pen. Ela de extrema direita, ele muito próximo dessa definição e inimigo de todos os residentes não britânicos.

O que significa ser, como o político holandês Geert Wilders, o austríaco Norbert Hofer ou a alemã Frauke Petry, de extrema direita? Significa que não gostam de estrangeiros e que não os querem no seu país; que são racistas, que odeiam um grande número de pessoas apenas por serem de outras raças (embora a palavra raça seja muito contestada pela ciência).

Quer dizer também que não gostam de homossexuais e não os consideram seres humanos com o mesmo estatuto dos outros. Também indica que detestam a liberdade. Não aceitam a liberdade de expressão, de imprensa, de pensamento.

Na Hungria, onde governa o primeiro-ministro Viktor Órban, com posições muito idênticas às do pensamento de extrema direita, a Imprensa tem sido maltratada. Os refugiados têm sido encarados como se fossem criminosos, apenas por serem refugiados, que fogem para a Europa porque são perseguidos pela guerra, pelo terror, pela fome.

Donald Trump apresentou-se como alguém que lutaria contra o sistema político e económico. Na verdade, ele foi produzido pelo sistema económico e foi uma das pessoas que mais beneficiaram dele.

De qualquer maneira, há uma série de coisas que se estão a apoiar sempre que se dá força a Donald Trump e aos seus admiradores. Donald Trump representa a extrema direita e os seus princípios. Admirá-lo é elogiar a extrema direita.

Apoiar a extrema direita, na América, na França, na Alemanha ou em qualquer lugar é acreditar que devemos odiar os não brancos porque não são brancos; os homossexuais por serem homossexuais; que as mulheres devem ter um papel inferior na sociedade; que não temos direito à liberdade, a dizer e escrever o que sentimos e pensamos. Apoiar Donald Trump é concordar com tudo isso.

“Ele continuava atrás de mim”

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“O tipo apanhou-me sozinha e eu não tinha maneira de me defender”, diz a rapariga de uns 20 anos, morena, de rabo de cavalo, saia, meias de vidro escuras e roupas floridas, à senhora idosa, de casaco de Inverno cinzento, comprido, ao seu lado.

“Dei-lhe o que tinha. Disse-lhe: ‘Olhe, eu sou estudante, não tenho mais dinheiro, não tenho mais nada, deixe-me em paz’. Mas ele continuava atrás de mim, continuou sempre atrás de mim. Eu achei que ele podia violar-me, bater-me, fazer o que quisesse, se continuasse a perseguir-me até casa”.

“Pois, podia fazer o que quisesse”, comenta a mulher, impressionada.

“E não havia ninguém a quem pedir ajuda. Já não tinha o telemóvel, não podia telefonar a ninguém. Ele continuava atrás de mim e dizia que não me estava a seguir. Mas estava, porque eu mudei de caminho, voltei para trás e continuou a perseguir-me”.

“Pois, não podia fazer nada”, concorda a senhora, olhando-a com o rosto enquadrado pelo cabelo bem penteado, em pequenas ondas, e apanhado.

“A minha sorte foi que de repente apareceu um carro com uns rapazes. Fui ter com eles, desesperada, e expliquei-lhes a situação. Eles levaram-me dali, felizmente. Disseram-me que só não podiam ir comigo mesmo até à porta de casa porque tinham que ir entregar o carro. Se não fossem eles, não sei. E não havia polícias em lado nenhum! Quando precisamos deles nunca aparecem!”.

“Pois, antigamente não era assim”, comenta a mulher, que a ouve atentamente. “Havia polícias na rua e mantinham tudo na ordem”.

“Oh, mas que ordem era essa?”, reage a rapariga, nada convencida, e respondendo à sua própria pergunta: “Essa ordem era repressão. E mesmo agora, eles quando agem é sempre com excesso de autoridade!”.

“Não, não é isso”, responde a senhora do casaco comprido, sem mudar a expressão preocupada nem o tom de voz suave. “Havia ordem”, repete.

“Não tenho T-Shirt, não tenho T-shirt”

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Não tenho T-shirt, não tenho T-shirt”, repete, falando do chão para cima, deitado, de tronco nu. “Vocês não têm roupas?”. “Não, não temos nada, já demos tudo!”.

No frio da noite, que aquele homem vai passar até ao fim em tronco nu, esta ideia faz-lhe uma comichão psicológica crescente e dolorosa. Não há mais roupa, não há mais nada. E ele está ali de torso desnudado.

