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“Sou muito boa, procuro um homem”

Cinco minutos antes já lá estou, de copo na mão, na esquina. Mas o café está muito cheio, decidimo-nos pela casa do Vítor. Lá vamos, de sacos na mão, depois de passarmos pela mercearia indiana.

Sentamo-nos. Meia hora depois, ficamos sem o capitão, que não resiste às pancadas fortes e certeiras do adversário e acaba por sair de maca. Chegamos ao fim da primeira parte sem golos.

Guerra de nervos, até ao final dos 90 minutos. O Francisco e o Vítor discutem se o capitão reagiu bem ou mal ao facto de não ter podido continuar a jogar. Eu e a Manuela vamos apanhar ar, até ao café, a um metro do prédio. Voltamos e começa o prolongamento.

Os minutos passam, sem golos… Até que surge um herói atlético, estiloso, por entre a relva escorregadia e irregular, dispara uma bala distante, quase impossível, acerta na baliza e pulveriza as esperanças francesas. Somos campeões, a festa vai começar.

Prossegue o debate entre os dois amigos, sobre a qualidade do futebol luso e francês. Nas ruas da Baixa, é a loucura. Mais umas voltas, mais umas discussões sobre a circularidade da bola, damos a celebração por terminada, eles vão para baixo, eu vou para cima.

 

“Ai, desculpe!!”

 

A seguir ao miradouro de Santa Lúzia, à minha frente duas moças jovens, 20 e tal anos. Uma de t-shirt e calças de ganga, outra com uns pequenos calções, ou uma reduzida mini-saia, não se percebe.

Elas aos zigue-zagues, eu tento sem grande sucesso passar pelo meio das duas e reduzo o passo. A de calças de ganga canta alegre e entusiasticamente: “Sou muita boa, procuro um homem, tenho uma grandas mamas, come-me toda”. Contenho o riso e volto a tentar passar por elas.

A cantora assusta-se e pede desculpa. “Tudo bem, não há problema”, respondo. Consigo passar, avanço, deixo-as para trás, elas a rir audivelmente, eu a dar gargalhadas por dentro.

Antes da Graça, um grupo de adeptos vê o cachecol verde e encarnado e pergunta se sou mesmo português ou um francês disfarçado, para não ser atacado. Procuro parecer o mais lusitano possível, o que no meu caso não será difícil, e respondo que sou “totalmente português”.

A seguir aos Sapadores, um homem e a música que sai do seu telemóvel conseguem fazer mais barulho do que uma multidão de 50 pessoas e quatro ou cinco televisões ou aparelhagens estéreo. Fico espantado a olhar e depois avanço.

Em casa, informo os meus gatinhos de que somos campeões e eles ficam muito felizes com a minha alegria. Eu e os meus quatro companheiros peludos vamos para a cama e adormecemos. Nenhum deles me sussurra aos ouvidos algo como “Sou muita boa, procuro um homem, tenho umas grandas mamas, come-me toda”.

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