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Não há ambulâncias com filósofos

Passo por ele por volta das sete. É um rapaz negro, jovem, musculado, que faz lembrar os velocistas olímpicos. A esta hora da manhã, está sentado na calçada, pernas cruzadas, mãos a cobrir o rosto. Rodeio-o e tento perceber se se passa algo de errado.

Prossigo o meu caminho, em trote acelerado, e percorro uns tantos quilómetros. Quarenta minutos depois, no regresso a casa, passo exactamente pelo mesmo sítio.

O jovem continua lá, precisamente na mesma posição em que se encontrava há quarenta minutos. Sentado no chão, estático, uma perna sobre a outra, braços em torno da cabeça.

Interrompo a corrida. Aparece outra personagem masculina, igualmente jovem, branca, com aspecto e sotaque estrangeiro.

Falamos um com o outro, a tentar perceber se devemos fazer alguma coisa. Explico-lhe que não tenho comigo o telemóvel, para poder chamar alguém.

O visitante, talvez italiano ou francês, conclui que se nota que o jovem solitário está bem. Não está caído, não está adormecido, não está visivelmente embriagado: Está bem, não precisa de assistência médica.

Partimos desse princípio e afastamo-nos. E fico a pensar.

O homem misterioso estava fisicamente bem. Aliás, gostava muito de exibir a boa forma física dele. Mas não estava bem, não podia estar bem.

As pessoas que têm ataques, episódios de doença, quedas ou algo do género no meio da rua, normalmente, são assisitidas. Acaba por chegar um médico, um paramédico, uma enfermeira, um bombeiro, e esses seres humanos são socorridos.

Quando alguém está mal psicologicamente, triste, deprimido, ansioso, apático, sem interesse pela vida, perdido na existência, o que é que se faz? Não há ambulâncias com psicólogos, psiquiatras, filósofos, pessoas que estejam disponíveis para fornecer, de emergência, um ombro amigo, uma palavra de conforto, um caminho, uma ideia, um pensamento…

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