Não aguenta mais. Afinal, aquela camisa que ele próprio traz vestida far-lhe-á alguma falta? Nenhuma, absolutamente. É só mais uma entre diversas. Enquanto que aquele ser humano deitado à sua frente nem uma T-Shirt possui.

Afasta-se um pouco, procura um beco escuro ali perto. Despe o blusão de meia estação. Despe a camisa. Dobra-a cuidadosamente. Volta a vestir o casaco. Coloca a camisa delicadamente dobrada debaixo do braço. Volta à esquina onde o homem continua deitado, a cem metros dali.

Olhe, quer esta camisa? Não sei se é o seu tamanho…”. “Sim, sim! Sim, sim! Obrigado! Obrigado!”. No resto da noite o corpo estará ligeiramente mais fresco, a alma mais arejada. O calor que sentirá interiormente não se compara a nada que já tivesse conhecido.

No fundo, aquele gesto instintivo é uma continuação de outro. De uma atitude que já testemunhara, por parte de outro elemento daquele grupo de amigos dos que nada têm.

Anos atrás, essa jovem sentira o mesmo numa situação semelhante. Vira uma mulher sem cachecol, sem agasalhos, no gelo implacável da noite. Também nesse dia já o grupo gastara todos os agasalhos, roupas e cobertores quando chegou àquele local.

Mas a jovem nem hesitou. Retirou rápida e suavemente o cachecol que lhe aquecia e protegia o pescoço frágil, ofereceu-o imediatamente à mulher que lutava na escuridão, em busca de calor e procurando sobreviver.

Um mundo em que nos preocupamos uns com os outros, em que somos sensíveis à dor, ao frio, à fome de quem não conhecemos… Em que nos importamos… Em que queremos fazer alguma coisa… É esse o mundo em que precisamos de viver.

Um planeta onde não queremos saber de ninguém a não ser de nós próprios, onde somos indiferentes ao sofrimento alheio, onde reina o individualismo extremo, o egoísmo cego, o egocentrismo exacerbado – essa é uma realidade onde não faz sentido existirmos.

Isto vai ser duro

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Bom dia!”. “Bom dia!”. “Não é muito cedo para estar aqui?”. “De manhã é que se começa o dia”, respondo, divertido. Não sei como se chama, por isso, para já, vou chamar-lhe Ioan.

Todos os dias lá estava, bem cedinho, a fazer o seu trabalho de segurança e a abrir o ginásio. Sempre alegre, gentil e bem disposto, a qualquer hora. Foi assim durante vários meses.

Mas desconfio que este jovem da Europa de Leste, aparentemente romeno, já deve ter vindo para cá com formação de PT (Treinador Pessoal, preparador físico…).

E tanto assim é que, uns meses depois de começar a espalhar a sua simpatia e humildade por aquele lugar de transpiração e sacrifício, conseguiu mudar a sua sorte e o seu estatuto.

Agora, o Ioan já é PT. Dá apoio à sala de acesso livre do ginásio, onde os desportistas de todas as idades e tipos fazem a sua preparação física, os seus planos de treinos, os seus aquecimentos e alongamentos.

A aula de abdominais dele estava a chamar por mim. Já não fazia abdominais havia demasiado tempo. Pensei: “Este tipo tem um ar tão simpático, isto não vai ser demasiado duro!”.

São aulas de cerca de dez minutos, repetições de meia dúzia de exercícios durante 30 segundos, normalmente em dois ciclos. Ao fim dos dois primeiros exercícios já não conseguia mexer-me, e assim me arrastei até ao fim.

Gostei do desafio, que, obviamente, não consegui vencer. Gosto do “Ioan”. Por aquilo que consigo ver, desde o primeiro dia que me parece um tipo impecável. Esforçado, humilde, competente, determinado.

Gosto de viver num mundo onde os Ioans, os Johns, os Myagis, os Li, os Prabaker, os Ravis e os Gonzalez de todo o planeta serão sempre bem vindos e acolhidos de braços abertos e olhar reconfortante. Gosto de viver na Europa e no Ocidente que conheço há 45 anos. Estou interessado em viver numa realidade onde as tretas, pantominices e mentiras populistas, extremistas, racistas, preconceituosas, xenófobas e Trumpistas não têm direito à existência porque não são uma visão verdadeira, aceitável ou civilizada da existência.

