Eram semelhantes a ele próprio e aos outros homens

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O senhor ralhou com o cocheiro por não ter ultrapassado a tempo a caravana, enquanto a senhora franzia os olhos e fazia uma careta de repugnância, protegendo-se do sol e da poeira com a sombrinha que colocara de encontro ao rosto”. Rússia, 1899, retratada por Tolstoi em A Ressureição. O horror da dama, acompanhada pelo senhor e pelos dois filhos, é provocado pela passagem do cortejo dos condenados, que se dirigem para a prisão onde passarão os próximos anos da sua vida.

Vários morrerão pelo caminho, dada a forma como são tratados pelos guardas, cuja última preocupação no mundo seria o seu bem estar. Muitos condenados inocentemente, outros vítimas da sociedade de classes czarista, onde o povo não tem direito nem à propriedade nem a algo a que possa verdadeiramente chamar-se existência.

Após a passagem dos condenados, nem o pai nem a mãe deram aos seus filhos a menor explicação sobre o que tinham visto.

Assim, tiveram que descobrir por si próprios o significado daquele espectáculo. A menina, julgando pela expressão do rosto de seus pais, resolveu o problema dizendo a si própria que aqueles seres eram de uma espécie muito diferente da dos seus parentes e amigos, que eram maus e por isso deviam ser tratados desse modo”.

O rapazinho encontrou outra explicação. “Sabia de maneira firme e indubitável que esses seres eram absolutamente semelhantes a ele próprio e aos outros homens e que, por consequência, lhes estavam fazendo mal; sentiu compaixão e terror tanto pelos seres acorrentados e de cabeças rapadas, como pelos que os tinham reduzido àquele estado”.

Pouco mais de cem anos depois, a forma como, não longe dali – na Húngria e noutros países do Leste da Europa – estão a ser tratados os refugiados e imigrantes, que, como muitos dos condenados do czarismo, também não cometeram qualquer espécie de crime, torna fácil a comparação.

Mas é só um dos paralelos possíveis. Quando o senhor e a dama, nos tempos actuais, passam na Avenida da Liberdade, dentro do seu BMW X6 de vidros fumados, conduzido pelo motorista, com o seu filho e a sua menina a bordo, e vêem o homem de roupas velhas, de barba e cabelo comprido, o olhar perdido no infinito, à espera de quem lhe dê uma sandes ou uma moeda ou um café, o que dirão aos seus meninos?

Ou, mesmo que não digam nada aos pequenos, o que dirão os seus olhos e os seus rostos? Que interpretação fará a pequena, que vê o mundo pelos olhos dos pais e considera verdades absolutas tudo o que sai dos seus lábios? O que pensará o rapazinho, que aprendeu, desde cedo, a olhar para a realidade à sua volta com os olhos do coração, não se deixando levar por aquilo em que gostariam que ele acreditasse?

Tudo é relativo

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Íamos ali quase todas as semanas, os três, eu, o J e o L, os meus dois amigos de adolescência e juventude. A Casa da Cultura dos Trabalhadores da Quimigal, para nós, não era a Casa da Cultura dos Trabalhadores da Quimigal. Era O Cinema. Lá vimos o Rambo, O Exterminador Implacável, O Regresso Ao Futuro, A Ilha das Cabeças Cortadas, tantos e tantos grandes clássicos do cinema de que toda a gente, ou quase, se lembra.

Quando levávamos a prima do J, era do melhor. A miúda era a nossa “mascote”, e, com ela, fazíamos entredentes a crítica social da malta que ia chegando enquanto a sessão não começava.

E a língua dela era bem afiada. “Olha para aquele, com aquele cabelo, parece sei lá o quê!”. “E aquela, com aquela saia?! Mas de onde é que aquilo saiu?!”.

Havia outra coisa que fazia parte do ritual semanal. Eu e os meus dois amigos observávamos, atenta e intelectualmente, os painéis de arte estalinista e semi-surrealista (o estalinismo era bem visto naquela terra e naquela época) que compunham as paredes.

