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Fugiu da guerra e dormiu na rua. O filho já é quase Mestre em Economia Internacional

Chego ao meu destino às 05H50 da manhã. À porta, três pessoas, à minha frente. É um dia bom, na Loja do Cidadão. Costuma estar mais gente a esta hora. Há um português que viveu na Suíça, uma russa que mora em Portugal e uma refugiada cabo-verdiana dos conflitos políticos africanos da década de 1990.

Começo a ler, de pé, A Jovem Guarda, de Alexandre Fadéiev. “Gosta do livro?”, pergunta a mulher loira, olhos azuis, cinquenta anos e picos. Surpreendido, respondo que adoro literatura russa, e que esta é uma obra com uma marca ideológica forte, oriunda dos tempos do império soviético. Isso não parece incomodá-la de todo.

Comenta que, com ou sem ideologia, o livro mostra o enorme patriotismo e sacrifício dos russos perante o regime nazi. Conversamos acerca de Vida e Destino, de Vassily Grossman, e As Indolentes, de Jonathan Littel, os dois também sobre a segunda guerra mundial.

A mulher russa, casada com um português, e cuja filha vive na Rússia, diz que é preciso recordar o que aconteceu na época de Hitler. É necessário evitar o esquecimento dos crimes do regime nazi, porque aquilo que sucedeu há meio século pode bem repetir-se.

Tem gravados na memória os testemunhos dos pais, avós, familiares, descrevendo os horrores da ocupação nazi. A mulher simpática de olhos claros, transparentes e sonhadores garante-me que adora Vladimir Putin, o Presidente da Rússia.

Diz que a economia russa tinha sido destruída e ele levantou-a de novo. Explica as razões que, do seu ponto de vista, justificam totalmente a actuação militar russa na recente guerra da Ucrânia. Diz que o que aconteceu na Crimeia foi “uma grande confusão”, a Crimeia sempre foi russa, nunca deixou de o ser.

 

As bombas de Putin

 

Pergunto-lhe sobre as bombas de Putin na Síria. “E a situação não melhorou? E os refugiados começaram a vir antes ou depois dos bombardeamentos russos?”. Nesta altura, a mulher negra e gentil do nosso lado esquerdo, terceira na fila, mete-se na conversa e diz que os bombardeamentos são uma coisa horrível. Fico a olhar para ela interrogativamente.

Da boca da figura alta e amável desta cabo-verdiana de formas elegantes e generosas vão saindo aos bochechos relatos da década de 1990. Foi apanhada pela guerra civil guineense naquela época. Viu as bombas e os estilhaços cair dentro da casa onde se encontrava.

Esteve na embaixada, sem comida nem água, a ouvir as explosões  e os tiros. Veio de barco e de fragata para Portugal, graças à ajuda do governo português, que salvou parte das pessoas que fugiam do conflito.

No meio dos refugiados dessa guerra africana, havia bebés. Bebés na embaixada, no barco pequeno, depois na fragata, bebés que chegaram a Portugal e aos quais não sabe o que aconteceu mais tarde, embora ainda os tenha procurado durante meses. Chegou a proteger a vida de alguns com o próprio corpo. Colocou-se por cima e pensou: “Se vier outra bomba, paciência. Eu fico mas ele vive”.

Em Portugal, ainda dormiu na rua, mas foi salva por um trabalhador da construção civil, que lhe ofereceu durante várias semanas, sem pedir nada, a cama dele (instalando-se no sofá), para ela e o filho, e a ajudou a encontrar casa e trabalho. Arranjou emprego num café, deu no duro, conheceu uma patroa que lhe possibilitou comprar casa, servindo de fiadora, e ajudou no recheio. O filho já é licenciado em relações internacionais, e está a fazer o mestrado em economia internacional.

Oito e meia da manhã. Abre a Loja do Cidadão.

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