Os verdadeiros democratas e defensores da liberdade, todos eles, devem despertar e manter-se extremamente atentos. O mundo não é dos extremistas, dos populistas e dos manipuladores do medo. O mundo é de todos e para todos.

Bem vindos a 1939

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Às oito da manhã o novo Presidente dos Estados Unidos faz um discurso que dura 15 minutos… Povoado por agradecimentos aos amigos, companheiros e familares que o haveriam de levar à vitória.

É difícil chamar-lhe verdadeiramente um discurso. Sobrecarregado de agradecimentos, contém, como habitualmente, o contrário do que dizia no dia anterior.

Trump parece uma autêntica Miss Universo, inverosímil, surreal, onírico. Fala da paz e do amor no Mundo e entre todos os países, da reconciliação com aquela que era, no dia anterior, a “Hillary Criminosa”, e que nessa altura tinha, segundo ele, que ser presa.

Anuncia investimento público e emprego, e a duplicação do crescimento económico (?!). É, realmente, um “discurso” digno de um reality show. A América de Obama foi um país razoavelmente próspero, rico, progressista e melhor. A nível de direitos e preocupações sociais, incomparavelmente melhor. Com muito mais crescimento económico, comprovado, e muito menos desemprego, igualmente provado, e numa época difícil para o mundo.

Além de tudo o que disse, prometeu ou fez contra as mulheres, os imigrantes, os muçulmanos, os deficientes e todos os tipos de minorias, Trump é o candidato que a extrema direita e o Ku Klux Klan, organização racista, extremista e assassina, veneram.

A primeira a dar-lhe os parabéns e elogiar a sua vitória foi Marine Le Pen. A seguir, veio a Aurora Dourada, a extrema direita grega. É uma vitória retumbante (na presidência, no Senado e na Câmara dos Representantes, gerando um poder imenso e enorme). Um triunfo esmagador da intolerância, do preconceito, do racismo e da xenofobia.

Vencem de forma arrasadora a raiva anti-sistema e anti-políticos, a alienação, o ódio, o desrespeito, a desconsideração, a agressividade. Com um papel não determinante, mas importante, da ignorância. E do medo irracional (nem se percebe bem de quê). Bem como do ódio.

Medo, ódio e (alguma) ignorância, junto com um sentimento de desprezo pelos outros, de irresponsabilidade e de que não há nada a perder. Aí está um composto sólido e poderoso, quase palpável. Que está a tomar conta da humanidade e a espalhar-se por todo o Ocidente, a começar pela Europa. Bem vindos a 1939.

Tempestade de Trump

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Interessa-nos o que se passa lá do outro lado do Atlântico, sim. Os Estados Unidos são a maior potência militar do Mundo, e uma das duas maiores potências económicas do Planeta.

Ganhar Hillary ou Trump é a mesma coisa? Hillary é uma representante do mundo democrático, civilizado, onde existem relações normais entre pessoas que se respeitam e defendem a liberdade de expressão, de imprensa, de escrita, de pensamento.

É alguém que não vai ficar indiferente aos apelos e dificuldades das minorias de todos os tipos. Não vai esquecer a classe média nem a classe mais desfavorecida, espera-se. Não esquecerá a herança do Partido Democrata, de Bill Clinton e de Barack Obama, que prestaram atenção aos que têm muito pouco ou nada. Também é a mulher do sistema, de Wall Street, dos milionários e da falta de transparência? E Trump?

Trump é o homem que é apoiado pelo Ku Klux Klan, pela extrema direita, pelos brancos racistas e extremistas do Estados Unidos. Passou todos os meses da campanha a mentir aos norte-americanos e ao mundo, sem ser suficientemente desmentido pelos órgãos de comunicação, que, deslumbrados com o espectáculo da estupidez de Trump, fizeram com que este fosse um candidato presidencial possível.

Todos os dias inventava uma mentira sobre os democratas, Hillary ou Obama. No dia suficiente desmentia tudo, dizia que não disse o que disse. Promete atacar e perseguir imigrantes, muçulmanos, mulheres, deficientes, todas e quaisquer minorias sociais, económicas, sexuais, étnicas, religiosas.

É um candidato a ditador eleito, amigo de ditadores eleitos, como Putin. É um brutamontes, um troglodita, a quem muitos brancos racistas e extremistas (e não só) admitem oferecer o poder de carregar no botão nuclear. Um candidato a ditador totalitário e extremista num mundo onde estas figuras proliferam hoje. Imaginemos um planeta com ditadores, eleitos ou não, nos Estados Unidos, Inglaterra, França, Alemanha, Rússia e China. Hoje, estamos a um passo de isso acontecer. Não vimos uma coisa parecida com isto há sete décadas?