E cada um de nós, estudando as caveiras, as armas, a guerra, a marcha dos povos e dos exércitos, disparava a sua sentença. “É isto!” “Não! É aquilo!” “Nã, nã, não é nada disso, significa isto e isto, assim e assado”.

Um belo dia lá estávamos os três, e vira-se de  repente o L: “Finalmente já consegui perceber os paínéis! Já sei o que significam!!”. “Humm?!” – ficámos os dois de boca aberta a olhar para ele, à espera para lhe cair em cima e arrasar a avaliação dele. Mas não foi nada disso que aconteceu… “Então?! O que significam?!”. O nosso querido amigo responde, deixando-nos claramente sem espécie alguma de argumento: “Tudo é relativo”.

6 500 quilómetros a pé

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Sete homens e uma rapariga percorrem a pé a Sibéria. Atravessam o lago Baikal, a algumas centenas de quilómetros de Krasnoyarsk. Caminham pelos montes Kentei e aproximam-se da Mongólia, durante a Segunda Guerra Mundial.

São prisioneiros evadidos de um campo de trabalho soviético na Sibéria. A jovem é uma refugiada da guerra que atinge o mundo e a União Soviética, incluindo a sua Ucrânia natal.

Atravessam juntos o terrível e assassino deserto de Gobi… Estamos na década de 1940, e este grupo não tem praticamente nada a não ser as mãos e o engenho, que lhes permitem ir arranjando comida de vez em quando. Sempre a pé, passam pelo Tibete e pelo Butão e percorrem os Himalaias.

Aproximam-se do Paquistão Oriental e os seus pés levam-nos até à Índia Britânica, o seu destino final, o único onde os ex-prisioneiros do campo soviético estariam a salvo dos russos.

Durante um ano, as suas pernas transportam-nos ao longo de mais de 6 500 quilómetros. No final desta viagem infernal de libertação, apenas quatro sobrevivem. Incluindo Slavomir Rawicz, autor do livro autobiográfico Rumo à Liberdade, que inspirou o filme de Peter Weir com o mesmo nome, em que entram Colin Farrell, Ed Harris e Saoirse Ronan, em 2010.

Slavomir, polaco, foi enviado para o campo de trabalhos forçados apenas por causa da sua nacionalidade. Os soviéticos inventaram acusações de espionagem contra ele, interrogaram-no e torturaram-no durante várias semanas, drogaram-no, tentaram arrancar-lhe uma confissão forjada e deportaram-no.

Depois da sua viagem a pé de um ano e 6 500 quilómetros, que arruinou a saúde dos quatro sobreviventes e lhes retirou uns bons anos de vida, Slavomir, que já tinha feito a “sua” guerra, decide regressar à Polónia, voltar ao seu exército e continuar a combater a Alemanha nazi…

Este é o tipo de obstinação humana que sublinha que somos capazes do melhor e do pior. E este tipo de história, em ambiente de guerra e ditaduras, é, também, actualíssimo hoje.

Em Inglaterra temos um governo xenófobo e de tendências fascizantes, que quer saber quantos estrangeiros há no país. Na Rússia e Turquia, ditadores eleitos que esmagaram a oposição para continuarem a fazer-se eleger.

Na China, uma ditadura, comunista de nome e selvaticamente capitalista na prática. Nos Estados Unidos, que deixaram de contar verdadeiramente para a política internacional, o vírus Trumpeteiro infectou gente suficiente para ter uma candidatura presidencial. Na França e Alemanha a extrema direita aumenta a influência e aproxima-se mais do Poder.

Os camones não andam de táxi

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Hey! Hey! Oh! Oh! Ah! Ah! Hey!”. Do outro lado da rua, meia dúzia de jovens saudáveis e bem constituídos vai soltando pequenos gritos de incentivo, enquanto, em roda fechada no pequeno pátio do prédio, vão atirando uns aos outros e apanhando no ar várias bolas de râguebi, tantas como eles.

