RossioNoite

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“Por enquanto ainda não sou gato”

Recebe-nos com a simpatia e a euforia verbal de sempre. Está a ouvir jazz. Segue-se uma fascinante dissertação sobre a música clássica e a botânica, que toma como ponto de partida o pequeno e sonante rádio de pilhas, de onde saem notas apelativas e vistosas de Miles Davis, e a árvore que se ergue à frente da garagem. Conseguimos acompanhá-lo até ao terceiro tronco do pinheiro, que, de facto, vemos, e a partir daí perdemo-nos.

Voltamos a encontrar-nos no raciocínio, quando nos anuncia que, dia 2 de Agosto, faz anos. E que estamos convidados para uma ginginha nesse dia. Depois da entrega do saco de comida, do iogurte e de três ou quatro dedos de conversa, o encontro conclui-se de forma original.

Aparece um homem de aspecto asiático, talvez um empregado de uma das lojas indianas ou paquistanesas ou bengalis da zona, e oferece-lhe uma cerveja. Este acto de solidariedade líquida é recebido com enorme agrado por parte do nosso companheiro ocasional.

Mais à frente, encontramos um homem que aceita sempre com prazer a oferta de comida da Comunidade Vida e Paz, mas jamais responde verbalmente às nossas abordagens. Hoje, a voluntária que nunca anda sem bolachas traz-lhe uma camisa, e o inesperado acontece.

Não se pode dizer que haja uma enorme troca de palavras, não há, a bem dizer, uma transmissão de vocábulos… Mas, definitivamente, existe comunicação. Do mais alto nível. Durante longos minutos.

Noutras traseiras ocultas, sucede qualquer coisa parecida. O homem sem abrigo mais estiloso de Lisboa, que dorme de óculos escuros, e, quando fala mais de cinco minutos, nos deixa de cabeça à roda, às voltas pelos seus pensamentos labirínticos, tem um amigo gato, e costuma dar-lhe pão e bolo.

Os voluntários da Comunidade Vida e Paz e da associação Animalife propõem-lhe um saco de ração. Começa por responder: “Por enquanto, ainda não sou gato”. A comunicação processa-se com algumas interferências. Mas quando lhe mostramos o saco de marca branca, para o seu amigo felino, o rosto dele ilumina-se. Agradece muito, pede para colocarmos a oferta a um cantinho, onde não se veja e não possa ser roubada.

A última paragem costuma ser a mais enriquecedora da noite. Mas o nosso amigo, um sábio e filósofo de íntegras e determinadas convicções políticas, religiosas e sociais, está a dormir… Hoje não vamos ouvi-lo a preencher os nossos espíritos com ciência, conhecimento e factos históricos da maior relevância. Não vai comentar connosco as eleições americanas, nem o Brexit inglês.

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