O sucesso de figuras extremistas como Trump, Marine Le Pen, Nigel Farage, Viktor Órban, Frauke Pétry (Alternativa Para A Alemanha, partido extremista anti-imigração) é algo que podemos agradecer aos políticos moderados de esquerda e de direita do Ocidente. Durante estes últimos setenta anos de paz, preocuparam-se em construir e arranjar a sua vidinha e os seus lobbies, e enriquecer à conta da política.

Depois de ter sido construído na Europa o Estado Social, um lugar onde todos se sentem protegidos e querem viver, a ganância dos gigantes empresariais internacionais e das multinacionais da banca e da finança, com a incompetência e interesseirismo dos políticos, e a libertinagem económica descontrolada (o lado negro do capitalismo) destruíram esse Eldorado em que vivemos durante alguns anos.

A globalização, a recessão, o desemprego, as crises económicas, bancárias e financeiras, e a forma como os poderes económicos que as provocaram foram apaparicados pelos governos e pelos políticos, fizeram o resto. O inferno que se abre à nossa frente foi laboriosamente construído e acarinhado pelos poderes económicos e políticos ocultos que mandam verdadeiramente em nós e na realidade.

A voz da Cristina

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Sentava-se num lugar pouco exposto da sala e não se esforçava por dar nas vistas. Tinha o seu quê de tímida mas conversava fluente e agradavelmente sobre o que quer que fosse, aquela miúda de feições asiáticas e olhos rasgados.

Além disso, a Cristina dividia com a Carla os créditos de melhor, mais inteligente, mais aplicada e autora dos resultados mais elevados. Quando os outros enfrentavam dificuldades extremas, era com elas que iam falar e nunca ficavam mal servidos. Certas matérias não eram pêra doce, e exigiam a intervenção de cérebros finamente calibrados.

Depois desses anos, ainda falámos umas poucas de vezes. Ao contrário do resto do pessoal, não quis nada com o estágio da RTP. Não era a cara dela, embora fosse dona de um rosto cativante e de uma dicção agradável. Os voos dela seriam outros.

Acordo a ouvir uma manifestação de imigrantes, com pronúncias, religiões e etnias de todas as partes do Mundo, que entoam, num inglês carregado de sotaques, o seu apoio incondicional a Donald Trump, junto à torre do magnata do imobiliário.

No meio desse coro entusiástico, bizarro e quase enlouquecido (“Trump, Trump, Trump!!!”), escuto a voz da Cristina. O contraste é arrepiante. Esta repórter de elite destaca-se e triunfa no mundo das notícias com a sua voz calma, serena, tranquila, como um riacho fresco e suave que se dirige a um mar tumultuoso.

Há décadas que acompanho a Rádio da Informação, que, junto com O Meu Jornal cheio de infografias e artigos de opinião e análise, são a minha bússola para o mundo. Há uma porção de anos que a Cristina está lá, como jornalista, editora, repórter…

Todos os dias, num planeta noticioso de stress, ansiedade, loucura, histerismo e demagogia, a voz dela continua a ser um clarão de tranquilidade. Se a Cristina estiver no meio de um comício de apoiantes extremistas, exaltados e loucos de Trump ou de Marine Le Pen, vamos poder sempre contar com a calma dela.

“Olá! Temos um convidado vegetariano no grupo”…

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Olá! Olhe, nós queríamos comer aqui. Mas há uma questão. Temos uma pessoa vegetariana no grupo. Seria possível fazerem uma salada, mista e variada? Já agora, têm feijão frade?”. “Sim, sim, sem qualquer problema”, responde o empregado brasileiro do Rei dos Frangos da Fonte da Telha.

Era um almoço de celebração, e o restaurante foi escolhido pela aniversariante, dada a localização privilegiada e inspiradora. Algum tempo depois, junto com os pratos escolhidos pelos convivas, o pão, as azeitonas e o vinho, chegou a tão aguardada salada.

Feijão frade, batata cozida, cenoura, bróculos cozidos, cebola, tomate, alface, pimentos, maçã, milho, laranja. O prato mítico e tremendamente nutritivo foi regado com o tinto da casa e sepultado com uma magnífica e diversificada salada de frutas.

