zambujeira

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“Estamos lixados. Não saímos daqui vivos”

“Estamos f. Estamos lixados. Já não conseguimos sair daqui”. Era o que gritava aquela figurinha mínima, minúscula, que nadava, desesperadamente, ao meu lado. A minha meiga priminha estava quase a entregar os pontos. Eu, ligeiramente mais velho, achava que ainda era muito cedo para isso. Conhecia bem aquele mar caprichoso da Zambujeira, mas o problema, ali, é mesmo quando achamos que sabemos tudo sobre as imprevisíveis malhas de Neptuno. Restava saber quem teria razão, ela ou eu.

 

Foi só a aventura mais desafiante que vivemos, naqueles anos de pura inocência, liberdade total e nenhuma responsabilidade. Os outros episódios foram mais doces e menos dramáticos. A miúda, que já tem dois filhos, incluindo uma carinha roliça e brilhante ainda mais espevitada do que ela era, lembrar-se-á para sempre d’“O Amor e uma cabana em versão primos”. Íamos para os pinheiros ao lado da casa, no Malavado, e construíamos a dita edificação, com o que apanhávamos pelo chão. Lá dentro, passámos os nossos momentos da mais irresistível infantilidade, da mais invulnerável e pura felicidade dos putos que éramos.

 

A miúda adorava que o meu pai lhe desse pescoçadas: O vocábulo aplicava-se quando o “Tio Beto” ia ao banho, na Zambujeira ou na Fonte da Telha, e a levava às cavalitas. A gaiata passava os tempos da vida dela quando se deslocava para uma estival temporada em nossa casa. Fazia tudo aquilo a que os pais nunca a convenciam. Como comer e beber às refeições. Havia nisso o dedo indubitável da minha sábia e experimentada mamã…

 

Isso leva a que hoje esta moça alegre e bem disposta, que me lembra constantemente de que sou o seu melhor amigo, também fale a toda a hora de três coisas… O pão às janelinhas (cubos) que a minha mãe lhe servia ao lanche, o queijo de forma igual que vinha com o pão, e o leite com Nesquik, em copo de plástico da Tupperware, com palhinha grossa e dura do mesmo material. Foi a maneira que a “Tia Bia” arranjou para ela tomar sempre alegre e divertidamente o pequeno-almoço e o lanche da manhã e da tarde… E guardar uma memória eterna.

 

Décadas depois, eu e a miúda trabalhámos juntos. Ríamo-nos que nem uns perdidos. Criticávamos muito, nesse tempo pré-austeridade, aquelas “semanas esquisitas”, que só tinham um – ou nenhum – feriado. Queríamos as “semanas normais”, as que tinham, pelos menos, uns dois feriados ou pontes (hoje em dia, essa espécie “normal” está definitivamente extinta).

 

Estive lá em casa no outro dia. Festejávamos o aniversário da mamã dela, e celebrávamos a Vida. Olhávamos, gulosos, para os bolinhos e os quadrados de pão e queijo na mesa. E, evidentemente… Para os macarons de Nutella! O essencial não mudou, miúda.

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