Agarram com a mão, chutam com o pé, saltam no ar, esticam-se para alcançá-las. O ruído distrai, momentaneamente, quem está alguns andares cima, levando a satisfazer a curiosidade e espreitar pela janela para ver o que se passa ali embaixo. São estrangeiros, não se percebe bem de onde.

Estou a viver em Lisboa há cinco anos, e a cidade encontra-se totalmente repleta de “camones”, tuk-tuks, carrinhos eléctricos, trotinetes, passageiros de cruzeiros, excursões, guias e visitas guiadas. Isso não me chateia nada. Sou a favor do turismo, das poucas actividades económicas que sobrevivem em Portugal. Defendo o turismo de massas e o turismo das elites, em coexistência harmoniosa e benéfica no mesmo país.

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Não acho que só deva existir turismo de pé descalço, como o que eu fazia quando fazia algum, nem apenas turismo de elites. Há lugar para tudo e tudo faz sentido. E o país não deve ser só para turistas. Em menos de dois anos, foi anunciada a construção de mais de 200 hotéis em Lisboa. No mesmo espaço de tempo, quantas habitações sociais e prédios de rendas com custos controlados foram construídos em Portugal?

Também tenho visto as filas de turistas a engrossar no metro. O metro de Lisboa está o raio do caos e a pura da confusão. E pergunta-se: Quem é que despediu 45 funcionários do metro, enquanto a sua rede passava dos 12 quilómetros para os 40, as carruagens atingiam os 25 anos e a máquina responsável pelas reparações os 41? Os extraterrestres? Este Governo, que ainda só lá esteve o tempo suficiente para aprovar um Orçamento do Estado? Não, não foram os marcianos nem este Governo que come criancinhas. Foi o Governo anterior.

Também reparo que os simpáticos e alegres camones andam de tuk tuk… E de Uber. Ora bem, se há serviços de transporte automóvel que cobram para transportar uma pessoa de um ponto para outro, como fazem os táxis, esses serviços devem estar sujeitos a regras e impostos, como os táxis.

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Mas, entre todas as pessoas que já andaram de táxi na vida, quem é que ainda não teve uma má experiência? Ou várias? Poder-se-ia dizer o mesmo em relação aos serviços da Uber?

Pense-se noutra coisa. Como é que uma parte dos taxistas e dos seus representantes defendem os direitos que conquistaram e adquiriram legalmente ao longo dos anos? Com insultos, ataques, agressões, ameaças de violência e de morte.

O sector do táxi, como outros, é uma corporação, um lobby, um grupo de interesse. Construiu, conquistou e assegurou os seus direitos e o seu estatuto ao longo dos anos. Luta por eles e não quer perdê-los. E a forma como luta, e, por vezes, como trata os clientes, mostra uma coisa. Consideram-se acima da lei e do controlo democrático. Acreditam que são uma aristocracia à parte e que ninguém pode tocar-lhes.

Tenho cinco telefones

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Há pouco mais de meia década, a minha então namorada tinha um i-phone. Sempre critiquei o excesso de tecnologia na sociedade e nunca resisti a um bom dispositivo tecnológico. Nas viagens passava o tempo a brincar com o dela.

Lia o Facebook página a página como um livro. Ninguém fazia isso. Mais tarde sugeriu-me que um i-phone 3gs por 50 euros era uma boa compra. Era. Segui o conselho. Durou quase seis anos, e, nos primeiros, contribuiu para a minha felicidade.

Este ano deixou de fazer tudo, incluindo enviar mensagens, e permiti que se libertasse desta breve passagem que a existência é.

Exalou o último suspiro, a luz que iluminara o livro da sua vida brilhou ainda por alguns instantes e depois extinguiu-se para sempre. Entregou a alma ao criador.

Comprei um smart-phone por cento e tal euros. Como smartphone é razoável. Como telefone, é uma contrariedade. A seguir a ser comprado foi três vezes para a assistência, mas as pessoas a quem ligo continuam a não me ouvir.