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Aqui está uma prova de que alguém que não come produtos com substâncias de origem animal pode passar muito bem por uma celebração familiar sem sofrer qualquer tipo de contrariedade.

Mas quem decide abolir a carne, o peixe, os ovos e os lacticínios pode encontrar outras dificuldades, a não ser que se previna contra elas.

Por exemplo, a falta de vitamina B 12, essencial à produção de glóbulos vermelhos e às funções neurológicas. A vitamina B12 encontra-se em pães integrais com multi-cereais, cereais integrais, algumas barras energéticas integrais, soja, leite de soja, bebidas de arroz, de amêndoa ou de coco; e amêndoas.

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Também o ferro fará falta a vegans e vegetarianos restritos. É necessário ao sangue, ao crescimento, ao desenvolvimento, ao metabolismo e ao funcionamento celular.

O ferro dos alimentos vegetais não é tão bem absorvido como o da carne, pelo que quem não a come precisa de maiores quantidades deste nutriente.

Além disso, deve ser misturado com alimentos que tenham vitamina C, para facilitar a absorção. Podemos consumir ferro em vegetais de folha escura: espinafres, acelgas, couve galega, couve de folhas, quinoa, cevada, triguilho, arroz integral, os infindáveis tipos de feijão que existem; ervilhas, lentilhas, frutos secos ou em passa (pêssegos, ameixas, damascos, passas de uvas), cereais integrais e diversificados (alimentos com multi-cereais) e arroz.

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A vitamina C que favorece a absorção do ferro está na laranja, no limão, na toranja, no tomate, nos pimentos e nas bagas (amoras, mirtilos…).

Temos também a questão do cálcio e da vitamina D. Para que os ossos não fiquem com falta de cálcio, a solução está nos vegetais de folha escura, como espinafres, couve galega, bok choy, nabo, mostarda castanha (uma espécie de planta com aspecto de couve), bebidas e iogurtes integrais de soja, amêndoa e coco; amêndoas; alimentos à base de soja integral como o tofu, sumos naturais e integrais de multi-frutas e multi-vitaminas; e feijão de vários tipos.

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A vitamina D está incluída em cereais integrais, sumos integrais e multi-vitaminas, bebidas integrais de soja e cogumelos de vários tipos, como os shitake, os portobello e outros.

Sem comer peixe, ficaríamos privados dos cruciais ácidos gordos Omega-3, que um bom funcionamento cardíaco exige terminantemente… Existem nos alimentos vegetais, mas não são eficientemente processados pelo nosso organismo, pelo que precisamos de quantidades maiores.

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Para isso, necessitamos de sementes chia, sementes de linho, nozes e alimentos feitos a partir de micro-algas.

O zinco é solicitado pelas funções celulares, o sistema imunitário, o estancamento de feridas, crescimento e desenvolvimento. O regime alimentar de um vegetariano reduz a absorção de zinco. Assim, o nosso corpo vai pedir-nos muitas leguminosas (os vários tipos de feijão e grão), nozes, cereais integrais e alimentos de soja, como tofu e tempeh.

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Para obter os nutrientes necessários, nomeadamente vitamina B12 e vitamina D, compre produtos cultivados naturalmente, ao ar livre, caso contrário é provável que esses elementos não estejam presentes nos alimentos referidos. Também deve pedir ao seu médico de confiança análises e aconselhamento sobre a toma de suplementos.

“Não é preciso! Ele está bem!”

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Ão, ão, ão, ão. Caííínn!! Caííínn!! Ããoooo!!”. É um cachorrinho acinzentado, amoroso, com escassos meses, lenço azul ao pescoço. No Sábado, os meus vizinhos do prédio do lado decidiram trazê-lo para casa – imagino que o tenham comprado.

Não sei como se chama este companheiro canino meigo e bonito. Até descobrir o nome dele vou imaginar que foi baptizado de Gogol. Mas com a vinda de Gogol para esta morada começaram os problemas. Para ele.

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É um cachorro, um bebé. Alguém que precisa de mimo, atenção, espaço, companhia e brincadeira. E que ainda deve estar a sentir muito a falta da mamã canina.

Pois os seus novos donos começaram por deixá-lo totalmente sozinho, dia e noite, no terraço, dentro de uma vedação e atado a uma trela – preso, movimentos restringidos. O pobre Gogol passou os primeiros dias e noites a chorar, a ladrar, a ganir e a lamentar-se, sem parar.

