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“Não se pode falar ao telefone!”

O olhar passeia-se pela sala cheia e agitada. Instintivamente, o meu cérebro analisa as duas metades do espaço e identifico-me mais com os ocupantes que mostram um aspecto mais limpinho, mais cuidado e mais certinho. Como se não fizesse parte do grupo dos que têm a barba por fazer, uma camisola mais desmazelada, umas calças mais desleixadas.

Quando, na verdade, o meu estilo descontraído (ou “messy”, como diz a cantora portuguesa que divulga um novo penteado no Youtube) até é mais parecido com o deles. Para lá dessas aparências ilusórias mal interpretadas pela minha mente, somos todos exactamente iguais.

A rapariga nova, com um ar fresquinho e asseado que está ao meu lado tem um aparelho verde nos dentes, cabelos loiros bem penteados e apanhados, olhos claros e brilhantes. Atende o telefone… Uns metros ao lado, o segurança avisa-a de que não é possível utilizar telefones.

Brincando com ela, digo-lhe que os responsáveis do Instituto do Emprego devem achar que os desempregados estão numa prisão. Ri-se. A morena ao seu lado, cabelo e roupas escuras, igualmente jovem e bonita, olha para mim em concordância, sem largar o telemóvel.

Não se pode falar ao telefone, mas a campainha do meu messenger apita sonoramente com avisos e mais avisos e não há problema nenhum. Enquanto isso, o mais ou menos smart phone até tira umas fotos à sala. Com flash. Não se passa nada.

A funcionária modelo que me explicou tudo e mais alguma coisa sobre a aquisição, recepção e processo burocrático relativo ao subsídio de desemprego convoca-me. Tenho que entregar o meu cartão do cidadão… Que está desactualizado desde Julho. Apenas posso apresentar o pedido de renovação, e assim faço. Daqui a umas semanas regresso, com o verdadeiro, o legítimo – quando estiver pronto.

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