volta julho 16  2

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Dorme com um olho aberto. Se passar um gato, ele sabe

Tem os fones profundamente colocados nos ouvidos. Pela primeira vez em meses, o homem do rádio e do amigo imaginário, instalado do lado de fora do portão de uma garagem, apenas diz boa noite, agradece e não solicita mais conversa.

Mais à frente… O homem que está sempre a dormir só fala de seis em seis anos, e só com a rapariga dos caracóis dourados que nunca sai de casa sem bolachas. Ela não veio hoje.

Na paragem seguinte, damos de caras com H., que está farto da rua, dos roubos que sofre diariamente e de chegar à porta dos empregadores e constatar sempre que, por mais rápido que seja, alguém respondeu antes ao anúncio.

Uma mudança radical

Vamos ao encontro dos homens indianos instalados na pedra ao lado do supermercado. Durante muitas e muitas rondas nocturnas de apoio à gente que nada tem, não conseguimos falar com eles, romper as barreiras da comunicação linguística e ajudá-los a encontrar um caminho para fora da rua.

Desta vez, há um novo elemento neste trio, e percebe Tudo o que dizemos. Combinamos uma visita dos técnicos e assistentes sociais da Comunidade Vida e Paz, para o dia seguinte, e prosseguimos.

No local da cidade mais concorrido por seres humanos carenciados e mais apoiado por instituições de solidariedade, cruzamo-nos com A. O nosso amigo de muitos anos, que, graças a si próprio, já não vive debaixo das estrelas, informa-nos de que nós, pessoas, somos a única criatura que inventa e come tudo e mais alguma coisa e não morre.

Não morre, é como quem diz. Isso é uma questão de tempo, digo. A. responde-me, filosoficamente: “Bom, pois, isso é próprio da existência, a morte é inevitável”. Ao lado, o homem que está sempre bem disposto diz que gostava de ter um jacto e uma casa em cada parte do mundo, como Cristiano Ronaldo.

Há dois dias na rua

Meia hora depois conhecemos M., há dois dias na rua. Sem casa, sem trabalho, sem abrigo. É o terceiro homem que convencemos esta noite, neste caso com aparente sucesso, a visitar o Espaço Aberto ao Diálogo (EAD) da Comunidade Vida e Paz, para que os técnicos e assistentes sociais o ajudem a pôr em prática as suas competências profissionais especializadas, a conseguir casa e trabalho.

Com o homem de mãe siciliana e pai ucraniano, 15 minutos antes, não tivemos tanto sucesso. Já não acredita nos portugueses, nem em nada. Só nos 15 euros que lhe pagam para guardar a porta de um armazém. Dorme com um olho aberto e outro fechado. Se passar um gato, ele sabe.

Aproximamo-nos do fim. O sábio e filósofo que tem 83 anos, é cego, tem por lar a calçada há 30 anos e nunca cheira mal nem tem mau aspecto responde, quando pergunto como está: “Estamos Vivos!”. Hoje não quer mais conversa: Não trouxemos a rapariga dos caracóis dourados que nunca sai de casa sem bolachas.

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