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Ao fim de alguns dias, os humanos que decidiram mandar nesta vida inocente optaram por deixá-lo, durante parte do tempo, circular pelo terraço, em vez de ficar fechado dentro da vedação e preso.

Já passaram cinco dias. O pequenote já não chora tanto. De vez em quando cansa-se, farta-se, resigna-se e pára. O que é facto é que não vejo os donos brincar com ele, dar-lhe atenção, levá-lo à rua. E esta gente (quando os oiço falar percebo que são dondocas endinheirados) já tem um historial. São reincidentes.

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Há quatro anos, quando vim para esta casa, tinham um cão. O Visconde. O Visconde era grande, bonito, carente e velhinho. Reservavam-lhe exactamente o mesmo tratamento que proporcionam hoje ao desgraçado Gogol. Andava doente, desesperado, tossia sem parar, passava as noites nisso e a ladrar.

Daqui desta casa, os donos até receberam ofertas de ajuda: Se era preciso alguma coisa, se precisavam de auxílio para levá-lo ao veterinário. “Não, não, não é preciso! Ele está bem! Ele está bem”. Claro, tão bem que rapidamente se foi embora deste Mundo e já não se encontra entre nós. E o pequeno, doce e amável Gogol? O que vai ser da vida dele?

“Esses ilegais usam os nossos hospitais e as nossas escolas!”

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O homem, um quarentão de óculos, entradas no cabelo castanho e barriga ligeiramente proeminente, muda de ideias e acaba por se sentar, afinal, no banco do lado. Um papel azul sobre os estofos escuros diz “reservado”. A colega, ou amiga, ia para escolher um dos lugares errados, mas ele alerta-a a tempo. “Então, não vês que esses estão reservados?!”.

Os dois riem-se, olhando para os pequenos papéis azuis e rectangulares espalhados pela carruagem. Mas depois pegam nos restritivos avisos e abrem-nos. Algum tempo depois, começam a perceber.

Os passageiros foram apanhados de surpresa pela campanha contra o tráfico de seres humanos, mas a verdade é que em Portugal há, pelo menos, 1400 vítimas desta actividade. Estas pessoas são alvo de exploração sexual, laboral, extracção de órgãos e escravidão e são usadas para mendicidade e actividades criminosas.

Pensando na Europa em geral, três quartos dos imigrantes e refugiados que conseguem sobreviver e entrar neste Velho Continente são intensamente explorados até fazê-lo. Ser raptado, permanecer em cativeiro e ser obrigado a trabalhar como escravo é o que enfrentam.

Viagens pagas com os seus órgãos ou com doações forçadas de sangue são uma situação recorrente, de acordo com a Organização das Nações Unidas e um artigo de Outubro de 2016 do jornal Público. É por tudo isso que passam até conseguirem entrar nesta bolha dourada em que vivemos.

Um português candidato, nas eleições norte-americanas de Novembro de 2016, a um cargo administrativo, oferecia aos repórteres da TSF durante a campanha as seguintes declarações: “Aqui no nosso Estado, há milhares de ILEGAIS que entram todos os anos! Esses ILEGAIS usam os  nossos hospitais, as nossas escolas, os nossos serviços de saúde, os nossos serviços públicos! É preciso fazer alguma coisa!”, vociferava este votante declarado e assumido de Trump. Quem estivesse ligeiramente desatento nem perceberia que este imigrante transformado em político estava a referir-se, na realidade, a pessoas. A seres humanos.

Em Inglaterra, por alturas do referendo do Brexit, pululavam pérolas do mesmo calibre. Nas redes sociais, pessoas que estavam no Reino Unido havia um ou dois anos, imigrantes, diziam ser contra a imigração e a favor da saída da Grã Bretanha da União Europeia. Queixavam-se de que o território britânico, o seu país, portanto, estava cheio de imigrantes…

Quando as pessoas, em poucos minutos, se esquecem de que são pessoas, de que os outros são pessoas… Quando não têm noção e memória do que são e do que foram (imigrantes, por exemplo)… Quando já não se lembram que somos todos iguais, todos seres humanos, todos elementos da mesma espécie, que todos nascemos, vivemos, morremos, respiramos, comemos, amamos, choramos e temos as mesmas necessidades, carências e fragilidades… Quando se deixa de ter consciência disso, então, tudo passa a ser possível.