Depois, a Animalife ofereceu-me um pequeno smartphone, prático, estreito e maneirinho, para que colabore mais facilmente com o seu departamento de comunicação. Faz sentido.

Como telefone até funciona bem, quando, ao fim de cinco minutos, o processo de se ligar termina, e, depois de mais dez, deixa aceder ao teclado virtual. Como smartphone é muito, muito, muito, muito lento.

Também “herdei” um velho Nokia, cuja bateria dura um dia, mas que funciona espectacularmente como despertador. E tenho, ainda, o telefone fixo. Que não uso.

Nos é tramado

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“Oh, senhôra, ainda não ligaram a televisão!”.

“Sim, eu disse-lhe que eram 48 horas”.

“Então vão ligar hôje?!”.

“Deverão ligar até ao fim do dia, sim. É até 48 horas”.

“O quê?!? Eu vou ficar o dia tôôdo sem nada p’rassijtir?!”.

A situação é dramática, mas não é a única. Um pouco mais à frente, há uma mulher que tem outra bem mais complicada.

“Ouça, eu tenho um contrato da Nos na minha casa, mas não está em meu nome. Está em nome de uma mulher que vive na Austrália, e eu quero cancelar o contrato. Há dois meses, disseram-me, aqui na Nos, que tinha que deixar entrar em incumprimento durante dois meses, e só nessa altura é que conseguia cancelar – e pagar a dívida de dois meses de um serviço que não está a ser usado por ninguém há dois meses, porque não me deixam cancelá-lo”.

“Pois, mas nós não lhe podemos cancelar o contrato, apesar de o serviço estar instalado na sua casa. Tem que ser o titular do contrato a pedir o cancelamento e assinar. É uma questão de segurança”.

“Isso é uma perfeita estupidez. Ela foi para a Austrália, não vai voltar, isso não vai ser possível. Além disso, há dois meses disseram-me que era possível cancelar o contrato”.

“Mas não é possível.”.

“Que estupidez. Então, o que vai acontecer? E essa dívida?”.

“Ah, mas não se preocupe. Se não está em seu nome, não tem que se preocupar. Não é você que está em dívida, é essa outra pessoa”.

“Mas ninguém está a usar esse serviço. Porque raio é que tem que ser gerada essa dívida?!”.

“Volte daqui a um mês. Entretanto, não pague, senão o contrato nunca vai ser cancelado. Ao fim de três meses de dívida, já é possível cancelar”.

“E a dívida?”.

“Bem, se quiser mesmo, mesmo pagar, pode pagar em várias vezes. Não precisa de pagar tudo de uma vez”.

“Bom, está bem. Eu volto daqui a um mês. Sempre quero ver o que me dizem daqui a um mês”.

“Então um bom dia para si!”.

“Igualmente”.

Os meus primos filipinos

Manila city, Philippines - Jeepney busses -  photo by B.Henry

O meu tio decidiu publicar umas imagens da sua casa, para que toda a gente pudesse apreciar a qualidade dos aposentos. Como tenho a mania de me meter em tudo, fui colocar lá uns comentários, como “Mona Lisa a beber um copo no bar”, ou “tudo muito bonito, excepto o Presidente”.

Fui prontamente cilindrado e muito activamente posto na ordem pela generalidade dos seus amigos facebookianos. O meu tio vive nas Filipinas, tal como todos os elementos da sua nova família.

Perante os primeiros comentários de tristeza e frustração, perguntei: “Então, o Presidente das Filipinas não é Rodrigo Duterte, acusado de mandar matar inúmeras pessoas quando era autarca, e que se prevê que faça o mesmo na presidência do país”?

Os meus “primos” indirectos naquela nação asiática disseram-me que amam absolutamente Duterte. Que este Rodrigo com falta de bom humor tornou o país seguro. Que eu serei muito bem-vindo naquele território e até posso usar o aeroporto, agora que ele já é tranquilo e não há esquemas criminosos.

