bolo

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Declaração de amor

Olhei para ti através da vitrine transparente, que deixava ver perfeitamente a tua beleza, e tudo o que te tornava irresistível. Namorei contigo, à distância, através daquela parede de vidro intransponível, durante três meses.

Todos os dias olhava para ti e pensava. Tentava ganhar coragem. Não sabia se estava a criar expectativas demasiado altas, se irias desiludir-me.

Não sabia se os momentos de prazer e êxtase celestial com que sonhava sempre que passava por ti ao longe iriam alguma vez concretizar-se, ou se serias mais uma das decepções que todos enfrentamos por vezes na vida. Desconhecia se estarias à altura daquilo que estava disposto a sacrificar.

Iria querer comparar-te, saber se eras melhor ou pior do que aquilo que já tinha experimentado antes, se tinhas capacidade para satisfazer os meus desejos mais íntimos e inconfessáveis.

Naquele dia, finalmente, consegui reunir a coragem necessária. Decidi que iria trazer-te comigo. Acerquei-me das tuas profundidades negras e luxuriantes. Dei um passo em frente.

Peguei em ti. Retirei, cuidadosa e carinhosamente, tudo aquilo que te envolvia superfluamente. Dirigi-te os meus lábios com medo e fervor religioso. Entreguei-me e deixei que entrasses em mim com toda a tua intensidade, negrume e doçura. Fechei os olhos. Pensei: “Seja o que Deus quiser”.

Não posso dizer que tenha sido uma experiência do outro Mundo, como intimamente antecipava. Mas mesmo assim, valeu a pena. Tu, mini-bolo de brigadeiro arredondado (e não em fatia ou pequenina bola individual, como seria habitual), não eras exactamente o que esperava.

Não eras uma espécie de brigadeiro aumentado e acrescentado. Tinhas cobertura de massa de brigadeiro por fora (doce, consistente, agradável, capaz de fazer sonhar um bocadinho), e, por dentro, eras um bolo de chocolate, e não um brigadeiro. Um bom bolo de chocolate. Sem chegar a ser enjoativo, fortemente adocicado, húmido, suficientemente sólido para satisfazer.

A nossa história de amor acabou assim, contigo dentro de mim. É um daqueles amores que foi mais expectativa do que concretização, mas, mesmo assim, não me arrependo.

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