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Quando o monstro micro-ondas chegou a minha casa

Quando o monstro micro-ondas chegou a minha casa, talvez tivesse uns 14 anos. O meu pai era camionista, nos anos 1980. Carregava todo o tipo de coisas. Pedras, areia, vinho, bananas, bacalhau, tudo aquilo de que alguém pudesse lembrar-se.

Muitas vezes, acontecia uma carga estragar-se, perder-se parcialmente, ficar caída no meio da estrada. O meu pai nunca foi pessoa de deixar as coisas desperdiçar-se, fossem elas quais fossem.

De vez em quando apareciam bolachas de marcas e sabores estranhos e desconhecidos, cacau puro, um bacalhau a secar num canto da casa, um cacho de bananas verdes que amadureciam no domicílio, segundo técnicas horto-frutícolas ancestrais. Nesse dia foi diferente.

Naquela família, quem amava, acarinhava e venerava mais os livros era a minha mãe… O meu pai tinha consciência disso.

Naquela fria noite de Inverno, há mais de 30 anos, aconteceu um milagre literário. Do mesmo buraco negro donde surgiam os bacalhaus, as bananas, as bolachas e muitas coisas mais, apareceram livros. Mas não eram uns livros quaisquer.

Eram obras que, hoje, têm 70 anos de idade. São relíquias em si, materialmente, mas também pelo conteúdo. As Lendas e Narrativas, de Alexandre Herculano, estão ali ao lado, na estante dos livros antigos.

Havia, também, O Monstro Micro-Ondas, que veio mesmo a calhar para divertir e encantar dois adolescentes ávidos de aventura e novidade, e a sua mãe, que partilhava das mesmas necessidades. Algumas centenas de páginas de ficção fantástica, que não faço ideia onde se encontram hoje. Li-as, fascinado.

E havia… Anna Karenina, de Tolstoi! Numa edição de 1946. Que sorte nós tínhamos, em ter um pai tão diversificado e providenciador. Devorei a história dos amores e desamores da jovem e linda aristocrata russa, dividida entre os deveres conjugais que a sociedade rígida e conservadora da época e o casamento lhe impunham, e as paixões incontroláveis que lhe palpitavam permanentemente no coração.

Esta edição estava incompleta… Passaram uns anos até a minha mãe conseguir encontrar e oferecer-me um exemplar integral, para que pudesse continuar a viver aqueles dias intensos, poéticos e dramáticos, entre bailes de sociedade, beijos roubados de fugida e sofrimentos arrebatados.

A luz, que para a infortunada tinha iluminado o livro da sua vida com os seus tormentos, as suas traições e as suas dores, rasgando as trevas, brilhou num clarão mais vivo, vacilou e extinguiu-se para sempre”, lê-se, no final da sétima parte. Acabei por reviver esta frase ao longo da vida, em várias edições diferentes da obra. E é das frases mais belas que conheci em toda a minha existência.

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