O meu tio confirmou-me que todos estes familiares são apoiantes extremamente fervorosos do homem que está agora aos comandos do território. Que todos fizeram campanha por ele.

Aqui, fala-se bastante do facto de, enquanto Presidente da Câmara de Davao, ter promovido e defendido o extermínio de traficantes de droga e toxicodependentes.

O meu tio disse-me que a visão dos órgãos de comunicação ocidentais não é totalmente exacta. Que a grande maioria das mortes resultou de lutas internas no mundo do crime. Que os filipinos tinham um problema de segurança muito grande, e, com este presidente, deixaram de o ter.

Acrescentou que este mandato presidencial está a ser muito polémico, e muitos gostariam de derrubar o Chefe de Estado. E relacionou isso com o facto de muita gente poderosa da economia e da política ter beneficiado largamente, durante anos, do tráfico de droga, dos raptos e outros crimes relacionados com as substâncias ilegais, até Duterte chegar ao poder em Davao, e depois em todo o país, e acabar com isso.

Sublinhou que os toxicodependentes e traficantes que têm estado a ser mortos “eram criminosos”, e, por isso, a maioria dos filipinos está feliz com este dirigente político, que estaria a arriscar a vida enfrentando os senhores da droga e do crime.

A nossa conversa decorreu algumas semanas antes de uma das últimas declarações de Duterte que foram reproduzidas pelos órgãos de comunicação ocidentais: Teria falado em três milhões de judeus mortos pelo regime nazi na Segunda Guerra Mundial (na verdade, foram seis milhões), afirmando que ele próprio também gostaria de pôr fim à vida de três milhões de toxicodependentes nas Filipinas.

A língua que os gatos falam

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Não consigo parar de ver” é a legenda de um vídeo em que dois gatos amorosos falam, conversam, comunicam, dialogam e debatem durante vários minutos, como se fossem humanos a discorrer sobre o jogo de futebol da jornada do fim-de-semana.

Ainda não apanhei os meus gatos a recorrer ao discurso felino com tanta fluência e naturalidade entre eles. Normalmente, trocam as suas impressões entre si de uma forma mais directa e menos complicada.

Um simples “uen”, uma cheiradela um ao outro, um “mnheeu”, umas lambidelas (muitas vezes nas nádegas uns dos outros, sem grandes distinções mas com alguma fixação colectiva no traseiro da Amélinha, a “Gááta!”), chegam-lhes para transmitir o que têm a dizer uns aos outros.

Mas quando se trata da comunicação deles comigo, já é muito diferente. O Jeremias entoa eternamente as suas Jeremíadas. O meu lindo lince gato-cão está sempre a lamentar-se de alguma coisa, de noite e de dia. Quer mais mimos, mais atenção, mais da minha presença directamente junto dele (com ele generalizadamente espalhado por cima do meu corpo), mais comida, mais guloseimas. “Ueeen, ueen, ueen, uoon, ueen, uoon”.

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A Matilde, ao acordar, dá-me o seu “mnheeu” carinhoso de bons dias. Se no caso das fêmeas humanas será uma ofensa dizer que o seu lugar é na cozinha, quando falamos da Matilde é apenas uma realidade. E quando vou ter com ela aos seus domínios femininos, entre tachos, panelas e fogões, oiço os mesmos “mnheeu” igualmente carinhosos, enquanto anda atrás de mim e se roça nas minhas pernas. É também esse som que pronuncia, até ficar sem voz, quando lhe preparo a medicação… Com o belo do patê, uma bem-vinda variação em relação à ração sempre igual.

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No caso da Amélinha, a “Gáta!”, a sua ligação é a de alguém que, aos dois meses, decidiu ser especificamente minha. Sempre que passo por ela tenho direito aos dedicados “mnhau”, “mnhau-mnhau”, “mnhau-mnhau-mnhau”, os “uhm”, “ihm”, que se tornam bem mais intensos se lhe tocar, mesmo só com a ponta do dedo. Se lhe pego ao colo (acontece uma 30 vezes por dia), oiço o contínuo e ininterrupto “rrrrrrrrrr” de prazer, protecção e satisfação.

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O Chiquinho, o meu Chiquinho, é um pequeno ser dotado de profunda inteligência e sensibilidade. Tem uma conexão intensa e única com o humano que o trouxe da rua e lhe deu uma casa, amor, carinho, conforto e todos os cuidados médicos necessários.

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A língua que o Chiquinho fala é particularmente elaborada e humanizada. Se ele acha que tem menos um segundo de atenção do que a necessária para os seus elevados e exigentes padrões, se pensa que já devia estar a comer de novo e não está, se considera que lhe estou a dever umas dezenas de festinhas e miminhos de que está à espera há uns minutos…

Segue-se uma conversa felino-humana, repleta de amor, queixumes e admoestações, dele para mim. “Miaaaau”! Mia-a-a-a-a-a-a-a-a-a-a-a-u!!!!!!”! “Miaaaaaau”! Isto durante umas dezenas de segundos. Faço-lhe umas boas festinhas, massajo-lhe a barriguinha, pego nele ao colo (com os anos foi começando a permitir isso, e até a deixar-se ficar por um bom bocadinho)…

Vou respondendo em tom suave e reconfortante. “Sim, Chiquinho, sim, sim. Pronto, já passou, já passou, meu amor. Pronto, pronto!”.

Esta é a língua que os gatos falam.

Os príncipes que sobreviveram a tudo

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Cheguei lá a casa, a um lugar que pouco conhecia e onde não era familiar. Mas a Matilde, para quem eu também era um estranho, veio pôr-se ao meu colo e ali ficou. Alguém me disse: “Deves ser muito boa pessoa, ela não faz isso a ninguém”.

Comecei a ir mais frequentemente a essa mesma casa, e também a dormir lá. Logo desde as primeiras vezes em que apareci, o Jeremias vinha sempre ter comigo, cheirar-me, conhecer-me, agradado com a presença de mais um humano divertido e descontraído por ali.

Quando passava lá a noite e ia correr na manhã seguinte, especialmente se chovia e se eu transpirava muito, ele deliciava-se totalmente a cheirar as minhas roupas depois do treino, a esfregar-se e a enrolar-se nelas durante uma meia hora. Adorava mesmo aquilo.

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Mais tarde, durante os anos em que vivemos todos juntos, o Jeremias e a Matilde tiveram que aceitar, à força, o Chiquinho – que, onde quer que chegue, assume sempre que tudo e todos lhe pertencem, e a mais ninguém.

Para a Matilde, mais tímida, reservada e assustadiça, foi difícil. Tão difícil que, durante muito tempo, ela alargava esse medo que lhe tinha: Estendia o receio à minha pessoa, o dono do Chiquinho, e não me deixava aproximar muito.

Quando nos divorciámos e a dona de sempre do Jeremias e da Matilde teve que emigrar, não foi fácil. Os dois príncipezinhos cinzentos sofreram. O Jeremias andou adoentado, a Matildinha ainda mais isolada e quieta do que de costume.

Quando esta rapariga gentil que fez parte da minha vida e será sempre minha amiga vem a Portugal, há uma paragem prévia antes de ver a mãe e os amigos. Vem ansiosamente a Santa Apolónia encontrar o Jeremias, a Matilde, o Chiquinho e a Amélinha, a “Gáata!”. Que reagem, todos, como se tivessem passado, não anos, mas segundos. Algo que também mostra muito bem os gatos que estes gatos são.

Os anos foram passando e os meus pequenos monarcas adaptaram-se a tudo. Consideram-se profundamente meus, ou teorizam que eu lhes pertenço total e absolutamente.

O Jeremias adora vir para cima das minhas pernas, da minha barriga, do meu peito, das minhas costas, na cama ou no sofá. Esteja eu vestido e confortavelmente acobertado, ou nu e integralmente desprotegido. Gosta convictamente de estar em contacto directo com a minha pele. Aí está uma das coisas que ele faz e mais nenhum gato faz.

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A Matilde, ganhei o coração dela sem a mais pequena reserva, quando ela fez a operação e eu a acompanhei e protegi diariamente, todos os dias, mimando-a, reconfortando-a, ouvindo as queixas e os suaves e doces protestos dela. Agora esforça a vozinha fina para me chamar a atenção quando me vê, quando acordo, quando passo por ela, quando vou visitá-la ao seu domínio seguro, a cozinha.

Amanhã é o Dia do Animal, e o Jeremias e a Matilde fazem 10 anos. Sempre vos digo que esta coisa de a esperança de vida dos animais de estimação ser umas quatro vezes inferior à dos humanos é uma grande estupidez. Onde é que já se viu, que sentido faz isso? Se eles são os nossos companheiros, e nós somos os amigos deles, então…?!

Deixei de comer carne

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Deixei de comer carne (quase). Mas dentro de algumas semanas, esse quase já terá sido ultrapassado.

Tudo começou há duas semanas, quando apresentei o livro Cozinha 100% Vegetal e Saudável, da minha ex-aluna Carina Barbosa. Durante uma semana, estive a pensar no assunto.

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Porque é que eu continuava a comer animais? Porque é que eu continuava a pagar, promover e aprovar a morte, o sacrifício, o massacre, a tortura e o sofrimento permanente e absoluto de animais, para satisfazer o meu apetite, sem necessidade de o fazer?

Após uma semana de reflexão – no Sábado passado – tomei a minha decisão. Vou deixar de comer carne, peixe, leite, queijo, iogurtes, manteiga, lacticínios em geral, ovos e mel. Vou, também, esforçar-me para comprar o mínimo possível de produtos que tenham na sua composição substâncias de origem animal.

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Há muitas coisas que um não carnívoro pode comer, e a autora do Cozinha 100% Vegetal e Saudável e do Blogue Veggitable é a pessoa indicada para enumerar essa lista infindável. Mas além das clássicas saladas e das sopas podemos consumir tofu, seitan, os diversificados tipos de feijão (incluindo feijão verde), grão, ervilhas, lentilhas, favas, arroz, esparguete, batatas brancas ou doces, cogumelos, castanhas, dezenas de tipos de frutos secos, cereais, fruta, etc, etc.

Pelo meio também descobri o “Mac Donald’s” dos vegetarianos, um lugar onde servem uma dezena de hambúrgueres diferentes sem carne, peixe ou produtos de origem animal, dentro de outros tantos tipos de pão com as mesmas características e variedade. Pão de Tandoori, alfarroba, figo, beterraba… Com todos os hambúrgueres a preços não muito longe dos da referida catedral da fast food, todos totalmente e absolutamente deliciosos, tal como as sobremesas, acompanhamentos e bebidas, respeitando sempre a referida característica na sua composição: Sem substâncias de origem animal.

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Outra coisa… A minha mãe, que só não é vegetariana porque nunca conseguirá convencer a tal o meu pai, vai ser a minha maior aliada neste meu novo empreendimento. Até agora, mandava-me tupperweares com a comida que ela o meu pai comiam.

A partir da próxima semana, vai passar a mandar-me meia dúzia de preparados maravilhosos que, em vez de levarem carne ou peixe com o arroz, o esparguete ou as batatas, terão uma mistura de vegetais com grão, feijão, ervilhas, lentilhas, cogumelos ou algum outro alimento igualmente rico e proteico, no lugar do ingrediente carnal. Ao Domingo, quando for visitá-los, também serei recebido com esses pratos. Hoje já provei o primeiro, e era qualquer coisa de extraordinário!

Durante umas duas semanas, ainda vou estar a gastar as últimas refeições de carne que a minha mãe tinha feito para mim antes da minha decisão, que estão ali no congelador e que, para mim, não faz sentido deitar fora. Depois, adeus carne!